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Não tossir, espirrar ou respirar: há jeito seguro de abraçar na pandemia?

O casal Laura e Pat Fehilly criou uma roupa especial para poder abraçar os netos em tempos de pandemia - Reprodução/SkyNews
O casal Laura e Pat Fehilly criou uma roupa especial para poder abraçar os netos em tempos de pandemia Imagem: Reprodução/SkyNews

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

18/06/2020 04h00

A necessidade de distanciamento social na pandemia fez com que algumas pessoas exercessem a criatividade para se abraçar. Há quem improvisou cortina de plástico para encostar nos avós ou até fez "traje anticovid-19" para abraçar a professora.

O jornal The New York Times listou dicas para quem deseja se envolver nos braços do outro, sugerindo desde prender a respiração até cronometrar o tempo de carinho. Mas será que mesmo com todas essas regras e parafernálias há risco de exposição ao vírus?

Milena Ponczek, pós-doutoranda em ciências atmosféricas na USP (Universidade de São Paulo), que trabalha com aerossóis, analisou estudos sobre o risco de exposição viral por contato próximo e concluiu que é melhor deixar o abraço para outro momento.

Segundo ela, o principal problema é o número de assintomáticos, ou seja, pessoas que têm o vírus, mas não têm sintomas e, portanto, não sabem que estão doentes. Ao falar ou respirar, esse indivíduo solta partículas contaminantes, mesmo que esteja de máscara. Um abraço, então, pode ser uma ponte para que essas partículas cheguem a outra pessoa saudável.

Partículas da fala e da respiração

A quantidade de partículas que uma pessoa solta depende da força que ela faz ao falar e respirar e, por isso cada estudo traz números diferentes. Tem pessoas que naturalmente emitem mais partículas do que outras, falando ou respirando, são os chamados super-emissores.

"Quanto mais alto a pessoa fala, mais partículas vai produzir. Essas pessoas emitem, em média, 10 partículas por segundo. Se você ficar 10 minutos conversando com uma delas, supondo que ela seja assintomática, vai estar exposto a aproximadamente 6.000 partículas de aerossol direto, muito perto", diz Ponczek.

Para piorar, ainda não se sabe qual a quantidade necessária de partículas para deixar alguém doente. "Essa é a maior dúvida atualmente para a ciência entender a infecção. A gente não sabe exatamente quantos vírus têm em cada partícula, porque ela é grande o suficiente para ter vários, nem qual é dose mínima infecciosa, quantos vírus eu preciso para ficar doente." Isso significa que, pode ser uma ou mil. Quem vai arriscar?

Abraço - FG Trade/iStock - FG Trade/iStock
O afeto físico, como um abraço, reduz o estresse
Imagem: FG Trade/iStock

Mesmo de máscara?

Pode ser assustador pensar que a máscara não impede que essas partículas saiam da boca ou do nariz, mas isso já um fato conhecido. Apesar de seu uso ser importante e ajudar muito na contenção de gotículas, ela não é 100% eficiente.

"Toda máscara tem o que a gente chama de eficiência de filtração. A pessoa vai emitir partículas de diferentes tamanhos e a máscara vai ter uma eficiência diferente para cada tamanho de partícula", diz Ponczek. De acordo com ela, a máscara de algodão, com camada dupla, funciona justamente para melhorar essa eficiência de filtração, mas nenhuma máscara filtra 100%. Mesmo as máscaras N95, que são as melhores, têm de 95 a 97% de eficiência.

Entre as diretrizes do New York Times para um abraço "seguro", estão: não abraçar com os rostos muito próximos, não deixar as bochechas juntas, na mesma direção, prender a respiração, abraçar por até, no máximo, 10 segundos e, depois que acabar, sair correndo para direções opostas. Apesar de ser cômico imaginar isso acontecendo, a quantidade de regras também pode ser um entrave à segurança durante o carinho.

"A gente já teve uma baixa adesão ao distanciamento, e era uma coisa bem direta como 'fique em casa ponto'. Agora, imagine que esteja liberado o abraço e a pessoa tem que pensar que tem que colocar a máscara, virar para o lado, contar os segundos, prender a respiração. Sim, é possível tudo isso, mas como vamos garantir que as pessoas seguirão as regras?", questiona Juliana Reis Cortines, microbiologista e virologista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Cortines diz que só o fato de não poder respirar já é um problema. "Tem gente que não consegue prender a respiração. Como vai lembrar de todas as regras ao mesmo tempo?". Além disso, encontrar-se com um ente querido após meses pode dificultar as coisas.

"Imagine se você encontra uma pessoa da sua família e tem que lembrar de todas as regras? Eu vi vários casos de pessoas abraçando pelo plástico. Talvez essa seja a mais segura de todas, mas olha que perrengue."

Ponczek concorda: "Pessoalmente falando, acho que é um pouco difícil você dizer 'vou abraçar, vou prender a respiração, não vou falar'. Me parece um pouco bizarro".

Qualquer interação social ainda traz risco

Aliás, lembrando que, mesmo que alguém consiga seguir as diretrizes, virando a cara, prendendo a respiração, não tossindo, não espirrando e não falando, não podemos dizer que o risco de exposição ao vírus é baixo. Por mais que se consiga durante os 10 segundos do abraço, depois que as pessoas se afastarem, muito provavelmente elas vão ter que respirar e vão falar. Afinal, elas estão tendo alguma interação social e provavelmente vão se comunicar.

Mariana Peres criou "traje anticovid-19" para o filho abraçar a professora - Reprodução - Reprodução
Mariana Peres criou "traje anticovid-19" para o filho abraçar a professora
Imagem: Reprodução

"O perigo não é só no momento em que as pessoas estão juntas. O problema das partículas aéreas é que elas ficam um tempo em suspensão no ar, então uma vez que você falou e emitiu essas partículas, elas ficam por lá e, dependendo do tamanho delas, ficam por um período longo", diz Ponczek.

Como ainda há muito mais perguntas do que respostas, todas as orientações sanitárias são para minimizar o risco de contágio. Então, quanto menos puder se expor ou expor outras pessoas, melhor. "Com o grande número de assintomáticos, é muito difícil saber lidar com isso, que posso ter o vírus e não saber. Mesmo com todo cuidado que tome, posso colocar em risco outras pessoas sem querer. Por isso eu acho que por enquanto não dá para se abraçar, infelizmente", diz Ponczek.

Ficar sem tocar no outro é horrível. O abraço está associado à produção de hormônios que geram sensação de bem-estar, como a ocitocina, que melhora a confiança, a empatia e reduz o estresse. Além disso, aninhar-se em alguém querido é uma cultura local.

"Somos um povo latino. Nos EUA, falam de um abraço de 10 segundos, mas aqui o abraço é de minutos", diz Cortines. "Se for inevitável, realmente tem que seguir todas essas regras. Mas acho que para o bem maior, aguente mais um pouquinho".

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