Opinião

Alcoolismo em mulheres: da solidão ao acolhimento

Quando pensamos na doença do alcoolismo, a imagem que vem à nossa mente é sempre de um homem alcoolizado, cambaleando pela rua, caído na calçada ou sendo preso por dirigir embriagado após provocar um acidente de trânsito com vítimas fatais. Imaginar esses mesmos cenários tendo como personagem central a figura de uma mulher parecia algo inimaginável.

A figura da mulher alcoólica, que antes era vista apenas numa cena de filme, como "Quando um Homem Ama uma Mulher", com Meg Ryan e Andy Garcia, ou numa novela, como "Mulheres Apaixonadas", na figura da professora Santana, interpretada por Vera Holtz, ganha o mundo real, assumindo cada vez mais o papel de protagonista.

Em pouco mais de uma década, o consumo de álcool pela população feminina cresceu aproximadamente 30%. Proporcionalmente, as mulheres bebem menos que os homens, mais sofrem mais rapidamente os efeitos do álcool no organismo. Prova disso foi o aumento de 7% de óbitos e 5% de internações de mulheres atribuíveis ao álcool, segundo dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, ou Cisa.

Tão complexo quanto as complicações clínicas do álcool no organismo feminino, o alcoolismo é o grande propulsor das doenças emocionais na vida de um grande número de mulheres. O estigma do alcoolismo se faz muito mais presente quando associado à questão do gênero.

Para muitos, é difícil imaginar uma mulher grávida alcoolizada, uma mãe embriagada dirigindo seu carro em alta velocidade com os filhos dentro ou que uma mulher seja capaz de beber perfume, desodorante líquido ou álcool 70% durante uma síndrome de abstinência.

A doença do alcoolismo e a solidão caminham juntos. Permeada de emoções como culpa, medo, tristeza, mágoa, raiva e ódio, a dependência do álcool talvez seja uma das doenças mais emocionalmente tóxicas. Quando relacionada a questões femininas, podemos afirmar que estamos diante de uma intoxicação emocional no seu mais alto nível.

O estado de solidão alimentado especialmente pelo medo do abandono e das perdas leva a mulher alcoólica ao autoabandono, isto é, ela se abandona com medo de ser abandonada.

A "solidão alcoólica" é difícil de ser descrita quando comparada com a solidão no seu estado único. Ela é extremamente cruel e avassaladora. O medo do que os outros vão dizer é um dos pontos essenciais para analisarmos a complexidade da dependência do álcool.

Mesmo estando cercada de pessoas que a amam, a mulher alcoólica sente um profundo sentimento de inadequação, de exclusão, de estar sendo preterida e condenada a viver prisioneira dos seus pensamentos compulsivos e obsessivos. Pensamentos esses que geram a negação, um mecanismo de defesa do ego que colabora com a pouca visibilidade da doença do alcoolismo entre as mulheres e principalmente pela baixa procura pelo tratamento.

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Somente uma mulher alcoólica em recuperação pode compreender verdadeiramente a dor desse estado de solidão. Por isso, iniciativas femininas de acolhimento têm atraído cada vez mais mulheres com problemas com álcool. Uma delas, a Colcha de Retalhos de Alcoólicos Anônimos abraça cada recém chegada em suas reuniões presenciais ou online, dizendo: "Você não está mais sozinha". Existe ajuda, existe esperança.

Mas como saber se você é uma pessoa alcoólica?

Essa é uma dúvida que assola muitos bebedores e há alguns indícios que podem ser observados, como:

comprar bebida alcoólica em lugares diferentes para que ninguém saiba a quantidade total que comprou;

esconder garrafas vazias para jogá-las de forma escondida;

não se lembrar de nada após ingestão de álcool;

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colocar-se em posição defensiva quando alguém faz referência à sua forma de beber;

se achar mais bonita e atraente quando bebe ou beber ao se sentir pressionada.

Se você se identificou com alguma dessas situações ou reconhece esses sinais num familiar, convido a olhar com olhos de primeira vez o doente alcoólico, reconhecendo toda sua fragilidade humana.

Buscar ajuda é um passo importante. Há opções de apoio e tratamento gratuitos no Brasil, como os grupos de mútua ajuda e as reuniões de composição feminina de Alcoólicos Anônimos. Hoje são mais de 58 reuniões voltadas para as mulheres alcoólicas realizadas semanalmente no país.

Pessoas precisam de pessoas, por isso, juntos poderemos continuar construindo uma acolhedora colcha de retalhos.

Jaira Freixiela Adamczyk é psicóloga, mestre em tratamento e prevenção à dependência química, terapeuta de família e casal, amiga de alcoólicos anônimos, sendo presidente da JUNAAB - Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil de 2014 a 2017.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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