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Mariana Varella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para prevenir o câncer de pênis, é preciso falar sobre o pênis

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Mariana Varella

Mariana Varella é cientista social e jornalista de saúde. Editora-chefe do Portal Drauzio Varella e pós-graduanda da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Colunista do VivaBem

24/11/2021 04h00

Todos os anos, mais de mil brasileiros perdem o pênis devido a amputações causadas pelo câncer de pênis. Segundo um estudo conduzido no Maranhão, estado com a mais alta incidência desse tipo de câncer, a média de idade dos pacientes à época do diagnóstico era de 58 anos. Na pesquisa, realizada entre 2004 e 2014, mais de 20% dos 392 participantes tinham menos de 40 anos ao descobrir a doença, e 93% precisaram se submeter à amputação do membro (penectomia).

O câncer de pênis está totalmente relacionado a fatores socioeconômicos. É muito raro em países desenvolvidos, mas é responsável por cerca de 10% dos cânceres em homens na Ásia, América Latina e África. Embora não haja dados confiáveis, o Brasil figura como o país com a mais alta incidência desse tipo de câncer no mundo.

De acordo com o Inca (Instituto Nacional do Câncer), as principais causas do câncer de pênis são higiene íntima inadequada e infecção prévia pelo vírus HPV, que é transmitido sexualmente. O diagnóstico tardio está intimamente relacionado a um mau prognóstico.

Visando a alertar a população acerca do problema, o Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) lançou uma campanha batizada de "Lave o Dito Cujo", com informações e ilustrações para conscientizar os homens da importância da higiene para evitar a doença. As peças publicitárias foram distribuídas em locais públicos, incluindo o Metrô de São Paulo.

No entanto, no dia 19/11/21, o governo do estado retirou a campanha das estações do Metrô, cedendo ao pedido do deputado estadual Tenente Nascimento (PSL), que protocolou um requerimento e uma moção de repúdio contra a campanha na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Para o deputado, as ilustrações da genitália masculina constrangem a população e ferem os costumes e a tradição da família brasileira.

Se eu tivesse a oportunidade, gostaria de dizer ao deputado que o que deveria constranger as famílias brasileiras é o fato de mais de mil homens perderem o pênis todos os anos por uma doença evitável com medidas de prevenção, como higiene adequada, uso de preservativo e vacina contra o HPV, diagnóstico precoce e tratamento. O que deveria nos envergonhar, deputado, é o fato de ostentarmos o primeiro lugar na incidência desse tipo de câncer e de amputações penianas que causam uma verdadeira tragédia na vida de tantos homens, muitos deles jovens.

Sabemos que além da dificuldade de acesso, muitos homens só procuram os serviços de saúde quando adoecem gravemente ou são conduzidos por mulheres da família. Criados para serem provedores, muitos entendem que ficar doente é sinal de fraqueza. Além disso, uma doença que atinge o pênis causa constrangimento, principalmente em um país machista como o nosso, o que leva muitos a ignorarem os sintomas iniciais.

Para mudar esse cenário é preciso falar a respeito. Devemos dizer que é essencial vacinar os meninos contra o HPV* e ensiná-los a se lavar adequadamente, além de aumentar o acesso ao saneamento básico, à educação sexual e a serviços de saúde. Os conservadores têm de entender que a sexualidade é assunto relevante para a saúde pública, e que não temos como alertar as pessoas sobre infecções sexualmente transmissíveis ou doenças que atinjam órgãos sexuais sem mencioná-los com clareza.

Sim, essas campanhas devem atingir as crianças também. Afinal, a melhor forma de reduzir preconceitos e tabus é abordar o tema com a naturalidade que ele merece, com o intuito de conscientizar toda a população sobre a importância de conhecer e cuidar do próprio corpo para manter a saúde. Aliás, o corpo humano não é feio, não é vergonhoso; deve ser tratado com respeito, sem piadas.

As campanhas de promoção à saúde são feitas com base em dados e evidências científicas e visam à prevenção de doenças e à redução de danos. Não há tema que não possa ser abordado, se for para ajudar a conscientizar e informar a população acerca dos riscos a que está sujeita. O silêncio abre espaço para desinformação e tabus, e só serve para tornar, como nos mostram diversos estudos, grupos e indivíduos já vulneráveis ainda mais estigmatizados e, consequentemente, mais suscetíveis.

*A vacina contra o HPV está disponível gratuitamente em 2 doses para meninos de 11 a 14 anos e meninas de 9 a 14 anos. Também podem receber a vacina pelo SUS: mulheres imunossuprimidas de 9 a 46 anos; e homens imunossuprimidos de 9 a 26 anos. Além do câncer de pênis, a vacina ajuda a prevenir verrugas genitais (condiloma) e outros tipos de cânceres, como de colo de útero e de garganta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL