Lúcia Helena

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Alopecia areata: um remédio para homens e mulheres que perderam os cabelos

É um susto que, embora seja mais comum em adultos jovens —homens e mulheres, na mesma proporção—, pode acontecer com pessoas de qualquer idade, incluindo crianças pequenas. Os cabelos e os pelos do corpo caem do dia para a noite, de maneira um tanto abrupta. Isso é típico da alopecia areata.

Às vezes, soltam-se tufos do nada, deixando uma área do couro cabeludo totalmente à mostra. Mas também há aqueles casos generalizados, em que, de repente, não sobra um fio na cabeça. Aliás, talvez nem sequer nas sobrancelhas e em outras áreas.

O que aumenta a angústia, além da aparência, é a incerteza. Se alguém garantir que, um dia, os cabelos voltarão a crescer, estará chutando.

"Em alguns pacientes, de fato isso pode acontecer espontaneamente depois de alguns meses. Em outros, porém, essa perda será duradoura", conta a professora Renata Magalhães. "Existem pessoas que não respondem nem mesmo ao tratamento de imunossupressão e ficam sem cabelos para sempre."

Na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a médica chefia o Serviço de Dermatologia, um dos centros que participaram do estudo de fase 3 de um novo medicamento, o baricitinibe, aprovado há duas semanas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Trata-se, em suas palavras, de uma enorme conquista.

Não há, nessa impressão da dermatologista, um fio de exagero, se a gente olhar para os resultados que levaram à sua aprovação. A molécula, desenvolvida pelo laboratório Eli Lilly, foi usada em 1.200 adultos —inclusive nos brasileiros acompanhados na Unicamp— com alopecia areata grave. Ou seja, eles tinham perdido de metade a 100% dos cabelos. Mas em seis meses de tratamento, para 22% dos pacientes, 80% da área do couro cabeludo que tinha ficado pelada foi recoberta.

Por trás do susto

As causas da alopecia areata permanecem um tanto nebulosas. No imaginário popular, o problema é sempre atribuído ao estresse —e não é bem assim. Ora, se fosse só isso mesmo, não restaria um único ser humano cabeludo neste mundo pra lá de conturbado.

Mas, sim, de acordo com a professora Renata Magalhães, um episódio de estresse agudo, como a morte inesperada de um familiar ou a mudança de país, é capaz de mexer no eixo que liga os nossos sistemas nervoso, endócrino e imunológico, deflagrando a confusão. Óbvio que nem toda pessoa estressada irá desenvolver a alopecia areata.

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"Também podem servir de gatilho algumas infecções ou o uso de medicamentos", diz a professora, para dar mais exemplos. Seja qual for o fator desencadeante, o que se sabe é que se trata de uma doença em que o sistema imunológico está envolvido, com o perdão do trocadilho, até o último fio de cabelo.

Há ainda, nessa história, um componente genético. Tanto que, às vezes, existem casos na família da própria alopecia areata ou de outras condições autoimunes. Aliás, é bom já explicar: esse tipo de alopecia pode estar associado a outras doenças autoimunes, como o hipotireoidismo provocado pela inflamação constante da tireoide e o diabetes tipo 1, que surge quando o pâncreas é atacado pelas células de defesa.

Por que os fios caem

Quando o folículo piloso é o alvo de células imunológicas e moléculas inflamatórias, ele simplesmente para de funcionar. "Ele interrompe a produção de cabelo e elimina aquele que estava ali, ocupando o seu espaço", descreve a professora Renata.

Depois de um tempo de evolução desses ataques, o próprio folículo tende a desaparecer. "Por isso, a chance de os fios voltarem, quando a doença já existe de longa data, acaba sendo menor", lamenta informar Renata Magalhães. Essa, porém, não é uma norma rígida: há exceções, ou seja, gente com anos de alopecia areata que, ao ser tratada, volta a ter cabelos. Difícil é saber quem é quem.

O prognóstico também é pior entre aqueles em que a alopecia areata surge cedo, antes dos 10 anos de idade, e que apresentam áreas de acometimento no couro cabeludo muito extensas.

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O tratamento até então

Segundo Renata Magalhães, não havia muita opção para tratar essas pessoas. E a resposta aos tratamentos é muito variada: em alguns, os resultados aparecem ligeiro e, noutros, se aparecem, isso só é notado meses depois. "É imprevisível", suspira a dermatologista.

Quando a alopecia cria áreas localizadas sem fios, os médicos costumam apelar para corticoides tópicos, como cremes, ou injetam esses anti-inflamatórios na região desprovida de fios. Eles também podem indicar o minoxidil a tópico, substância que, aumentando a irrigação sanguínea no folículo, às vezes ajuda a recuperar sua função.

"Se as áreas sem cabelos são extensas, porém, o corticoide oral acaba sendo uma opção", diz a médica. "O problema, aí, são os eventos adversos que podem surgir com o tempo de uso do medicamento."

Finalmente, para os casos mais graves, os dermatologistas prescrevem imunossupressores combinados com a finesterida. "Só que não importa qual o tratamento: em geral, quando ele é interrompido, os fios voltam a cair", avisa a a médica.

Como age o novo remédio

O baricitinibe é um inibidor da Janus quinase. O nome dessa enzima é escrito assim mesmo, com "J" maiúsculo, mas os médicos também a chamam de JAK. Ela é encontrada na membrana dos linfócitos, fazendo parte dos receptores de moléculas inflamatórias, as famosas citocinas, que, ao se encaixarem bem ali, não permitem o cessar-fogo do sistema imunológico.

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"Quando a pessoa toma o baricitinibe, ele gruda nessa JAK, impedindo a ligação da citocina e, consequentemente, toda a reação que culmina na agressão ao folículo piloso", descreve, de um jeito fácil, a professora Renata.

Ela lembra que esse medicamento já era usado, inclusive no Brasil, para tratar outras doenças, como a artrite reumatoide e a dermatite atópica. É que, com o tempo, notou-se que pacientes que tinham uma dessas condições e alopecia areata ao mesmo tempo acabavam melhorando da queixa capilar. Daí que o baricitinibe passou a ser estudado em quem sofreu essa queda brusca dos cabelos.

Segundo a dermatologista, os eventos adversos são raríssimos, embora constem na bula. Um deles seria deixar os pacientes mais sujeitos a doenças infecciosas. "Mas, quando isso acontece —e friso que não é frequente— são infecções mais leves, como herpes labial, facilmente controladas", assegura a professora.

Perguntas no ar

O que ainda ninguém sabe é se o uso do baricitinibe deverá ser para o resto da vida ou se, mesmo sendo contínuo, os fios não voltariam a despencar se a dose diária fosse diminuída com o tempo —ah, sim, é um comprimido todo dia.

Outra questão é se o baricitinibe seria seguro e eficiente para crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos, já que esse grupo também pode sofrer de alopecia areata. Há um estudo sendo conduzido com pacientes nessa faixa etária, mas as primeiras respostas estão previstas para daqui a exatamente um ano, em novembro de 2024.

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Renata Magalhães está na torcida para que eles também sejam beneficiados, embora ninguém faça a menor ideia disso por enquanto "Crianças e adolescentes com alopecia areata vivem enfrentando situações de bullying", ela observa. "Entre os adultos jovens, que representam a maior a dos casos, os homens sofrem, mas acabam aceitando com maior facilidade essa condição. Já para as mulheres, conviver com essa doença é traumático."

Segundo a médica, os pacientes relatam dificuldades no dia a dia para conseguir um trabalho ou até mesmo para iniciar um relacionamento. Uma pesquisa realizada pela própria Eli Lilly com 747 pacientes de 11 países —entre eles, o Brasil— apontou que "constrangimento" e "ansiedade" são as palavras que esses indivíduos mais associam à sua condição. E, com relativa frequência, passam por crises depressivas. Para eles, o novo tratamento é esperança de fazer crescer os fios e o estado ânimo.

Errata:

o conteúdo foi alterado

  • Diferentemente do que dizia o texto, o remédio citado usado pelos médicos contra a calvície é o minoxidil. A informação já foi corrigida.

Reportagem

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