Lúcia Helena

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Reportagem

Será que vamos prevenir infarto tomando um anti-inflamatório?

Quando a história é a das placas que ameaçam entupir as artérias do coração, algumas personagens não podem faltar: o colesterol, as plaquetas, o trombo e, sim, a inflamação. "Ela sempre foi o segundo ou o terceiro slide de qualquer aula sobre aterosclerose", afirma Eduardo Lima, líder de Cardiologia do Hospital Nove de Julho e professor colaborador da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Só que, apesar de conhecerem esse enredo, na prática os cardiologistas receitam estatina para baixar o colesterol, aspirina para evitar que as plaquetas se agreguem, drogas anticoagulantes — e nadica para amainar a tal da inflamação. "Ela sempre esteve no livro e nunca esteve no consultório, porque não havia a perspectiva de uma medicação para reduzi-la a fim de proteger o coração", diz o doutor.

É isso, agora, o que todos querem. Essa busca faz a Cardiologia entrar em um labirinto, onde já se perdeu por caminhos que não levaram à saída desejada, mas no qual topou com um medicamento barato, velho conhecido de quem tem gota. Ele se tornou o primeiro anti-inflamatório com indicação em bula, ao menos nos Estados Unidos, para diminuir o risco de infarto e de AVC, o acidente vascular cerebral.

"É como aquela atriz que andava quase esquecida e que levou o Oscar, deixando para trás as estrelas favoritas dos filmes de maior bilheteria", conta Eduardo Lima, comparando a antiga colchicina aos novos anti-inflamatórios que vêm sendo estudados com a mesma finalidade.

O tema da inflamação é tão palpitante que, no final do mês passado, a Dasa, rede de saúde integrada, reuniu grandes nomes da Cardiologia nacional em torno dele, em um jantar científico realizado em São Paulo. O prato principal foi o debate.

O que inflamação tem a ver com doença cardiovascular

Quanto mais um indivíduo vive inflamado, maior o risco de ele infartar. "A gengiva inflamada pode inflamar uma placa de gordura à distância. Se está inflamada a vesícula, isso pode acontecer também. A pessoa tem lúpus e está em crise? Artrite reumatoide? Então, tudo em seu organismo vai inflamar, inclusive as placas nas artérias", explica o cardiologista.

É como se elas estivessem vivas, reagindo ao ambiente inflamado. "A aterosclerose já foi considerada uma doença degenerativa com um curso previsível", nota a médica Marianna Andrade, coordenadora da Cardiologia do Hospital da Bahia, em Salvador. "Ela começaria como pequenas estrias de gordura nas paredes do vaso, às vezes ainda na infância, crescendo até a pessoa manifestar um problema após os 60 anos", descreve. "Porém, mais recentemente notamos que isso não era tão linear em alguns indivíduos, que infartavam até bem mais jovens. Neles, o desenvolvimento da placa parecia dar saltos, dobrando de tamanho de um ano para outro. E o gatilho disso seria a inflamação."

O que fazer com os pacientes, então? "Para começo de conversa, pedir a dosagem da PCR no sangue sempre que solicitar o exame de colesterol ", responde a médica.

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PCR: um sinal de encrenca

A sigla PCR, aqui, não tem nada a ver com a do exame que se popularizou na pandemia de covid-19. Quer dizer proteína C reativa. "Ela é feito aqueles sinalizadores luminosos que os náufragos disparam quando estão no mar", compara Eduardo Lima. Não causa, nem agrava a placa. É apenas um marcador. Se sobe, é porque o fígado está dando o sinal de perigo, depois de ter sido avisado disso por outra molécula, a interleucina 6, produzida pelas nossas defesas.

Mas, se o náufrago da analogia espera que um barco enxergue o sinal luminoso para salvá-lo no meio do oceano, quem vem socorrer após o sinal da PCR? "Como ela é pouco específica e o organismo não sabe o local problema, o socorro vem de todos os lados", conta o doutor. Resultado: surge uma inflamação baixinha, mas da cabeça aos pés, que dia após dia não poupa nem sequer as placas nas artérias. O desafio é descobrir quem vive nesse estado, um tantinho inflamado.

De olho na dosagem

Se você dosar a PCR de alguém que está com dengue ou com uma reles dor de dente, é lógico que ela estará nas alturas, só voltando a ficar normal alguns dias depois. "No entanto, se a pessoa não está com uma infecção, nem tem outra razão pontual para apresentar uma PCR elevada, há uma inflamação de baixo grau constante e, portanto, um risco cardiovascular aumentado", deduz Eduardo Lima.

Detalhe: o exame deve ser o de PCR ultrassensível. Há outro, o convencional, cujo resultado quase sempre aparenta estar normal porque só capta a PCR aumentada se há uma baita infecção. Aí, não vale.

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Segundo Eduardo Lima, às vezes a pessoa responde perguntas no consultório — se fuma, se faz atividade física, se tem parentes que infartaram e coisas do gênero — e ouve que tem um risco intermediário de manifestar um problema cardíaco. Mas, então, chega a dosagem da PCR elevada e o médico corrige: "Você acaba de ser promovida a paciente de alto risco", o tipo de upgrade que ninguém quer. A doutora Marianna acrescenta: "Podemos até ser mais rigorosos na meta de diminuição do colesterol se a PCR está alta".

Estatina desinflamaria?

Colesterol alto provoca inflamação. Obesidade, idem. Diabetes, também. Cigarro, a mesma coisa. Se você pensar, todo fator de risco para doença cardiovascular leva o organismo a ficar mais inflamado. E, claro, se você consegue controlá-lo, a PCR cai.

"Mas é como ter alergia à poeira", diz Eduardo Lima, em mais uma comparação. "A estatina seria um 'espanador'. Ela não age no processo de inflamação diretamente. Só tira de perto o que poderia dispará-la."

Vale usar um anti-inflamatório qualquer?

No seu organismo, a inflamação pode acontecer por diversas vias ou caminhos biológicos. Voltando: e será que reduzir essa inflamação diminui a ameaça de você infartar? Sim, sem dúvida. E será que um remédio que atue em qualquer via da inflamação cortaria esse risco? Bem, aí, a resposta é um sonoro não. Aliás, tire da cabeça a ideia de sair engolindo um anti-inflamatório qualquer.

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A ciência bateu de cara com a parede algumas vezes. Testou remédios específicos, criados para baixar a quantidade de moléculas inflamatórias nas paredes dos vasos, por exemplo. E sinto informar: até o momento, as novas drogas não resolveram.

Um divisor de águas, porém, foi o estudo CANTOS, publicado em 2017, envolvendo mais de 10 mil indivíduos. Uma parte usou uma droga anti-inflamatória, a canakinumabe. Os cientistas, então, compararam participantes com mesmíssimo valor de colesterol. E, assim, mostraram que havia menos doença cardiovascular entre aqueles que baixaram a PCR só com a ajuda da medicação.

Ainda assim, ela acabou não sendo aprovada pela FDA, a agência que regula medicamentos nos Estados Unidos. O custo era impraticável para uma doença que afeta um número enorme de pessoas.

Quem mereceria um anti-inflamatório?

"Se eu quisesse dar anti-inflamatório para todos os infartados, metade de São Paulo usaria a droga", brinca Eduardo Lima. Mas nem seria o caso. A ideia é tratar somente quem tem uma inflamação residual: aquele sujeito que controlou o diabetes, perdeu boa parte do excesso de peso, parou de fumar, fez tudo o que estava ao seu alcance pelo seu coração e, mesmo assim, a PCR continuou alta.

"Vivo repetindo que não adianta polir taça de cristal em cozinha suja. Ou seja, não compensa dar um anti-inflamatório sem antes tratar um monte de problemas que podem estar por trás da inflamação", ensina o cardiologista.

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A velha colchicina

Derivada de uma planta, a colchicina já era citada no papiro egípcio de Ebers, datado de 1.500 antes de Cristo. "Ela é um anti-inflamatório fraco. Para tratar uma sepse ou um lúpus, jamais iria funcionar", diz o doutor Eduardo Lima. "Mas, como a gente está lidando com uma inflamação de baixo grau, será que preciso de um tiro de canhão para matar uma barata?"

Outros se perguntaram a mesma coisa e o fato é que esse remédio provou reduzir infarto, ao impedir o inflamassoma de se formar dentro das células. "O inflamassoma é uma espécie de tenda armada por proteínas, que delimita o campo de batalha da inflamação diante de uma ameaça, como uma infecção ou um trauma", descreve o médico.

Ali dentro, pode sobrar tiro para tudo o quanto é lado. Digamos que o canakinumabe, aquela droga cara, impedia o tiro. Já a colchicina age até antes, evitando que o inflamassoma arme o terreno para a confusão. Ela vai salvar o coração de todo mundo? Longe disso. Se a pessoa tem algum problema renal — o que não é raro em cardiopatas —, seu nível tóxico é alcançado depressa. Sem contar seu efeito colateral mais notório: a diarreia.

E novas drogas?

O pulo do gato será uma medicação capaz de reduzir a inflamação de baixo grau sem muitos efeitos colaterais. Há algumas em estudo. A mais promissora é a ziltivekimabe, que age na interleucina 6, aquela molécula encarregada de avisar o fígado de algum perigo. O problema é que pode — ela e todas as outras — aumentar o risco de infecções. "Afinal, barrar a inflamação é como desligar o alarme de casa", pondera o doutor Eduardo Lima.

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O difícil, também, é mexer no emaranhado de siglas e setas que, em um esquema exibido no tal jantar científico, representavam as diversas vias capazes de desencadear o processo inflamatório. "Com tanta coisa envolvida, é muita ousadia do ser humano achar que irá resolver o caso bloqueando apenas a interleucina 6", opina Eduardo Lima. A Cardiologia continua nesse labirinto. Quem sabe um dia saia dele para o anti-inflamatório ter lugar de destaque no seu receituário.

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