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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Justin Bieber e o aumento de casos de herpes zóster: o que você deve saber

Bryan Steffy/Getty Images for Wynn Las Vegas
Imagem: Bryan Steffy/Getty Images for Wynn Las Vegas
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

23/06/2022 04h00

Setembro é um mês aguardado pelos fãs brasileiros de Justin Bieber: é quando o cantor e compositor canadense deve aterrisar para shows no país.

Mas anteontem mesmo, dia 21, o artista desmarcou mais apresentações da "Justice World Tour" pelos Estados Unidos, estendendo a pausa na turnê até chegar a vez dos europeus em julho.

Há duas semanas, Bieber já tinha cancelado algumas delas, sem condições de performar nos palcos após aparecer com a metade da face paralisada em um vídeo em sua página no Instagram, no qual contou que estava com a síndrome de Ramsay Hunt.

Ramsay Hunt é o nome pomposo de uma das formas como se manifesta o herpes zóster — aliás, talvez a mais chata delas.

E vamos ficar espertos: "Ter herpes zóster é o destino de 20% a 30% de todo mundo que, um dia, teve catapora e que tinha até se esquecido disso", me conta o médico Antônio Carlos Bandeira, chefe do Serviço de Infectologia e Controle de Infecção do Hospital Aeroporto, em Salvador, na Bahia, e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Isto é, faz a ressalva o doutor, se a criatura não se vacinou depois dos 50 anos para manter adormecido o vírus que deixou o seu corpo todo pipocado na infância.

Sim, a vacina contra o herpes zóster existe e é menos alardeada do que deveria e, sim, em geral, essa é uma doença de gente madura. Opa, Bieber só tem 28 anos. Pode acontecer? Até pode. E você ainda deve levar em conta que os casos de herpes zóster aumentaram na pandemia.

Segundo estudo divulgado neste mês pela Unimontes (Universidade Estadual de Montes Claros), em Minas Gerais, eles deram um salto de 35,4%, em média, no Brasil. No Sudeste esse aumento chegou a 45,8% e, no Centro-Oeste, a incríveis 77,2%.

Duas coisas são certas. A primeira é que a gente precisa se imunizar contra o varicela-zóster, vírus que está por trás de todas essas encrencas — catapora, herpes zóster ou, especificamente, a tal síndrome de Ramsay Hunt.

Segunda: sem querer aborrecer quem está de olho em setembro, um rosto paralisado por esse vírus pode não voltar ao normal de uma hora para outra. Aliás, nem sempre volta.

Uma família que não nos abandona

Assim pode ser descrita a Herpesviridae. "Entre seus membros, está o vírus do herpes simples tipo 1, o popular herpes labial. E a gente sabe que, em algumas pessoas, as bolhas nos lábios podem voltar a aparecer", diz o doutor Bandeira.

Existe, ainda, o vírus do herpes simples tipo 2. "Este causa o herpes genital e, de novo, as lesões podem ir embora e ressurgir após um tempo", explica o infectologista.

O vai-e-volta é porque toda essa família tem uma capacidade em comum: os vírus, que são de DNA, se integram ao genoma das nossas células e, enquanto você acha que se livrou deles, estão recolhidos na moita, ou melhor, nos gânglios nervosos.

Estes não têm nada a ver com os famosos gânglios linfáticos. São agrupamentos de neurônios aqui e acolá nos nervos periféricos. Escondidos dentro do corpo, a gente nem sente se, por acaso, guardam um intruso desses. "E o vírus fica ali, paradinho, como se estivesse congelado", descreve o doutor Bandeira.

Mas, basta a imunidade cair um pouco, ele logo percebe, Então, é reativado. "Não é preciso estar imunossuprimido e vulnerável a qualquer doença", esclarece o médico. "Muitas vezes, a gente perde anticorpos especificamente contra esses vírus com o passar da idade."

É o que costuma acontecer depois dos 50 e, muito mais, após os 60 anos com os anticorpos contra outro membro da família Herpesviridae, o vírus varicela-zóster.

Aliás, esqueça o papo de que quem teve catapora pode ter herpes labial — os vírus por trás dos dois problemas são aparentados, mas diferentes. Quem teve catapora pode ter herpes zóster, isso sim.

Um passeio pelo nervo

Quando alguém tem catapora, o sistema imunológico produz uma alta quantidade de anticorpos contra o varicela-zóster. Varicela, aliás, é outro nome para catapora.

Enquanto as bolhas espalhadas pelo corpo secam, o vírus acuado pelas nossas defesas busca esconderijo nos tais gânglios nervosos, localizados ao longo de nervos sensitivos perto da coluna cervical ou na altura do tórax ou, ainda, lá embaixo, na região sacral.

Se, no entanto, os anticorpos ficam em um nível muito, muito baixo — o que acontece décadas após aquela catapora que você eventualmente teve na primeira infância — , o vírus escapole. Sai perambulando pelo nervo onde ficava o seu esconderijo. E mostra porque também se chama zóster — nome de sua segunda manifestação em diante.

"O vírus reativado não consegue provocar catapora outra vez", explica o doutor Bandeira. "Isso porque, por mais que as defesas tenham diminuído, ainda restam anticorpos contra ele no sangue."

Cercado, então, do nervo ele não passa. Ou melhor, não passa muito além da pele, onde provoca bolhas que desenham direitinho o seu trajeto até a pontinha daquela inervação.

"Se alguém que nunca pegou o varicela-zóster antes e que tampouco se vacinou tiver contato com essas lesões, irá ter catapora", avisa o médico. Pergunto: e herpes zóster? "Aí, não. O herpes zóster tem causa endógena, ou seja, você não o pega de outra pessoa. O vírus vem de você mesmo, se teve a catapora antes."

O martírio das lesões, que doem à beça, dura uns sete ou oito dias. Daí, fim de passeio e o varicela-zóster retorna para os gânglios nervosos.

Com esse episódio desagradável, os anticorpos voltam a se elevar. No entanto, só devem durar uns seis meses assim, em alta. Passado esse tempo, há sempre o risco de o vírus inventar de dar uma nova saidinha.

"Como se tratam de nervos sensitivos, a pessoa pode perder a sensibilidade naquela região da pele." Infelizmente, às vezes a ardência pinicante é que não desaparece mais. Os médicos chamam o fenômeno de neuralgia herpética. Quando analgésicos comuns não dão conta do recado em três meses, é preciso procurar tratamento em centros especializados em controle da dor.

A diferença na síndrome de Bieber

O azar é quando o gânglio nervoso com o vírus está no nervo facial. "Além de sensitivo, ele é motor", justifica o doutor Bandeira. "Reativado, o vírus geralmente começa o trajeto por esse nervo em uma área atrás da cabeça, pega o orelha e vem descendo pelo rosto."

A pessoa, então, pode apresentar — além das bolhas, que raramente não aparecem, e da dor de sempre — tontura, dificuldade de audição e, claro, paralisia facial no lado em que o vírus fez a sua rota.

"Costuma haver sequela", lamenta informar o infectologista. "Com frequência, a musculatura facial continuará sem mobilidade porque o nervo saiu danificado. Tanto que a testa mal franze, dando a impressão de que foi aplicada toxina botulínica. E o olho daquele lado também não fecha direito, o que talvez cause secura ocular."

Cuidar de tomar as vacinas

A vacina da catapora, feita com o vírus atenuado, evita que, no futuro, as crianças apresentem o herpes zóster, já que este só acontece em quem teve a primeira infecção.

A questão é que a maioria pessoas adultas de hoje não foi vacinada contra a catapora quando era pequena. Daí que, aos que passaram dos 50 anos, o jeito é se imunizar contra a herpes zóster de uma vez.

"A única vacina que tínhamos disponível para isso até há pouco tempo era praticamente a mesma da catapora, só que com uma quantidade de vírus atenuado até dez vezes maior, para induzir uma boa resposta do sistema imunológico nessa idade e de fato impedir a reativação do vírus", conta o médico.

Agora, porém, há uma segunda opção, que é a vacina recombinante feita a partir de fragmentos do vírus. "Ela é ideal para aqueles que estão imunossuprimidos, como pacientes com câncer, que não poderiam receber uma vacina de vírus atenuado." E fica a dica: mesmo que seja mais jovem, quem vai iniciar um tratamento de câncer deveria se vacinar contra o herpes zóster antes.

Em matéria de eficácia, as duas vacinas são ótimas e devem ser aplicadas até mesmo em quem já teve herpes zóster. Ora, o vírus sempre pode se atrever a passear pelos nervos de novo.

Por que os casos aumentam?

"O gatilho mais comum para o herpes zóster é a queda dos anticorpos a partir de certa idade", reafirma o doutor Bandeira. "No entanto, indivíduos que passaram por traumas, como quem vive um luto, muitas vezes têm a reativação do vírus. E, na pandemia, o que mais vimos foram perdas e o nervosismo da rotina virada de cabeça para baixo. Isso deve ter contribuído", aposta.

Os médicos também estão cientes de que outras infecções virais, ao mobilizarem o sistema imune, podem abrir a brecha para um vírus da família do herpes ser reativado. "Ninguém sabe se a covid-19 não faria isso", especula o doutor Bandeira.

Em relação aos casos em jovens, o infectologista acha que, embora minoria, eles sempre existiram. "Quando o paciente é mais novo, antes de mais nada precisamos de uma boa investigação da imunidade, afastando a possibilidade de ser um portador do HIV", exemplifica o Antônio Bandeira.

Na maioria das vezes, porém, o que os médicos encontram é estresse, depressão, noites mal dormidas, trabalho exaustivo e preocupações criando oportunidade à perambulação do vírus. E, ora, mais jovem ou mais velho, o brasileiro nem precisa ser um Justin Bieber para sentir tudo isso na pele.