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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Testosterona: mais do que a idade, a obesidade é o que faz o hormônio cair

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

09/12/2021 04h00

Um desejo que, por ironia, deixa a desejar e até mesmo a disfunção erétil, que vem depressa à cabeça dos rapazes, são talvez o menor dos problemas que podem surgir nos homens com deficiência de testosterona. Ou, vá lá, seriam uma parcela pequenina deles.

Quando o hormônio masculino cai e fica abaixo dos 300 nanogramas por decilitro de sangue, acredite, um bocado de coisas pioram. A disposição é uma delas. Tanto que o quadro até se confunde com uma depressão. A massa muscular mingua e, com essa perda, a força física vai para o beleléu. Talvez por isso, o risco de quedas e outros acidentes acaba subindo.

Não termina por aí. O raciocínio pode falhar, porque a capacidade cognitiva é outra que se embaralha. Aumenta ainda a probabilidade de doenças cardiovasculares e a de ter um câncer. Se quer saber, a deficiência de testosterona nos homens eleva a mortalidade deles por todas as causas.

Há motivo de sobra para arrepiar os cabelos. Ou melhor, se depender de um estudo inédito que será apresentado no 38º Congresso Brasileiro de Urologia, o CBU 2021, há boas razões para suar a camisa e rever as porções de chope ou de seja lá o que for que esteja por trás da barriga saliente.

No evento, que começará no domingo, 12, em Brasília, serão apresentados 341 trabalhos aos cerca de 3 mil congressistas. E eu escolhi este como aperitivo: afinal, ele aponta para uma mudança de paradigma ao afirmar que é a obesidade, e não a idade, a principal causa da derrocada do hormônio masculino.

"O excesso de gordura, especialmente aquela acumulada na região do abdômen, é capaz de fazer com que homens de meia-idade, entre 45 e 64 anos, já possam apresentar níveis do hormônio masculino semelhantes aos de um octogenário", conta o urologista José Bessa Júnior, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, e coordenador do estudo, que também envolve pesquisadores da Universidade Federal do Ceará e da Universidade de São Paulo.

O médico assume de cara: "Não é uma grande novidade, em si, dizer que a obesidade está associada à diminuição de testosterona". Não mesmo. A Medicina já fala que o excesso de gordura corporal seria capaz de reduzir os valores dessa substância há uns 15 anos. Mas, digamos, até então o problema era considerado um agravante, porque a maior causa da deficiência de testosterona seria o envelhecimento.

Sempre se achou que, com o avançar do tempo, a derrocada era inevitável. Ora, o nível de testosterona nos homens adultos pode cair de 0,4% a 2% ano a ano. "Mas essa ideia do envelhecimento como o grande responsável começou a ser questionada mais recentemente", conta Bessa Júnior. "Isso porque se constatou que a testosterona se mantinha relativamente estável em muitos indivíduos, pelo menos antes de eles completarem 80 anos."

Como foi o estudo

Bessa Júnior e seus colegas avaliaram 3.479 homens acima de 45 anos de idade. Sim, é até o momento o maior estudo sobre o tema realizado no país e esse é um de seus pontos mais interessantes: os pesquisadores incluíram homens que ainda não tinham chegado na terceira idade.

Os mais velhos, por sua vez, foram divididos em grupos de 65 a 74 anos, de 75 a 84 anos e daqueles acima de 85, hoje chamados de super idosos. Aliás, mais um ponto que o professor ressalta: "No mundo inteiro, há poucos trabalhos observando a diminuição da testosterona nessa última faixa". O estudo brasileiro, porém, reúne 102 participantes acima dos 85 anos.

O hormônio de todos eles foi dosado, é claro. E foram considerados com excesso de gordura aqueles homens com uma circunferência abdominal acima de 102 centímetros.

Além disso, os pesquisadores registraram os níveis de triglicérides, de colesterol e de glicose em jejum para saber quem tinha síndrome metabólica, um pacote nefasto de encrencas, que inclui, além da própria obesidade, diabetes, hipertensão, esteatose hepática, colesterol e triglicérides nas alturas. Mas adianto: a obesidade sozinha pesou mais do que tudo.

"Homens com obesidade têm cinco vezes mais probabilidade de apresentarem deficiência de testosterona do que homens que não acumulam excesso de gordura", revela o urologista, indo direto ao ponto.

Não seria mera questão de idade

Praticamente um em cada cinco homens de meia-idade — precisamente 19,4% dos 2.168 participantes dentro dessa faixa etária — já tinha níveis de testosterona aquém do esperado. Idem, redondos 20% apresentavam a deficiência no grupo de 65 a 74 anos. E por volta de 18% nos demais grupos, o dos homens entre 75 e 84 anos e o dos super idosos. Percebeu? Contrariando as expectativas, a prevalência do problema foi até ligeiramente menor nos mais velhos.

Não importa a idade, os níveis de hormônio caem conforme a cintura se alarga. Os gráficos que serão apresentados no segundo dia do CBU 2021 deixarão isso claro. Diante deles, fácil notar que a falta de testosterona ocorre em mais de 40% dos homens que — atenção, sejam mais moços ou mais velhos — têm uma circunferência abdominal acima de 110 centímetros.

No entanto, essa prevalência mal chega a 10% quando a gente olha só para aqueles que têm de 94 a 102 centímetros na medida da cintura. No caso dos moços — ou nem tão moços — com uma invejável circunferência abdominal menor do que 93 centímetros, nem sequer 8% tinham a deficiência do hormônio.

E como a gordura atrapalharia a testosterona?

"O que sabemos é que os mecanismos por trás dessa relação têm mais a ver com a hipófise", diz o professor Bessa Júnior. Essa glândula situada no cérebro libera o hormônio luteinizante, mais conhecido por LH, que age como uma ordem química para os testículos, por sua vez, produzirem a testosterona.

"Uma série de forças adversas, porém, podem tornar os testículos mais frágeis e a tendência, então, é a sua produção de testosterona desacelerar", explica o urologista. "No entanto, a hipófise faz uma espécie de compensação."

Só que isso já não funcionaria tão bem quando há obesidade — é a hipótese. Afinal, as células de gordura, os adipócitos, liberam uma quantidade razoável de substâncias inflamatórias, além de um hormônio, a leptina, envolvido com a regulação do apetite. Mas aí é que está: todas essas substâncias interferem no trabalho da hipófise.

Não bastasse isso, o tecido adiposo aumenta a atividade de uma substância, a aromatase, que transforma a testosterona em estradiol, o hormônio feminino. Essa metamorfose também inibe a ação da glândula no cérebro.

"Para complicar, a relação entre obesidade e deficiência de testosterona é de mão dupla", lembra o urologista. "O hormônio masculino baixo vai favorecer o acúmulo de mais e mais gordura no corpo." Isso sem contar a diminuição da massa muscular provocada por sua falta. Ora, os músculos costumam torrar energia. Daí que um organismo que se torna menos musculoso tende a engordar com maior facilidade.

Depois, é difícil levantar o que caiu

Eu me refiro à testosterona, bem-entendido. "A reposição do hormônio não costuma resolver de vez o problema", adverte o médico. "Até existem estudos mostrando os benefícios desse tratamento para a sexualidade, mas não há evidências de que repor esse hormônio evitaria doenças cardiovasculares e problemas cognitivos, por exemplo".

Sem contar, ressalta o professor, que a reposição de testosterona não é livre de efeitos adversos. Um deles seria a infertilidade. Aliás, tampouco é algo que você possa fazer hoje, só para "dar aquele up", e parar amanhã. Simples: quando o corpo recebe o hormônio assim, de bandeja, os testículos diminuem sua produção natural. E nem sempre ela volta após a interrupção do tratamento."Por isso, os jovens que inventam de usar testosterona para ficarem mais fortes talvez terminem dependentes dessa terapia", comenta Bessa Júnior.

Emagrecer pode reverter situação, o que é recomendável. "Mas, primeiro, emagrecer não é tão fácil. Segundo, nem sempre a testosterona volta a subir completamente. Por isso, o ideal seria nem sequer engordar."

A situação, então, é preocupante para os rapazes. De acordo com o Ministério da Saúde, 21,8% dos homens brasileiros estão com obesidade. E 57,5% têm sobrepeso. Pelo estudo, mesmo esses indivíduos que estão só com alguns quilos a mais concentrados na cintura já apresentam uma pequena queda da testosterona, o que pode ser o começo da ladeira hormonal abaixo.

E, moçada, não tem idade para isso acontecer: quanto mais alto o número na fita métrica enrolada na cintura, maior será o tombo da testosterona.