PUBLICIDADE

Topo

Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

As cinco maneiras como a covid-19 pode maltratar pra valer os nossos rins

iStock
Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

04/03/2021 04h00

Se existem órgãos castigados pelo novo coronavírus diretamente ou pelo estado em que ele deixa o organismo são os rins. Pelo menos metade dos pacientes que chega ao ponto de precisar de hospital já dá entrada com alguma manifestação desse sofrimento. E isso, fique claro, até mesmo entre aqueles que não necessitam de cara de uma UTI e que permanecem em leito normal.

Uns apresentam hematúria — o que popularmente as pessoas falam que é perder sangue pela urina. Mas, atenção, quando alguém passa a eliminar glóbulos vermelhos além da conta pelo xixi, isso nem sempre é visível.

Já outros manifestam o que os médicos chamam de proteinúria, uma concentração anormal de proteínas que os rins, golpeados pelo Sars-CoV 2, não dão conta de filtrar.

"Ambas as condições dão uma pista do prognóstico", avisa o nefrologista Oscar Pavão dos Santos, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. "Por isso mesmo, toda pessoa internada com a covid-19 deve fazer logo um exame de urina." Hematúria ou proteinúria, não importa, qualquer um desses problemas indica que o sujeito tem um risco até três vezes mais elevado de morrer. Daí que é para ficar ainda mais de olho nele.

E, fácil entender, a coisa toda tende a ficar bem pior naquela pessoa que vai precisar dos cuidados de uma unidade intensiva. "Aí, metade dos pacientes já apresenta lesão renal aguda e eu diria que é quando os rins estão machucados pra valer", diz o médico.

A capacidade desses órgãos trabalhar, então, despenca. Não à toa, 20% dos infectados nas UTIs terminam precisando de diálise, ou seja, dependem de aparelhos para filtrar as substâncias tóxicas no sangue. A diálise está para os rins como a ventilação mecânica está para os pulmões.

Aliás, não demorou muito para o doutor Oscar Pavão e seus colegas perceberem que os rins eram tão afetados por essa história triste que vivemos quanto os sempre citados pulmões. Eles apresentaram os dados sobre a saúde renal dos primeiríssimos 200 pacientes internados na UTI do Einstein em um artigo que saiu na Blood Purification, uma das publicações de maior prestígio na área da nefrologia.

Nesse estudo, 24% dos pacientes que desenvolveram lesão renal aguda morreram. Mas esse número representa estrelinhas no boletim da equipe de nefrologistas do hospital paulistano: a literatura científica mundo afora aponta um quadro mais sombrio, em que de 30% a 60% dos infectados com os rins nesse estado morrem.

E o mesmo vale para a diálise: a porcentagem de óbitos entre os participantes do estudo que acabaram necessitando desse procedimento ficou em 40%, bem abaixo da média mundial, entre 55% e 100%. O que importa a gente saber é que, se os rins sofrem durante a covid-19, acendem-se todas as lâmpadas amarelas.

Como os rins apanham do coronavírus

Esqueça aquela história de que os rins padecem na covid-19 por causa de trombos microscópicos entupindo seus pequenos vasos. A gente sabe que esses coágulos podem de fato aparecer da cabeça aos pés em alguém infectado pelo Sars-CoV 2, mas o doutor Oscar Pavão afirma que "isso é uma mosca branca", ou seja, algo mais difícil de ser encontrado no que diz respeito aos rins. Eles penam bem mais por outros cinco motivos.

Para começo de conversa, eles são feridos pelo próprio vírus, que entra sem fazer cerimônia em suas células, já que elas são repletas do receptor ECA 2 que o Sars-CoV 2 com sua amaldiçoada proteína S no papel de chave usa como fechadura para destrancá-las. E, uma vez dentro das células renais, ele faz o que se espera de um vírus: toma conta do pedaço e as transforma em fábricas capazes de replicá-lo, até elas explodirem de tão lotadas de suas cópias. Dá para imaginar o estrago.

O vírus não só bate, como manda outros entrarem nessa briga. Sua presença no organismo — nessa altura você já deve saber — provoca a tal tempestade de substâncias inflamatórias. E essas moléculas, produzidas repentinamente pelo corpo e em quantidade absurda, também agridem os órgãos. "Para os rins, são brutamontes", descreve o doutor Oscar Pavão. Em outras palavras, eles ficam completamente inflamados. Essa é uma segunda forma de ataque.

Alguns pacientes, me conta ainda o médico, desenvolvem nefrite — talvez pelo combo formado por vírus mais as moléculas inflamatórias, talvez por uma coisa ou por outra, vai saber... "Essa nefrite é causada por uma reação autoimune", diz ele. Ou seja, as células de defesa passam a atacar os néfrons, as minúsculas unidades que fazem todo o trabalho de filtrar o sangue. É um problema atrás de outro!

Acabou? Que nada. Ainda podem acontecer fenômenos que, infelizmente, são mais ou menos comuns em toda doença grave.O paciente pode entrar em choque, como dizem os médicos. "Aí a pressão cai de um instante para o outro e os rins são particularmente sensíveis a isso. Eles não suportam muito bem a diminuição brusca do fluxo sanguíneo" conta Oscar Pavão.

Finalmente — o que também pode acontecer com pacientes graves de outras doenças necessitando de UTI —, há sempre o risco de nefrotoxicidade. "Os remédios usados, por exemplo, para manter sedado o paciente intubado podem se tornar tóxicos para os rins com o tempo." E diga-se: a temporada em uma UTI, quando se trata da covid-19, nunca é curta. Mais uma paulada.

Quem é mais suscetível

No estudo do Hospital Albert Einstein, os pacientes tinham uma média de idade de 69 anos. "As complicações renais são mais frequentes nos indivíduos mais velhos e, em geral, com alguma comorbidade", diz o nefrologista.

Para ter ideia, 62% eram hipertensos, 56% tinham diabetes, 27% foram diagnosticados com insuficiência cardíaca e 18%, com doença coronariana. Portanto, muitos episódios de encrenca nos rins são protagonizados por pessoas que pegaram a covid-19 quando já tinham outro problema de saúde.

Mas não é para ninguém ficar de cabelos em pé, se já urrou de dor por causa de uma pedrinha no rim ou outra. Ou melhor: é para ficar de cabelos em pé com a covid-19 como qualquer outro cidadão, mas não por causa dos cálculos renais. "Eles são causados por distúrbios metabólicos dos rins e isso não significa que a pessoa terá complicações maiores se, por azar, se contrair o coronavírus", esclarece Oscar Pavão.

Já com um indivíduo que tem danos nas estruturas desses órgãos por causa de alguma doença renal crônica a história pode ser diferente. Por razões óbvias: de largada, já não tem os rins funcionando feito uma maravilha. Imagine se forem apunhalados, direta ou indiretamente, pelo Sars-CoV 2!

E depois, como fica?

"Quem tinha um rim de boa qualidade antes, por assim dizer, costuma recuperar a função desse órgão passada a doença", tranquiliza o médico que, no entanto, já teve pacientes, logo no início da pandemia, que nunca mais se livraram da diálise após a covid-19. Na realidade, de acordo com os dados disponíveis hoje que comparam diversos estudos, 1% dos infectados pelo novo coronavírus que foram internados acaba com falência renal.

Pergunto ao doutor Oscar Pavão se quem teve complicações renais durante a infecção não poderia acabar com os rins mais frágeis, isto é, mais sujeitos a, amanhã ou depois, apresentar problemas por qualquer bobagem. "Ninguém sabe", é a resposta. "A covid-19 é uma doença que, se a gente for pensar, só conhecemos há um ano." E assim os médicos seguem de olho. Não só nos rins, mas no organismo inteiro de um sobrevivente dessa guerra.