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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que pacientes imunossuprimidos precisam saber sobre a vacina da covid?

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do VivaBem

25/02/2021 04h00

Artrite reumatoide, esclerose múltipla, doenças intestinais inflamatórias como a de Crohn, psoríase, lúpus... — existem umas 300 condições de saúde que hoje os médicos chamam de imunomediadas. Isto é, nas quais o sistema imunológico leva a responsabilidade. E o jeito para controlá-las, em um tratamento feito ao longo da vida inteira, é baixando a bola das células de defesa para que elas não fiquem provocando tanta inflamação à toa.

Juntem-se a esses pacientes aqueles que têm, de nascença, deficiências na imunidade e quem enfrenta um câncer. A diminuição na capacidade de se defender de infecções é transitória no paciente oncológico, mas existe. E nestes dias conturbados pelo novo coronavírus toda essa gente, que é ou que está imunossuprimida, se vê em um falso dilema: tomar ou não tomar a vacina contra a covid?

No evento online promovido pela SBI (Sociedade Brasileira de Imunologia ) na última terça-feira, 23, a resposta para essa pergunta foi repetida feito um mantra: sim, sim e sim.

Se você pertence a esse imenso grupo ou conhece alguém assim, o recado claro é para, ao chegar a sua vez, arregaçar as mangas sem a menor hesitação, sem titubear pensando se é a vacina desse ou daquele laboratório, nem temer por estar tomando um antiinflamatório potente ou algum remédio para suprimir as defesas. Simplesmente vá — é a melhor coisa que alguém com uma doença dessas poderá fazer.

No entanto, são perfeitamente compreensíveis os receios de quem apresenta defesas perenemente abaladas, vivendo em um cenário que já tem uma doença como pano de fundo e usando remédios que tornam o organismo, de um lado, vulnerável a infecções e de outro, com menor capacidade de deixar suas células imunes em ponto de bala após serem treinadas por uma vacina qualquer.

As vacinas que estão aí foram testadas em milhares de pacientes e hoje nós as conhecemos ainda mais, porque já foram aplicadas em um grande número de pessoas no mundo inteiro. São seguras à beça. "Mas esse grupo de indivíduos ainda tem medo de adoecer ao se vacinar ou de não desenvolver a proteção desejada depois", resumiu, durante o evento online, a médica Gelcimara Salviato Pillegi, da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

O pânico de pegar covid com a vacina não faz sentido

Pesquisadora de doenças inflamatórias crônicas e covid-19 na Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto e coordenadora do departamento de imunologia clínica da SBI, a doutora Cristina Ribeiro de Barros Cardoso me lembra uma premissa básica: em geral, o sistema imunológico reconhece o que pertence ao nosso corpo e só parte para cima do que é estranho.

Essa premissa, porém, é contrariada em doenças imunomediadas — quando, por exemplo, as células de defesa atacam as paredes intestinais ou as articulações. "Daí, a trégua acontece apenas com o uso contínuo de drogas imunossupressoras, que diminuem sua atividade", explica. "Por isso, esses pacientes podem ter restrições para tomar vacinas feitas com vírus vivos atenuados, como é o caso do imunizante contra a febre amarela", exemplifica.

Nessa vacina, o vírus amarílico se encontra sem forças para provocar a febre amarela na maioria dos indivíduos, só servindo para o sistema imune guardá-lo na memória. "No entanto, em uma pessoa imunossuprimida, ele pode não ser fraco o suficiente", observa a doutora Cristina. Histórias assim, ela imagina, podem ser a origem do medo de agora. Mas não vale transportá-las para as vacinas contra a infecção pelo novo coronavírus.

Atenção: absolutamente nenhuma vacina contra a covid-19 entre as aprovadas usa vírus vivo atenuado. Ou é um Sars-CoV 2 "morto", apenas com aquilo que poderíamos comparar à sua casca, ou é um pedacinho dele que, incompleto, é incapaz de fazer qualquer coisa. É mais fácil a água parar de molhar do que uma vacina dessas causar a doença.

Cuidado quando ouvir "pegou covid após se vacinar"

Sem usar máscara direito, sem higienizar as mãos a todo instante e sem manter o distanciamento físico necessário uns dos outros, não é azar pegar o novo coronavírus dando um passeio até a esquina. Quando o Sars-CoV 2 se espalha em velocidade alucinante, como acontece neste momento da pandemia, diria que é sorte dar bobeira e voltar para casa sem ele. As pessoas baixam mais ainda a guarda quando se encontram com um ou dois amigos, como se o risco existisse apenas no contato com estranhos.

Por essas e por outras, há, sim, relatos de gente que tomou a vacina e que duas semanas depois se infectou. A imunologista Viviane Boaventura, pesquisadora da Fiocruz e professora da Universidade Federal da Bahia, coloca os pingos nos "is": "É preciso esperar duas semanas após a segunda dose para o imunizante alcançar o efeito. Ninguém está protegido antes disso. Além disso, as vacinas contra a covid não necessariamente evitam a doença. Seu maior objetivo é impedir que a infecção evolua para quadros graves".

Isso, diga-se, é com qualquer pessoa. Mas dá para entender que um indivíduo imunossuprimido cisme, se acontecer com ele, que tem a ver com a sua condição de saúde, quando na verdade pode não ser.

Todos devem ficar psicologicamente preparados porque, na medida em que aumentar o número de pessoas imunizadas, vamos ouvir cada vez mais histórias de gente que se infectou depois de tomar a injeção e, aí, ou porque não completou o prazo para o organismo construir uma proteção ou porque, usando a CoronaVac como exemplo, faz parte daquela parcela que, depois de vacinada, ainda pega a doença, embora de forma mais amena. Ora, casos assim não são, nem de longe, argumento para desmerecer a vacinação.

Será que vai funcionar em quem está imunossuprimido?

"Por enquanto, ninguém sabe dizer", afirma Viviane Boaventura. "Pacientes que usam imunossupressores costumam ter uma resposta menor aos imunizantes, mas os estudos para a aprovação das vacinas contra a covid-19 não envolveram essas populações. No futuro, existirão pesquisas para a gente saber se essas pessoas não precisarão de um estímulo a mais, ou seja, de uma dose extra de reforço."

O consenso entre os especialistas, porém, é que melhor ter alguma defesa contra a covid-19 do que defesa nenhuma. Sem discussão.

O medo de reações adversas

Elas são bem conhecidas: dor no local de aplicação, uma certa moleza, febre baixa. "São um sinal de que o sistema imunológico está armando sua estratégia de defesa", explica a doutora Cristina Cardoso. "Mas, ao notar que não é uma infecção pra valer, ele desmonta esse esquema e tudo passa. Portanto, quando surgem essas reações — e olha que não aparecem em todo mundo, mesmo respondendo bem à vacina —, elas somem em poucos dias."

Procure o seu médico se algo diferente durar mais do que esse tempo. "No caso de quem está em tratamento de câncer de mama", avisa ainda Viviane Boaventura, "é bom tomar a injeção do lado oposto ao daquele onde foi diagnosticado o tumor. Não por nada, mas pode surgir um gânglio depois da vacina e a pessoa levar um susto, confundindo-o com um sinal do câncer."

É para se vacinar sem parar de se tratar

Uma dúvida comum entre os pacientes é se não deveriam interromper o uso de imunossupressores ou até mesmo de corticoides — em geral, prescritos apenas durante as crises — para receberem o imunizante contra o Sars-CoV, seja pelo receio equivocado de teram a covid graças à vacina, seja pelo temor de, em função da medicação, não estarem com o organismo apto a criar a proteção desejada.

"Parar com os remédios é uma ideia muito errada", alerta a médica Liliana Chebli, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, onde coordena o Centro de Doenças Inflamatórias Intestinais. "Se uma doença de Crohn, por exemplo, estiver fora do controle por falta da medicação, esse paciente provavelmente precisará ser internado e talvez, até operado. Daí mesmo é que ele terá um alto risco de contrair a covid-19", diz ela.

Sem contar que não seria uma interrupção breve — para que esse raciocínio torto funcionasse, a pessoa precisaria deixar seus remédios de lado por uns 60 dias, entre a primeira dose e o tempo de espera necessário após a segunda. "Imagine o estrago!", diz a doutora Liliana.

Para completar, ao ter uma crise por falta de medicamento, o paciente talvez precise de dosagens até maiores do que as que usava antes. Logo, ficará ainda mais imunossuprimido e à mercê do vírus.

Apesar de os pacientes com doenças imunomediadas fazerem parte do grupo prioritário no Plano Nacional de Vacinação Contra a Covid-19 do Ministério da Saúde, quem define a prioridade são os municípios e, em muitos casos, embora sejam frágeis para a covid-19, essas pessoas só passam à frente na fila conforme a idade ou se tiverem outras comorbidades, como hipertensão —a exceção seria quem tem um câncer. "Mas digo a cada um: ainda que espere um pouco, quando chegar a sua vez, não fique questionando", conta a médica. Ou seja, tenha medo é da covid-19 e confiança na vacina — mesmo que seu efeito possa ser parcial no imunossuprimido, ele já será grande coisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL