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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Inédito: a covid-19 pode afetar a cognição até de quem mal teve sintomas

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do VivaBem

09/02/2021 18h00

Quando o tsunami da pandemia passar, ainda não sabemos ao certo como será a paisagem arrasada que encontraremos. Ora, a ciência tomada de susto, e com razão, concentrou boa parte de seus esforços iniciais procurando entender que raio de coronavírus desconhecido era esse, o que exatamente ele fazia em nosso organismo, quais os sintomas de sua infecção, quem pertenceria a grupos de risco, por que apenas alguns indivíduos ficavam muito mal, o que seria bom para prevenir a doença, se algum remédio conseguiria tratá-la e — na medida em que esta última pergunta não encontrou uma resposta agradável e que o mal avançou levando milhares de vidas — como seria possível desenvolver uma vacina a toque de caixa.

Tudo isso nós acompanhamos de perto. E, na afobação de resolver a ameaça imediata, se falou muito menos das sequelas da covid-19. Elas existem — opa, e como existem! Conviveremos com muita gente acometida por elas e nem sabemos o tamanho exato desse estrago dos pés à cabeça. Quer dizer, um trabalho inédito, publicado hoje mesmo pelo InCor (Instituto do Coração) da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), dá um retrato assustador do que é capaz de acontecer com o cérebro de quem foi contaminado pelo Sars-CoV 2.

"Todos correm o risco de sofrer de uma disfunção cognitiva após a recuperação dessa doença", resume a neuropsicóloga Lívia Stocco Sanches Valentin, professora que é líder do estudo. Isso pode acontecer independentemente da idade, se é adolescente ou idoso, do nível de escolaridade e — atenção! — de a covid-19 ter apresentado sintomas graves, leves ou até mesmo se passou despercebida, sem dar bandeira, enquanto o vírus sorrateiro provocava prejuízos em determinadas áreas da massa cinzenta.

Os números apontados pela cientista e seus colegas são de cair o queixo. De acordo com o artigo que divulgaram neste final de tarde, depois que a covid-19 passa, 83,3% dos pacientes desenvolvem alguma dificuldade cognitiva para executar suas tarefas de sempre; 62,7% das pessoas que um dia foram contaminadas pelo novo coronavírus se esquecem do que acabaram de fazer porque ficam com a memória de curto prazo comprometida, enquanto 26,8% delas já não se recordam tão bem do passado remoto, por causa de avarias na memória de longo prazo.

A capacidade de alternar a atenção e cuidar de mais de uma coisa ao mesmo tempo diminui à beça para 43,2% dos que foram infectados. Já a capacidade de focar totalmente em algo importante, a tal da atenção seletiva, deixa de ser a mesma para 28,1% desses indivíduos. A percepção visual é afetada em 92,4% dos casos.

Ao menos, esses são os resultados estarrecedores do estudo assinado pelos pesquisadores do InCor que, diferentemente de outras pesquisas que buscaram entender o que o Sars-CoV 2 aprontaria no cérebro, não se limitou a analisar neuroimagens.

"As neuroimagens são interessantes, claro, para apontar se acontecem falhas nas conexões entre os neurônios e em que regiões cerebrais elas estão", explica Lívia Valentin. "No entanto, nós usamos um jogo digital, o MentalPlus, que eu desenvolvi ainda em 2010, validado até pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para flagrar disfunções desse tipo." Em outras palavras, o jogo é um teste capaz de mostrar o impacto dos danos cerebrais causados pela covid-19 na vida real.

A covid na cabeça

Pesquisadora envolvida com trabalhos internacionais e colaboradora da própria OMS, Livia Valentin relata que ficou desconfiada de possíveis perdas cognitivas ligadas à covid logo no início da pandemia.

Foi quando chegaram aos seus ouvidos as primeiras notícias de que a infecção pelo Sars-CoV 2 provocava muita hipoxia, a diminuição do oxigênio no sangue, ou até mesmo anoxia, quando as células ficam completamente sem esse gás. E, se existe uma célula exigente em matéria de oxigenação, é o neurônio cerebral. Ele se ressente da menor falta de abastecimento.

"Na sequência, ficamos cientes de que esse vírus também favorecia a formação de trombos nos pequenos vasos, como aqueles que irrigam não apenas os pulmões, mas o cérebro", relembra a pesquisadora. "Isso também me deixou bastante preocupada, porque poderia causar tanto hemorragias, se por acaso os trombos levasse ao rompimento dessas minúsculas artérias, quanto isquemias, quando o sangue não passa por causa do obstáculo de um coágulo. Eu então já não tinha a menor dúvida de que o cérebro estava ameaçado", diz.

Para completar, nos quadros mais graves, a própria temporada prolongada na UTI, com direito à intubação e à extubação, além de um mix de drogas necessárias para a realização desses procedimentos, também seria capaz de impactar o sistema nervoso central.

Aliás, foi pensando em casos assim, quando investigava as sequelas neurológicas de longos períodos sob anestesia profunda, que a cientista desenvolveu o jogo digital MentalPlus, com a ajuda de cientistas da Universidade Duke e, posteriormente, da Universidade Harvard, ambas nos Estados Unidos.

Validar essa alternativa para avaliar a memória e a função cognitiva de pacientes que tinham sido internados não foi algo simples. E ela explica o porquê: "Para começo de conversa, fazer avaliações neuropsicológicas em hospitais parecia inviável. Os métodos disponíveis lançavam mão de testes físicos, isto é, usando caneta e papel, tornando tudo mais difícil para o indivíduo acamado. Sem contar que, para serem bem feitos, eles precisavam levar de duas a três horas. Imagine aplicar uma bateria dessas em quem tinha acabado de sair de uma cirurgia complexa!"

Por isso, sua ambição era criar um teste que fosse digital e bem mais rápido, mas sem deixar de ser, digamos, cientificamente confiável. "Até mesmo os 25, 30 minutos de duração do MentalPlus podem ser exaustivos para quem está em um leito, internado", reconhece. 'Não daria parar gastar um tempo menor, porém, já que precisamos avaliar a memória de longo prazo, pedindo no final para o indivíduo repetir sequências que viu quase meia hora antes."

O teste desenvolvido por ela tinha outro objetivo muito especial: servir para a realidade brasileira, em que muitas pessoas mal foram alfabetizadas, sobretudo quando olhamos para a população mais velha e economicamente menos favorecida.

"Usando as avaliações tradicionais, eu podia chegar a um laudo incorreto e apontar como um caso de demência o daquela pessoa que não havia respondido direito simplesmente porque não tinha escolaridade para compreender determinada questão. Antes do MentalPlus, ela podia ser rebaixada cognitivamente quando, na realidade, o seu cérebro estava normal e preservado."

Foi esse teste, enfim, que o time brasileiro sacou para avaliar pacientes que tiveram a covid. A ideia era começar aplicando o jogo digital em 50 indivíduos com diagnóstico confirmado, após o fim dos sintomas, e 50 pessoas saudáveis que nunca tiveram a infecção.

No entanto, quando o InCor fez a divulgação convidando voluntários, apareceram tantos casos que a etapa inicial do estudo, cujos dados saíram agorinha, contou com 185 participantes. Hoje, mais de 430 pessoas que tiveram a covid confirmada já passaram pela avaliação.


Recuperação física versus recuperação cognitiva

Apesar de estar fisicamente bem disposta, muita gente que se ofereceu para participar do estudo notou que havia algo estranho. "Lembro de fazer o pedido da comida e de pagar por ele. Mas não me lembro de ter comido", disse um dos participantes.

Outro, que costumava se comunicar muitíssimo bem, passou a ter dificuldade para expressar suas ideias em reuniões de trabalho, como se de repente lhe faltassem as palavras. Um sujeito vendeu a moto, que sempre fora a sua paixão. Sentia ter perdido o equilíbrio para ficar em cima dela. Faz sentido.

Além de lapsos de memória, dificuldade de concentração, problemas para se tornarem compreendidas ou para entenderem o que os outros estão falando, não raro as pessoas que tiveram a covid-19, sofrem um belo baque na coordenação motora e no equilíbrio. "É frequente o relato de quedas", conta a professora Lívia.

Todo esse pacote, diz ela, resulta em insegurança e confusão mental, que podem ser o estopim para quadros de agressividade, ansiedade e depressão no futuro.


Oito em cada dez contaminados têm sequelas

"Que ninguém se engane", alerta a neuropsicóloga. "Pessoas que tiveram só uma leve coriza no auge da infecção também contam experiências assim. E depois, quando aplicamos teste digital, ele confirma a existência de disfunções." No geral do estudo, oito em cada dez indivíduos que um dia foram contaminados pelo Sars-CoV 2 têm alguma perda cognitiva.

A hipótese é de que as conexões entre os neurônios não seriam danificadas apenas pela falta de oxigenação que, diz a lógica, seria uma prerrogativa de quadros severos de covid-19, aqueles responsáveis por internações, que jamais podem ser comparados com um nariz escorrendo.

"A falta de oxigênio é danosa, sim. Mas provavelmente há também uma ação direta do vírus, que consegue atravessar a barreira que protege o cérebro", afirma a pesquisadora.

Essa ação direta do Sars-CoV 2 explicaria a derrocada cognitiva em gente que não sentiu falta de ar. Ou que simplesmente recebeu o resultado positivo do RT-PCR, sem jamais ter notado qualquer sintoma da covid.

Será que não pode ser efeito da quarentena?

É uma dúvida válida. Mas Livia Valentin é categórica: "O resultado do MentalPlus em quem teve a covid indica um padrão de falha de atenção bem diferente daquele do indivíduo que está desconcentrado porque ficou muito tempo isolado do mundo, sem ânimo, desmotivado ou estressado com a situação."

Para ser mais precisa, os resultados indicam disfunções na área de Broca, por exemplo, região cerebral reconhecida pela expressão da linguagem e por possibilitar a articulação da fala.

Também revelam que outra parte do cérebro, a área de Wernicke, já não funciona tão bem — e ela tem a ver com a compreensão das informações, daí a sensação de que fica complicado decifrar as falas dos outros.

A região parietal é outra que dá indícios de comprometimento. Sem contar o hipocampo, o senhor das nossas memórias, e a área frontotemporal, encarregada do planejamento, ou seja, de antecipar as consequências das nossas ações.

Os cientistas do InCor ainda confrontaram os resultados do MentalPlus com os achados de exames de ressonância magnética. Não deu outra: eles estavam certos. "Essas eram, de fato, as regiões que não estavam bem", conta a neuropsicóloga.

E, se quer saber a diferença entre quem teve um quadro grave de covid e quem mal sentiu a infecção, ela seria esta: "Notamos mudanças estruturais e anatômicas no cérebro daqueles pacientes que se recuperaram de quadros graves. Como se essas regiões encolhessem ou mudassem de forma, muitas vezes apresentando lesões parecidas com as do Alzheimer", descreve a pesquisadora.

E agora, como ficamos?

É possível — tomara! — que o quadro seja reversível, graças ao fenômeno da neuroplasticidade. Isto é, talvez os neurônios formem novas conexões entre si. E, sim, em tese isso seria mais provável naqueles indivíduos sem alterações anatômicas no cérebro causadas pela infecção.

Seja como for, o sistema nervoso central deverá se exercitar. O próprio aplicativo do teste também pode ser usado em programas de reabilitação. "Uma coisa eu garanto: a terapia cognitiva não pode demorar para começar, se quisermos aumentar a chance de sucesso", afirma a neuropsicóloga

Em casa, diz ela, jogos de memória, palavras-cruzadas, leituras ou até mesmo o hábito de escrever já seriam um bom começo para alguém teve a covid-19, mesmo sem sintomas. Bom fazer isso tudo, se não quiser arriscar sua cabeça.

O que levanta suspeitas

"Os profissionais de saúde deveriam incluir na consulta dos pacientes recuperados da covid-19 algumas perguntas capazes de levantar a suspeita de problemas cognitivos", dá o recado Livia Valentin.

Algumas delas: está sentindo muita sonolência durante o dia? Está experimentando brancos de memória com maior frequência? De vez em quando, você sente um torpor, como se se desligasse das conversas ou do trabalho? Vem perdendo o equilíbrio do nada?

O cenário é tão sério que a OMS aguarda os resultados finais do estudo para adotar a metodologia desenvolvida na pesquisa do InCor como padrão-ouro de rastreamento desse tipo de sequela.

Nosso grande problema, porém, é que todas as disfunções de memória, de linguagem e de raciocínio progridem de maneira muito mais veloz e intensa quando a pessoa não foi alfabetizada adequadamente e se ela tem baixa escolaridade.

Isso é algo já bem demonstrado pela ciência: é como se os neurônios não aproveitassem por meio do aprendizado o período em que estão no auge, prontos para criar conexões, formando o que alguns especialistas chamam de reserva cognitiva. Isso ocorre com ou sem a covid para empurrar de vez o nosso cérebro ladeira abaixo.

Pergunto à professora Lívia se ela imagina o tamanho da encrenca para as gerações futuras. "Gerações futuras?!", se espanta. "Não quero ser presunçosa, mas veremos uma explosão de problemas cognitivos nos próximos seis meses no Brasil", aposta. Se estiver certa, não sei se ainda teremos cabeça para resolvê-los.