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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem paga a conta da pobreza menstrual ?

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Imagem: Getty Images
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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

13/10/2021 04h00Atualizada em 13/10/2021 10h36

Nos últimos dias, o presidente vetou um projeto de lei que distribuiria absorventes para estudantes de baixa renda em escolas públicas, pessoas em situação de rua, presidiárias recolhidas em unidades do sistema penal e mulheres internadas em unidades para cumprimento de medida socioeducativa.

O argumento para o veto foi a falta de recursos para financiamento. Mas será que não financiar sai mais "barato"?

Há algum, tempo eu falei sobre pobreza menstrual, e considero que voltar ao assunto para esclarecer o impacto e custo é favorável para podermos encontrar uma forma de trazer esse tema às discussões, independente de como seguirá a lei.

Pessoas que menstruam passam, em média, 35 anos de suas vidas utilizando, isso sem descontar o uso de anticoncepcionais ou gestações, um total de cerca de 2 pacotes de absorvente por mês. Pensando nos valores de hoje teríamos aproximadamente 10,00 por mês e em 35 anos 4.200 reais.

Sabemos que para o governo seria possível chegar ao valor de 0,01 centavo por absorvente —o que nos levaria a valores bem menores. Qual o motivo dessa reflexão?

Quem olha apenas para esse número de 4.200 reais pensa que estamos falando de um valor altíssimo, esquecendo que ele foi originado de 10 reais mensais e que quem não tem acesso a condições adequadas de higiene, nem sempre consegue resolver suas questões financeiras rapidamente e pode necessitar de auxílio por um tempo longo.

E a conta ginecológica? Sim, a conta também existe e algumas vezes ela se torna imperceptível imediatamente. Uma pessoa que não tem acesso ao absorvente precisa improvisar, podendo evoluir com infecção de urina ou corrimento vaginal —e ambos precisam de tratamento com antibiótico, que em um mês podem ultrapassar os 10 reais necessários para a compra do absorvente, e saem do dinheiro público.

Porém, corrimento vaginal é o tipo de situação que acomete muitas pessoas e que nem sempre a origem é avaliada, apenas se realiza o tratamento pontual e, em caso de falta de absorvente por um ou dois meses antes, pode não ser relatado em consulta e assim a causa fica desconhecida.

Além disso, casos mais graves que levem a infecções pélvicas podem acometer, inclusive, as tubas uterinas causando infertilidade. E aquela adolescente que aos 16 anos introduzia algodão, miolo de pão entre outras substituições durante o período menstrual e tinha corrimento de repetição, só aos 30 se descobre infértil, e nem sempre vai relacionar esse fato com a adolescência. E aí, quem paga essa conta?

E isso sem falar na saúde mental de uma menina que todo mês se sente envergonhada e ansiosa por não ter absorvente, fora o prejuízo do ensino, pois existem meninas que faltam na escola todos os meses por não terem condições de comprar um absorvente e vai ao longo dos anos acumulando faltas e dificuldades para competir com igualdade com os demais alunos.

Talvez para algumas pessoas itens como absorventes possam parecer só mais um item de higiene, mas não, eles fazem diferença na saúde ginecológica e mental. A sua ausência pode trazer diversos prejuízos que acabam acarretando a vida toda de uma pessoa que menstrua e, muitas vezes, a conta por essa falta de acesso a itens de higiene menstrual será paga parcelada por toda sociedade.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL