PUBLICIDADE

Topo

Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dor na relação sexual não é normal e deve ser investigada; entenda

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

08/09/2021 04h00

Conhecer a individualidade do próprio corpo e saber o que dá prazer é importante e ajuda a compreender que nem tudo o que dá prazer ao outro vai te dar prazer —especialmente se você está sentindo alguma dor ou desconforto intenso durante a relação.

Sentir dor durante a penetração vaginal não é algo que deve ser ignorado e pode ter causas que, com o tratamento correto, podem evoluir para uma melhora e até mesmo para uma cura.

Conhecer algumas patologias que podem causar a dor durante a penetração vaginal é libertador para quem tem relações dolorosas e não prazerosas. Essas são algumas causas para isso:

  • Infecções: candidíase, herpes, vaginose bacteriana, doença inflamatória pélvica, tricomoníase;
  • Inflamações: líquen escleroso, líquen plano, distúrbios imunobolhosos;
  • Câncer: doença de Paget, carcinoma de células escamosas;
  • Alterações neurológicas: neuralgia pós-herpética, compressão ou lesão de nervo, neuroma;
  • Traumas: mutilação genital, obstétrico;
  • Latrogênicas: pós-operatório, quimioterapia, radiação, terapias locais;
  • Alterações hormonais: na menopausa, no pós parto;
  • Multifatoriais: endometriose, vulvodínia, vaginismo.

Dessa lista, talvez a endometriose seja uma das mais citadas. A doença é caracterizada pela presença de tecido endometrial (conteúdo da menstruação) fora da camada interna do útero —local que habitualmente deveria estar — sendo responsável por 30% a 50% dos casos de dor pélvica crônica. Geralmente está associada a uma dor no momento em que o pênis encosta no colo do útero, mas não está restrita a esse momento: quando alguém permanece com dor por muito tempo, o medo e o trauma podem causar algumas contrações na vagina que irão tornar a relação dolorosa.

Nesses casos, um ginecologista deve ser procurado para que a investigação correta possa ser feita através de uma ressonância magnética ou ultrassom específico para endometriose. Assim, o tratamento poderá ser adequado.

Outra patologia é a vulvodínia, como é chamada a sensibilidade excessiva da vulva. É uma patologia crônica que dura pelo menos três meses e pode provocar ardor, irritação, coceira ou sensação de "picada". Esse desconforto impacta significativamente a vida sexual de muitas mulheres, já que a dor pode durar horas ou até dias após a relação sexual. Em alguns casos, também ocorre desconforto com uso de absorventes interno, coletores menstruais, uso de roupas justas, atividades como bicicleta e cavalgada.

O diagnóstico é feito através de exame físico e excluindo outros problemas como infecção, alterações na pele, nos nervos ou câncer nesta região. Feito isso, com uso de um cotonete é possível investigar a sensibilidade dessa região. O tratamento desses casos é multiprofissional e a fisioterapia pélvica é uma das áreas que possui diversas opções de tratamento com resultados significativos.

Segundo Renata Olah, fisioterapeuta especialista em Saúde da Mulher, "a fisioterapia pélvica na vulvodínia visa aliviar a dor, trazer relaxamento do assoalho pélvico, melhorar a consciência da região, trazer educação em saúde. Iniciamos sempre com uma avaliação específica, onde detalhamos todo histórico de vida da mulher, entendemos suas queixas, demandas, como são seus hábitos urinários, intestinais, ginecológicos e sexuais. Depois passamos para avaliação postural, de mobilidade, abdominal e do assoalho pélvico. A partir daí e conforme a demanda de cada paciente, podemos entrar com eletroanalgesia, terapia manual do assoalho pélvico, termoterapia, técnicas respiratórias, exercícios de mobilidade pélvica, entre outros."

O vaginismo é outra patologia que também provoca dor. Claudia Milan, fisioterapeuta pélvica, explica: "De forma geral, vaginismo é uma disfunção muscular que envolve tensionamento e contração involuntária do assoalho pélvico, sendo a camada de músculos que temos na região íntima. A principal queixa de pessoas com vaginismo é a dor na tentativa de penetração vaginal. Essa dor também pode aparecer durante a realização de exames ginecológicos e afeta muito a qualidade de vida das pessoas. Na fisioterapia pélvica, é feita uma avaliação individualizada que inclui coletar histórico e realizar exame físico direcionado. Após a compreensão do quadro, são traçados objetivos e condutas a serem seguidos."

Para o tratamento, um acompanhamento multiprofissional com ginecologista, psicóloga e fisioterapeuta é fundamental. "O foco é o relaxamento dessa musculatura. Existem técnicas que vão desde terapia manual, como massagens, até dilatadores e eletroterapia, que é quando usamos um aparelho que emite ondas elétricas para auxiliar nesse relaxamento. O emprego de recursos varia de caso a caso, não existe uma 'receita de bolo'. Durante o tratamento também é necessário trabalhar a consciência corporal e funcionalidade dessa musculatura, dado que ter os músculos tensos e contraídos não é sinônimo de musculatura forte", explica Claudia.

Reconhecer o vaginismo e buscar o tratamento são processos extremamente importantes, mas não levam a uma resolução espontânea ou imediata. "Entender quais são os traumas relacionados e trabalhar em conjunto com outras profissões faz toda a diferença. Também é preciso conscientizar a/o paciente que o tratamento não tem um resultado imediato, ou seja, leva tempo para que as melhoras sejam sentidas. Além disso, é necessário que as pessoas tenham em mente que as disfunções sexuais não envolvem apenas componente físico: fatores psicoemocionais costumam aparecer atrelados a esses quadros, então é realmente de grande utilidade o trabalho em equipe de diversas áreas da saúde", ressalta Claudia.

Independente da patologia, a dor durante a relação sexual não é natural e o primeiro passo para que o tratamento possa ser encontrado é buscar tratamento. Infelizmente, parte dessas alterações possuem diagnósticos que não são comuns a alguns profissionais, então em uma primeira negativa não desista e busque outros profissionais. Essa persistência poderá ser libertadora.

Gostou deste texto? Comentários, críticas e sugestões podem enviar email para dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:Vulvodínia: diagnóstico e tratamento / Vulvodynia: diagnosis and treatment. Monteiro, Marilene Vale de Castro; Barreto, Larissa Volpini; Amorim, Andrea Giroto; Diniz, Mucio Barata; Fonseca, Andrea Moura Rodrigues Maciel da; Lopes Filho, Agnaldo Silva. Femina ; 43(2): 71-75, mar-abril 2015.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL