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Fernanda Victor

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gordofobia: precisamos falar mais sobre esse assunto

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Fernanda Victor

Fernanda Victor é médica endocrinologista e metabologista. É titulada pela SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e mestre em ciências da saúde pela UPE (Universidade de Pernambuco)

Colunista do UOL

30/12/2021 04h00

Apesar desse tipo de preconceito ser antigo, o termo "gordofobia" é recente e refere-se a qualquer situação discriminatória que envolva pessoas obesas.

Percebo frequentemente que o preconceito também recai sobre o tratamento da obesidade, fazendo com que muitos desistam ou nem procurem acompanhamento adequado. A grande preocupação é que o receio de serem julgadas afaste as pessoas com obesidade do tratamento correto e, por vezes, ocasione ou agrave transtornos alimentares.

A obesidade é uma doença crônica que resulta da interação de fatores genéticos, metabólicos, nutricionais, psicológicos, econômicos, socioculturais e ambientais. Logo, é uma condição multifatorial e complexa demais para caber em estigmas e/ou julgamentos.

Um único comentário gordofóbico pode impactar gravemente a vida de outra pessoa. E pasmem (!), não é infrequente que eles venham de profissionais de saúde. Já ouvi de alguns pacientes relatos como estes: "você não tem foco", "como deixou chegar nessa situação", "está assim porque falta força de vontade", "vai mesmo tomar remédio para emagrecer?", "precisa de uma cirurgia bariátrica urgente", "só retorne para a consulta quando perder tantos quilos", dentre outros tantos depoimentos que só distanciaram essas pessoas dos cuidados necessários.

No meu último dia de atendimento deste ano, um caso do consultório muito me entristeceu. Atendi uma paciente que estava em programação de cirurgia bariátrica e metabólica há cerca de 4 anos. Ao questionar o porquê desse intervalo, ela me disse que, até então, ninguém havia tentado entender todas as nuances do seu caso e que o procedimento havia sido indicado apenas pelo seu peso, sem sequer ter sido examinada com os equipamentos médicos adequados (aparelho de pressão, balança e nem mesmo assento adaptado).

Então, me dei conta de quão longe estamos de garantir o devido acolhimento na maioria dos serviços de saúde e de abraçar verdadeiramente a diversidade, incluindo a de corpos.

Não há como romantizar a obesidade e suas consequências. Mas, independente da necessidade de tratamento farmacológico, os cuidados precisam ser contínuos e as decisões terapêuticas compartilhadas em um espaço de parceria e corresponsabilidade.

Essa abordagem precisa ser, no mínimo, empática e acolhedora. Como qualquer outro tratamento, o foco não deve ser a aparência física, mas, sim, trazer mais saúde, bem-estar e qualidade de vida.

Cabe a nós não naturalizar e nem reproduzir comportamentos gordofóbicos. Menos estigmas e mais respeito. Afinal, respeito é universal, fundamental e não tem nada a ver com o peso!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL