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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A gordofobia no atendimento médico e seu impacto na saúde mental

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

15/09/2021 04h00

Dia 10 de setembro é o dia da Luta Antigordofobia. Assim como a maioria das formas de preconceito, a gordofobia está no campo das ações que para alguns podem não ser ofensivas, mas que para quem vive ou passa isso pode afetar diretamente a saúde mental.

Sabe aquela parente que fala para uma pessoa que ela é linda de rosto, mas que precisa emagrecer? Aquela amiga que se torna uma fiscal da balança e fica contabilizando e falando que comendo tal coisa a pessoa irá engordar? Que o assento do avião que não é adaptável?

São pontos que podem não impactar a vida de uma parcela da população, mas que para quem vive e passa por isso, essa porcentagem que parece pequena se torna 100%.

Mais difícil ainda quando essa gordofobia atinge o sistema de saúde, quando antes de o paciente contar o que sente o profissional já orienta que a solução se baseia na perda de peso.

Antes de qualquer coisa, não estou fazendo esse texto com o objetivo de "romantizar" a obesidade, como algumas pessoas podem pensar, o meu objetivo aqui é apresentar situações e pessoas além da obesidade, trazer reflexões sobre respeito e cuidado, principalmente porque o impacto da gordofobia pode gerar traumas.

Durante minha formação médica, vivi diversas situações que me marcaram e entristeceram muito. Situação que poderiam ser evitadas se houvesse condições adequadas.

A primeira delas aconteceu quando uma paciente obesa precisou de tomografia e descobrimos que na região todos os aparelhos disponíveis para o SUS (Sistema Único de Saúde) suportavam apenas de 120 a 150 quilos no máximo. Depois de um tempo sem o exame, a solução encontrada foi encaminhar a paciente até o Zoológico de São Paulo, para realizar o exame lá.

Minha sensação era de tristeza, me coloquei na posição da paciente, questionei como, no estado teoricamente com mais aparelhos, alguém poderia ser submetido a tal situação? Como não se poderia investir em aparelhos adaptados? Essa falta de investimento e consideração é algo agressivo, que conta de uma exclusão social tratando tais seres humanos como animais.

Tempos depois, em um plantão, realizei a cesárea de uma paciente com anestesia geral, pois após dias de tentativa de indução de parto optaram pela cesárea, porém nenhuma agulha de raquianestesia do hospital era compatível. Solicitaram entre os hospitais da região e nenhum deles conseguiu disponibilizar, o resultado foi que depois de quase uma semana entre a indução de parto e a espera da agulha, a paciente foi submetida a cesárea com anestesia geral, uma anestesia mais complexa e que impossibilitou a paciente de ver seu bebê recém-nascido nos primeiros momentos.

Situações extremas, mas que mostram a incapacidade do sistema público de lidar com pessoas gordas.

E por que falar sobre isso? Por que não podemos considerar que pessoas fora da média de peso da população recebam menos cuidado, a sociedade não se sustenta individualmente, talvez alguns julguem que isso não impacta, mas impacta e muito.

Trago para vocês a história da Gabi Menezes, psicóloga e cofundadora da página Saúde sem Gordofobia, que conecta profissionais não gordofóbicos às pessoas: "Descobri que estava grávida com 14 semanas, porque o primeiro ginecologista que fui disse que não estava grávida e provavelmente estava com a tireoide alterada devido ao meu peso (sendo que havia falado que meu peso era o mesmo na época há 4 anos). Aí quando fiz os exames, veio o baque né! Fui sozinha fazer um exame de rotina, saí grávida de 14 semanas ouvindo coração do nenê e ainda com probabilidade alta de ser um menino.

Troquei de médico, e fui em outro pelo plano de saúde. Nesse dia levei minha mãe e, acreditando que conseguiríamos ouvir o coração do bebê, já estava com 17 semanas, ele falou que não daria para ouvir por conta da minha adiposidade abdominal. Fui embora derrotada.

Parei no terceiro médico, já levei o Tiago, meu marido para ver se teria mais respeito, pelo menos. Em todas as consultas até a reta final da minha gestação, ele me pesava e eu nunca ganhava peso, ainda assim o médico falava que mesmo não engordando não deveria ir ao McDonald's. Depois que meu filho nasceu, passei 4 anos sem fazer ultrassom novamente."

Lutando contra a gordofobia estamos protegendo a saúde física e mental de muitas pessoas e isso é totalmente diferente de incentivar ou romantizar a obesidade. A questão de decidir ou não perder peso é muito mais complexa e totalmente individual, diferentemente do respeito que deve ser universal.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL