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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sexualidade na infância: postura e temas para abordar com crianças

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

05/11/2021 04h00

Há mais de 100 anos, Sigmund Freud chocou a sociedade europeia quando revelou que as crianças também têm sexualidade. Isso porque tinha-se a ideia de que sexualidade se resumia ao desejo e ao ato sexual, sendo assim, como as crianças poderiam ter vontade de fazer sexo?

Hoje a psicanálise de Freud e de tantas outras referências fazem parte de estudos em diversas áreas, com destaque para a formação em psicologia e pedagogia, trazendo contribuições importantes para discussões sobre o desenvolvimento humano. Contudo, ainda há quem acredite que sexualidade está relacionada exclusivamente ao ato sexual e, por isso, é assunto exclusivo para adultos ou que deve ser dialogado apenas dentro de casa por familiares.

Perdemos muitas oportunidades de promoção de saúde quando negamos às crianças e adolescentes o direito à informação sobre corpo e sexualidade ou restringimos essa conversa ao núcleo familiar, que, muitas vezes, é composto por adultos que também não receberam educação em sexualidade e reproduzem preconceitos e visões do senso comum sobre o tema.

Falar de sexualidade é dialogar sobre corpo e a convivência com outros corpos. Se sexualidade é corpo, isso quer dizer que o ato sexual é um tema na área da sexualidade, mas que o trabalho não se resume a isso. Além do mais, os assuntos abordados em atividades individuais e coletivas sempre são pensados de acordo com a faixa etária da criança.

Considerando que sexualidade é corpo e que cada faixa etária vai vivenciar processos de educação em sexualidade de formas diferentes, vamos pensar em possibilidades de dialogo sobre a temática, respeitando o desenvolvimento de cada criança?

Zero a dois anos

Postura de pessoas adultas: sempre pedir licença para trocar fraldas, criando o costume de mostrar à criança que o corpo dela é respeitado. Mesmo que você acredite que a criança não entenderá essa atitude, é importante promover essa cultura em casa. Além disso, se a criança está acostumada a ouvir o pedido antes de ter seu corpo tocado, ela achará estranho caso algum adulto tentar tocá-la.

Nessa faixa etária também é importante incentivar as crianças a nomearem partes de seus corpos como boca, pé, mãos, bumbum/nádegas, vulva, pênis, ânus etc. Ainda que algumas pessoas gostem de dar apelidos às partes do corpo, é fundamental que as crianças escutem e aprendam os nomes corretos de sua corporeidade.

Três a cinco anos

Esse é um ótimo momento para focarmos na importância do autocuidado, autoproteção e valorização da convivência. É interessante realizar leitura de livros que falem sobre toques respeitosos no corpo e toques invasivos e desrespeitosos. Também é muito saudável dialogar sobre corporeidade, já que nessa fase se costuma ter curiosidade sobre o corpo da outra criança.

Seis a oito anos

Fase bem interessante para jogos que envolvam a participação coletiva, como futebol, queimada. Lembrando que não é interessante dividir os times com base no gênero (exemplo: meninas de um lado, meninos do outro), essa postura só estimula a rivalidade e competição, dando a ideia de que meninas e meninos não podem exercer cooperação. Também é interessante abrir diálogo sobre gênero, respeito à diversidade afetiva e religiosa.

Nove a 11 anos

Nessa fase já podemos falar sobre o início da puberdade. Podemos dizer que nosso corpo está se aquecendo para produzir hormônios que mudarão muita coisa em nossas emoções e corporeidade. Menstruação é assunto de todo mundo, então não restrinja esse diálogo somente aos corpos que menstruam. Falar sobre menarca (primeira menstruação) e sobre semenarca (primeira ejaculação) é importante, pois tira esses temas do lugar de tabu e mostra que todas as pessoas, independentemente da corporeidade, vivem mudanças, cada qual a seu modo.

Na próxima semana, falaremos um pouco sobre temas interessantes para se trabalhar com adolescentes de 12 a 18 anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL