PUBLICIDADE

Topo

Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O negão que nunca chegou: afetividades de adolescentes negros cisgênero

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

30/07/2021 04h00

O título desse texto foi inspirado na participação de Nátaly Neri no TEDx Talk em 2017, com um relato poderoso intitulado "A mulata que nunca chegou". Se você nunca assistiu, recomendo fortemente que assista. Neste vídeo, a cientista social conta sua trajetória da infância à adolescência, abordando aspectos relacionados à autoestima da menina negra, erotização da adolescência negra feminina e seus efeitos na saúde física e mental.

A inspiração para a escrita desse texto surgiu também de conversas informais com alguns homens negros cisgênero adultos (boa parte deles, amigos ou parentes) e também em atividades lúdicas online sobre temas relacionados à sexualidade, afetividade e relações raciais na adolescência, que contavam com a participação de várias pessoas, entre elas, meninos negros cisgênero. Também me inspirei nos relatos de algumas mulheres brancas cisgênero, em redes sociais ou em conversas informais, que afirmam preferir se relacionar com homens negros, utilizando a frase "eu gosto é de negão".

Penso que um dos obstáculos mais difíceis para se falar sobre os efeitos do racismo sobre a sexualidade de meninos negros cisgênero seja o machismo. Digo isso porque os meninos negros são educados pela sociedade para acreditar que se seus corpos são desejados para o sexo, então eles estão em vantagem. Mas não é bem assim.

Recordo a situação narrada por uma mulher negra cisgênero, na qual ela informa que uma médica branca a parabenizou porque o pênis do bebê teria "honrado a cor", referindo-se ao tamanho da genitália da criança. A expectativa do "negão do pênis grande" foi verbalizada por essa médica sem nenhum pudor ou reflexão sobre os efeitos daquela fala na mãe do bebê e também na criança. Adultocentrismo e racismo se entrecruzam e criam um ambiente em que a pessoa adulta branca sente-se validada para tecer comentários erotizantes sobre a genitália de um bebê.

Um dos homens com quem conversei informou que o acolhimento mais recebido na infância vinha de uma professora que o consolava sempre que ele sofria racismo por parte das meninas brancas. Ela dizia que no futuro ele seria um "negão de tirar o chapéu", as meninas brancas iriam se apaixonar e se arrepender de tê-lo tratado mal. Nesse caso, a expectativa "da chegada do negão" foi apresentada como ferramenta de pseudo-acolhimento diante de uma situação de violência racista no ambiente escolar.

Há duas semanas, escrevi um texto falando sobre a erotização de meninos negros cisgênero e dei o exemplo da professora branca, que pedia ao adolescente negro que tirasse a camisa numa festividade dentro da escola e em seguida o interpelava com gritos de "lindo, tesão, bonito e gostosão".

A médica que elogia o tamanho do pênis do bebê; a pedagoga que acolhe o menino dizendo que, futuramente, as meninas brancas vão se apaixonar por ele; a professora que deseja ver o corpo do adolescente negro no pátio da escola: todas as situações expressam o que estou chamando aqui de "expectativa da chegada do negão" que aconteceria na puberdade. Três figuras de mulheres brancas cisgênero contribuindo para a construção de um imaginário de que o menino negro só será aceito quando o negão chegar. O negão do pênis grande, o negão de tirar o chapéu, o negão sem camisa no espaço público.

Puberdade chega, mas o negão prometido não vem. E agora?

Resta tecer estratégias de sobrevivência ao racismo no ambiente escolar e, infelizmente, poucas estão relacionadas à aproximação e fortalecimento mútuo com as meninas negras. Lamentavelmente, algumas estratégias construídas por meninos negros englobam agressões e maus tratos às meninas negras cis e trans.

Além disso, os elogios sobre corpos de meninos negros cisgênero continuam até a idade adulta e termos como "Deus de ébano", "adoro um negão", "negão tem pegada" são lidos muitas vezes como valorização da beleza do homem negro, porém são muitos problemáticos, principalmente vindo de pessoas brancas, justamente porque são extremamente racistas e reduzem adolescentes e homens negros à condição de "máquina sexual", tirando deles qualquer traço de humanidade e afetividade.

Por vezes, adolescentes negros cisgênero caem na armadilha de que isso é afeto, é carinho e é reconhecimento, justamente porque, desde a infância, muitas de suas experiências de afeto foram baseadas na ideia de que só serão amados se fizerem jus à "fama do negão" e só serão reconhecidos socialmente se conquistarem a "Maria Joaquina" da escola.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL