PUBLICIDADE

Topo

Elânia Francisca

A vida na terra do adultocentrismo: uma reflexão sobre adultos e crianças

Desenho do rei do planeta solitário de "O Pequeno Príncipe" - Desenho de Saint-Esupéry/O Pequeno Príncipe
Desenho do rei do planeta solitário de "O Pequeno Príncipe" Imagem: Desenho de Saint-Esupéry/O Pequeno Príncipe
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

21/08/2020 04h00

Era uma vez uma terra nada distante chamada Adultocentrismo, nela viviam os adultocêntricos, um povo que acreditava que somente adultos sabiam o que era melhor para todo mundo. Na terra do Adultocentrismo só adulto falava, só adulto era ouvido, só adulto era visto como pessoa sabida e parecia tão verdadeira essa ideia que todo mundo achava mesmo que só adulto sabia das coisas.

Lá, na terra do Adultocentrismo, só adulto tomava conta das coisas e tudo que adulto dizia virava lei imediatamente. Algumas leis que adultos criavam nem precisavam de papel, bastava o adulto falar e pronto: ninguém podia questionar! A não ser que você fosse um outro adulto mais forte!

No Adultocentrismo, o adulto era o centro das coisas e tudo que existia só existia porque adulto deixava existir. Da mesma forma que tudo o que adulto detestava era apagado ou diminuído para o adulto ficar feliz ou se sentir seguro.

Mas não viviam só adultos na terra do Adultocentrismo. Como todos sabem, para que existam adultos é preciso fabricar crianças e cuidar delas até que se tornem adolescentes e depois jovens para, enfim, alcançarem o título de adulto.

"Precisamos cuidar das crianças, afinal elas são o futuro da nação!", diziam os adultocêntricos. Como eram bonzinhos!

O caso é que não era tão fácil assim lidar com as crianças no reino do Adultocentrismo. As crianças eram choronas, birrentas e cansativas, então eram poucos os adultocêntricos dispostos a cuidar delas. Existiam restaurantes em que a presença de crianças era proibida. Além disso, na terra do Adultocentrismo era normal ver placas com dizeres: "aluga-se casas para casal sem filhos".

O pior mesmo era quando as crianças cresciam e se tornavam adolescentes - ou "aborrecentes", como diziam os adultocêntricos. Pior que lidar com crianças, era ter que conviver com adolescentes que contestavam tudo, reclamavam de tudo e quase sempre se isolavam ou andavam em bandos malvestidos achando que mereciam o mesmo respeito que os adultocêntricos.

Mas algo interessante acontecia com os adolescentes conforme iam crescendo, eles passavam tratar as crianças da mesma forma que os adultos os tratavam. Sem perceber, os adolescentes e jovens iam exercendo sobre as crianças o mesmo poder que os adultocêntricos exerciam sobre eles.

E assim a roda girava, mantendo um ciclo de harmonia no reino do Adultocentrismo. O adulto silenciava o jovem, que silenciava o adolescente, que silenciava a criança, que silenciava seus brinquedos que, sendo meros objetos, permaneciam em silêncio...