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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os adultos, o asfalto e as crianças: como nascem os sonhos coletivos?

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

02/07/2021 04h00

Quando eu era criança, meus pais e eu fomos morar num bairro periférico da cidade de São Paulo. Nesse lugar, viviam muitas pessoas que, assim como minha família, haviam nascido e se criado em outros estados brasileiros e vieram para cá em busca de trabalho e novas formas de sustento. Estou tentando puxar pela memória e acho que nem tinham muitas pessoas paulistanas em nosso bairro.

Éramos corpos que davam vida a um território com diversos sotaques do Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará, Piauí, Paraíba, Sergipe etc. Também não me recordo de pessoas sulistas ou cariocas por ali. Se existiam, eram poucas.

Embora fossemos de regiões diferentes do país, nossos vocabulários, costumes e crenças eram muito próximos e alguns termos ditos na casa de famílias paraibanas, por exemplo, eram os mesmos usados em minha família, que é capixaba.

Era na escola —naquela época formada, majoritariamente, por crianças paulistanas — que nossos sotaques e jeitos de nomear as coisas ficavam mais evidenciados e tratados como esquisitices ou jeito errado de falar.

-- Não se fala taruíra, menina. Aquele bicho é lagartixa.
-- Que diabo é malinesa?

Fora do ambiente escolar, com a proteção de nosso bairro, os verbos se encontravam e davam movimento à vida comunitária de sotaques misturados e sintonizados.

A casa de um vizinho chamado seu Luizinho era a sede da Associação de Moradores. Os adultos se reuniam e as crianças de vez em quando participavam das conversas ou anotando algumas coisas que os adultos pediam.

Quero contar a vocês sobre o dia em que a pauta da reunião foi o asfalto. Nós, crianças, ficamos empolgadíssimas. Todo mundo queria que houvesse a pavimentação do bairro. Imagine só a gente indo para escola sem precisar colocar sacola nos pés? Nunca mais iam nos chamar de pé de barro!

As pessoas adultas dialogaram e decidiram que, para alcançar esse desejo, seria necessário estruturar duas ações simultâneas: a coleta de assinaturas para um abaixo-assinado que seria entregue na prefeitura, exigindo o asfalto, e a realização de um mutirão para cimentar a ladeira principal do bairro.

Eu era criança, mas lembro direitinho do dia em que cimentaram nossa rua. Foi um dia inteiro de trabalho e todo mundo ajudou. O chão ficou lisinho e ninguém podia pisar no meio, tinha que descer a rua pelas laterais (que não tinha calçada). As crianças trataram de fiscalizar.

— Oh!! Não pisa no meio, não. Vai pela ponta de lá.

Todo mundo que passava elogiava o capricho daquele cimentado. Teve gente que até escreveu o próprio nome no chão para deixar a marca de que ali tinha sua força de trabalho pela comunidade.

No dia seguinte choveu bastante e metade do cimento foi embora. Acho que nós, crianças, ficamos mais arrasadas que as pessoas adultas. A gente queria muito brincar de carrinho de rolimã e taco, como as crianças do bairro vizinho faziam, mas não dava. Tinha muita pedra em nossa rua e dessa vez uns pedaços de concreto no lugar do chão lisinho.

Aquele bairro nasceu no início dos anos 1990, mas o asfalto só chegou em 2005.

Na perspectiva do adulto, o asfalto pode ser visto como símbolo de melhor locomoção. Na perspectiva das crianças, era símbolo de participação, lazer, esporte e convivência comunitária.

Recordo essa história porque ela me parece um símbolo de que é possível haver a participação infantojuvenil nas decisões e ações comunitárias. As crianças têm sonhos coletivos!

Hoje eu visito meus pais e fico olhando o modo como nosso bairro está estruturado, vejo o asfalto e me sinto parte daquela conquista. Penso no quanto as lutas sociais travadas por nossos pais, mães e avós para a garantia do direito à moradia e para a chegada do asfalto foram simbólicas, principalmente para as crianças.

O asfalto de nosso bairro deve ter sido a minha primeira experiência de sonho coletivo.

E você, desde quando você tem sonhos coletivos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL