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Elânia Francisca

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

A educadora em isolamento social: reflexões sobre a estratégia da gambiarra

Reprodução do Instagram @sexualidadeaflorada
Imagem: Reprodução do Instagram @sexualidadeaflorada
Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do VivaBem

02/04/2021 04h00

Eu não sou uma influenciadora digital, não sou youtuber, nem busco seguidores nas redes sociais. Sou uma educadora que atua no campo presencial, sou uma oficineira de pé no chão-real.

E isso tudo que estou fazendo de forma remota é uma gambiarra.

O momento é delicado, a estratégia genocida corre solta e de forma escancarada e eu sei que ficar em casa é uma estratégia de sobrevivência e saúde coletiva, mas também é uma postura educativa.

Toda vez que uma amiga me diz: "Vem aqui em casa?". E eu respondo: "Estamos vivendo uma pandemia!" É educativo para mim e para ela, pois nesse momento precisamos ser lembradas que não estamos de férias, de folga ou curtindo um feriado. Estamos num período extremamente delicado e frágil.

Tenho vivenciado momentos de angustia e ansiedade porque mesmo com atividades online e domínio das ferramentas de reuniões remotas (conhecimentos estes adquiridos durante a pandemia), me falta aquele cheirinho de chulé dos grupos de adolescentes numa sala de aula fechada. Sinto saudades do perfume exagerado do menino que quer impressionar a pessoa que ele tá afim e que está conosco na atividade.

Sinto falta do choro das crianças que caíram e dos pés da professora correndo para levantá-las.

Sinto saudade do cochicho dos adolescentes discordando do que eu digo. Sinto falta do zum-zum-zum enquanto eu conto algum causo. Sinto falta de ver o tamanho real do corpo das pessoas (e não só um quadradinho ou um recorte).

Sinto saudade de ver os homens adultos me procurando para dizer que seus meninos não participarão das atividades sobre afetividade porque "isso é coisa de menininha" e, de repente, numa conversa ali com o olho no olho, me revelam que queriam ser pais mais afetuosos com seus filhos, mas aprenderam a ser homens de forma dura e hoje não sabem como dar carinho e dizer "eu te amo" para seus meninos.

Sinto falta, mas entendo e sempre recordo que precisamos criar estratégias para nos manter sãs e salvas e não colocar a vida de ninguém em risco.

Sinto falta, mas sei que só voltarei a ver essas pessoas presencialmente se elas e eu estivermos vivas quando tudo isso acabar. E para seguirmos vivas, é preciso ficar em segurança, lutar para que a vacina chegue para toda a população e defender o SUS (Sistema Único de Saúde).

Eu não sou influenciadora digital, não sou youtuber, nem busco seguidores, mas entendo que, nesse momento, precisamos estar em contato de forma remota e o único meio possível (para algumas pessoas) é a internet.

Espero em breve reencontrar pessoas presencialmente, espero que sigamos nos vendo pela tela, mas sem esquecer que isso aqui, por enquanto, é uma estratégia, uma gambiarra!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL