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Por que somos reféns dos vírus? Desenvolver antivirais é desafio da ciência

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

18/10/2020 04h00

"O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria". Muito atual, está frase foi proferida no século passado pelo russo Isaac Asimov, professor de bioquímica da Universidade de Boston.

Esperamos muitos legados desta pandemia, visto que situações de intenso estresse da humanidade acabam historicamente por produzir frutos de desenvolvimento e algum bem-estar social.

Dentre eles estão as mudanças estruturais da nossa sociedade, que já não suporta tamanhas desigualdades, uma relação mais ética com o meio ambiente, melhora das nossas relações sócio-afetivas, melhora de nosso sistema publico de saúde (embora sem o SUS a tragédia teria sido inominável, se é que já não foi), redução do consumismo predatório e, quem sabe, um novo olhar para o autocuidado, visto que as pessoas que tiveram um melhor enfrentamento da doença foram as que tinham suas comorbidades sob controle mais rígido.

Por último, e não menos importante, com esforço para não confundir análise com desejo, espero ainda que mais uma herança deste sombrio momento nos seja deixada. É mais que necessário um maior empenho da ciência em desenvolver drogas potentes antivirais que possam nos fornecer alguma tranquilidade, visto que novas pandemias são anunciadas pelos cientistas como inevitáveis.

Apesar de bactérias cada vez mais resistentes, temos antibióticos potentes e seu uso racional pela medicina nos traz algum grau de conforto. Para os vírus, entretanto, contamos com vacinas para a prevenção e poucos antivirais para algumas viroses nas fases de infecção vigente.

Por que isso ocorre?

Os vírus são "seres" extremamente simples constituídos por ácido nucleico (moléculas que constituem o material genético de todos os seres) que carregam essas informações genéticas sob a forma de DNA ou RNA, nunca ambos, envoltos por uma cápsula de proteína.

Há, inclusive, controvérsia se são ou não seres vivos, pois não conseguem sequer se replicar sozinhos já que dependem da estrutura da célula infectada para se reproduzir. Por isso são chamados de parasitas intracelulares obrigatórios.

Mesmo que seja superada a enorme dificuldade de estudá-los em laboratório, uma vez que somente se reproduzem em organismos vivos, necessitando de animais ou linhagens de células transgênicas desenvolvidas artificialmente ou experimentalmente, outras características dos vírus dificultam e encarecem o desenvolvimento dos antivirais.

Uma delas reside paradoxalmente nesta baixa complexidade estrutural, pois ficam poucos alvos para atacar o vírus com medicação. Além disso, por utilizarem estruturas das células do hospedeiro, atacá-los quase sempre acaba envolvendo atacar estruturas da célula humana, o que pode ser prejudicial ao paciente.

Assim, esta estrutura interna variada (de DNA ou RNA) requer medicamentos específicos para cada tipo de vírus (são diferentes entre si), ao contrário das bactérias que têm estrutura interna semelhante, se reproduzem por conta própria e não necessitam de estruturas do hospedeiro, o que permite alvos de ataque semelhantes para todas.

Outra causa para termos poucos antivirais para apenas algumas infecções é que muitos (covid-19 por exemplo) produzem uma resposta imunológica exuberante, se tornando essa resposta mais importante que a carga viral que muitas vezes já está em declínio e não mais adianta combatê-los.

Assim, também ao contrário dos antibióticos utilizados para tratar infecções bacterianas, os antivirais têm ou teriam um momento determinado, certo, para serem utilizados, uma vez que em um determinado momento dessas infecções o vírus já não é mais o problema.

Como se tudo isso não bastasse, alguns vírus têm poder de variar alguns de seus caracteres com frequência. Esta característica de alguns desses microrganismos é a chamada mutação, como nos casos dos vírus da influenza A e do HIV, o que é possivelmente um processo de seleção e sobrevivência que torna os antivirais obsoletos.

Todas as características desses microorganismos que sempre assolaram a espécie humana dificultam o desenvolvimento de antivirais pela indústria farmacêutica, visto que são tantos os mecanismos de "defesa" por eles utilizados que, uma vez que entram em nossas células, fica praticamente impossível detê-los.

A ciência, como sempre, há de superar essas dificuldades, pois como disse Sigmund Freud: "A ciência não é uma ilusão, mas seria uma ilusão acreditar que poderemos encontrar noutro lugar o que ela não nos pode dar".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL