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Taise Spolti

Body positive, fitness lifestyle e o bumerangue da vida

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Imagem: iStock
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Taise Spolti

Formada em educação e em nutrição, Taise Spolti é ex-fisiculturista e participou do programa Masterchef, da Band. Em sua coluna, traz receitas que aliam ingredientes saudáveis à gastronomia, além de mostrar como a alimentação equilibrada, a prática de exercícios e outros bons hábitos são essenciais para trilhar o caminho da saúde e do bem-estar físico e mental.

Colunista do UOL

09/01/2022 04h00

Bastou uma foto de antes e depois, mostrando resultados estéticos em seu corpo após ter recebido acompanhamento profissional, para Alexandra Gurgel, a maior influenciadora digital do movimento #bodypositive no Brasil, sofrer o ataque impiedoso da rede social que lhe acolheu desde o princípio na luta pela aprovação do corpo livre e sem padrões no Brasil.

Os comentários foram diversos, desde o apoio de muitos, até o julgamento de outros muitos também, afinal, não é fácil ser 'traído pelo próprio líder do time. Mas esse texto não é só mais um a dar lugar na discussão de como a foto dela foi ou não um erro ou acerto.

Vamos falar de como a internet está adoecendo, mesmo que se defenda a ideia de perfis que lutam pela saúde e corpo livre.

Não são poucas as mulheres que, de 10 anos para cá, ganharam espaço nas redes socias como influenciadoras fitness e que tiveram problemas ao tentar engravidar. Outras relataram, somente após algum tempo de exposição, que tinham transtornos alimentares. Mais algumas tantas acabaram se rendendo ao movimento de corpo livre e sem padrões, afinal, é insustentável se manter com percentual de gordura baixo o tempo todo e manter a imagem de saúde e lifestyle, frente ao preço das coisas, desigualdade social e na base da mentira.

Mentira, sim, infelizmente sabemos que, na internet, para muitas pessoas que trabalham com influência, a mentira é algo recorrente (evitável, não generalizado, mas presente em muitos perfis). Postar um produto que não usa, mas que recebeu para postar, comer algo e dizer que é delicioso por que é saudável, mas ao desligar a câmera correr para a pizza e o bolo. Indicar produtos que não são eficazes e atrelar seus resultados físicos ao uso de forma errônea, levando o seguidor ou leitor a um engano e confusão, são apenas alguns exemplos que acontecem e que você já deve ter visto ou conhecido pessoas que fizeram isso (ou já tiveram que fazer em algum momento para manter o status social da rede digital).

O Bodypositive começou em meados de 1960, com ativistas lançando fortemente sua luta pelo que você já deve ter visto ou ouvido por aí: "meu corpo, minhas regras". De modo geral, ele visa o respeito e a representatividade de todos os tipos de corpos, com cicatrizes, estrias, celulite, deficiência, trans, gordo, magro, não interessa, todo corpo merece respeito e é bonito como é. Em essência, essa luta é digna, é importante, principalmente na sociedade como anda, e se faz importante que todos abracemos causas que impõem respeito ao que é dito como 'diferente'.

No estudo do comportamento alimentar, muito vem se debatendo, e cada vez mais fortemente, sobre a importância do bom relacionamento com a comida e o bom relacionamento com o corpo, e então, isso bate de frente com o Fitness.

Fitness lifestyle e Bodypositive deveriam estar lado a lado, caso as essências se respeitassem, porém, do lado de lá existe o extremismo da busca pela saúde, onde restrições ocorrem constantemente e o alimento torna-se ora uma droga (lixo, proibido, engorda, dá alergia...), ora um remédio (tudo tem um proposito nutricional para melhorar ou potencializar algo), e do lado de cá existe a aceitação e respeito pelo corpo como ele é, mas em grande parte não respeitando o limite mínimo da saúde, que pode ser como a saúde arterial, a saúde pancreática e até a saúde mental, onde o componente visto como uma bengala pode ser a comida (e muitas vezes é).

Do lado Fitness podemos citar, como já mencionei lá em cima, modelos fitness que defendiam tanto a saúde e o bem-estar enfrentando problemas para engravidar, problemas com compulsão alimentar, problemas de sono, transtorno de ansiedade e dependência de substâncias químicas — isso é uma ofensa da minha parte? Acredite, não é, isso é um alerta para quem já está despertando do mundo fantasioso da rede social.

Do lado BodyPositive, temos, infelizmente e não de forma generalizada, assim como no Fitness, pessoas que se usam desse tema importante para, simplesmente, ganhar dinheiro, incentivar o alto consumo de alimentos ultraprocessados, indo totalmente contra todas as orientações mundiais e brasileiras de consumo alimentar. Aceitar, amar e respeitar seu corpo, assim como todos os outros corpos alheios, não é sinônimo de desleixo ou de não autocuidado, de não cuidado com a saúde. Lembrando: Bodypositive não é uma luta exclusivamente para corpos gordos ou com obesidade, ele é para todos, e isso inclui inclusive pessoas com magreza, que estão em tratamento ou deveriam estar para transtornos alimentares.

Isso também dá pano pra manga, pois no Fitness isso acontece e muito. Geralmente, estes perfis extremos do mundo lifestyle, mesmo que com uma mensagem de bem-estar e cuidado com a saúde, acabam se tornando gatilhos no comportamento de milhares e milhões de seguidores, indo na contramão do que seria o próprio termo lifestyle (estilo de vida, traduzido de forma literal), pois nenhum estilo de vida é possível levando em consideração tudo que se é postado, vendido e indicado. Caso contrário, um bom exemplo de estilo de vida saudável seria resumido em: shots, jejum, suplementos em pó, capsulas da beleza e do emagrecimento (como se somente o magro ou o emagrecimento fosse o importante em um estilo de vida saudável), treino diário, ioga, meditação, refeições luxuosas com ingredientes importados, muitas horas de sono, água de pH adequado, e tantos outros itens 'indispensáveis'. Isso é sustentável? Não. E é justamente por tantos excessos e tantas restrições que isso vai se diminuindo ao longo dos anos e aquele perfil antes 'fitness' começa a ter problemas. Saúde não é extremismo.

Saúde não é nem o excesso, se libertando de todo e qualquer hábito saudável apenas pela defesa de que beleza não tem padrão (e que fique claro, não tem!), colocando em risco a própria saúde que mais cedo ou mais tarde manda a conta, nem o excesso de restrições, pois a saúde também manda a conta, ser magro ou lutar por uma magreza desejável e não sustentável não é sinônimo de saúde.

Por fim, no bumerangue da vida, fica a conta cobrada pelos seguidores que, antes tínhamos como verdade absoluta o comportamento postado por tais perfis, e que agora bate de frente com a própria palavra e o próprio comportamento. Meu perfil do Instagram fala há muito tempo sobre isso, assim como meus textos aqui, e tenho certeza que o profissional de saúde que você também segue por lá fala a mesma mensagem: saúde é equilíbrio, cada pessoa tem uma necessidade individual, tome cuidado com perfis extremistas que vendem uma ilusão de vida ou de exemplo de vida perfeito. Suplementação e alimentos possuem um poder incrível na nossa saúde, sim, mas não devemos nos basear nisso apenas, fugindo do prazer e do social que a comida nos proporciona. Saúde mental e saúde física devem estar juntas na sua busca pela vida saudável.