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Paraíso em alerta: voluntária relata as ações contra o óleo no Sul da Bahia

Voluntários atuam na limpeza do óleo na praia do Pompilho, na Bahia - Carline Piva
Voluntários atuam na limpeza do óleo na praia do Pompilho, na Bahia Imagem: Carline Piva

Carline Piva

Colaboração para o UOL

09/11/2019 04h00

Tenho o privilégio de morar onde as pessoas costumam passar suas férias. Serra Grande está localizada na Costa do Cacau, no Sul da Bahia, um recanto de praias de azul cristalino, com águas mornas, o nosso Caribe brasileiro. Estamos entre o agito surfista de Itacaré e o movimento urbano de Ilhéus. No contraponto do burburinho das cidades vizinhas, somos um destino turístico mais calmo, propício para famílias em busca de tranquilidade ou esportistas que gostam de voar de parapente, fazer trilhas no Parque Estadual da Serra do Conduru e desfrutar das cachoeiras. Por conta de todas essas maravilhas, não por acaso a comunidade adota o slogan "O Paraíso é Aqui".

Talvez ofuscada por uma falsa impressão de proteção divina para esse paraíso, acompanhei a chegada do óleo na Paraíba e sua "descida" pelos demais estados ainda sem acreditar que seríamos atingidos.

A jornalista e professora de yoga Carline Piva, voluntária em Serra Grande (BA) - Arquivo pessoal
A jornalista e professora de yoga Carline Piva, voluntária em Serra Grande (BA)
Imagem: Arquivo pessoal
Tudo mudou em 18 de outubro, quando as praias do Sargi e do Pé de Serra passaram a receber o petróleo cru. Inicialmente, chegaram pequenos fragmentos, depois, manchas do tamanho de um pé. Começaram a aparecer fotos nos grupos de WhatsApp de pessoas coletando o petróleo com as mãos desprotegidas, porque desconheciam a toxicidade do material. Como assim? "Precisamos intensificar as campanhas educativas", pensei.

O sinal de alerta estava ligado. E o chamado definitivo para a ação foi acordar e me deparar com o vídeo de grandes placas de petróleo chegando na Ponta do Ramo, praia bem próxima do Sargi, que habitualmente frequentamos. Sim, nosso paraíso havia sido atingido. O que fazer? Era impossível pensar em qualquer outro assunto a não ser partir para o combate ao óleo. Fui atrás de equipamentos de proteção individual (EPI) na central de apoio. Ao mesmo tempo que recebi um par de luvas, máscara e saco de lixo, percebi a necessidade urgente de contribuir na parte de comunicação, criando alertas para veicular em todas as mídias possíveis.

Voluntário coletando óleo cru na praia do Pompilho, na Bahia - Fredrik Axel Boëthius
Voluntário coletando óleo cru na praia do Pompilho, na Bahia
Imagem: Fredrik Axel Boëthius
Resolvi permanecer na sede para ajudar no que fosse preciso. E precisávamos realmente de tudo: voluntários, EPIs, ferramentas para a coleta, informações sobre a toxicidade do resíduo, carona para levar pessoas às praias, campanha para arrecadar recursos, pessoas para prestar atendimento à população que se oferecia para ajudar. Sim, junto com a crise chegou a solidariedade - o lado sempre positivo das tragédias.

Dar conta de respirar e agir diante de tantas prioridades foi o principal desafio. O meu sentimento - e de muitos da comunidade - era de extrema indignação pela ausência do Governo Federal. Nessa época, jornais revelaram que a União ignorou perguntas essenciais que determinam a gravidade do desastre. O resultado: uma demora de 43 dias desde o início do derramamento para, finalmente, ser acionado o Plano Nacional de Contingência de Incidentes com Óleo.

Voluntários colocaram a saúde em risco na limpeza das praias, debaixo de um sol escaldante, sem todos os equipamentos necessários, e ainda tinham que digerir a declaração do dia de que "peixe é um bicho inteligente e foge da mancha de óleo". O clima geral desses primeiros dias tão caóticos era o do mundo narrado por José Saramago no livro "O Ensaio sobre a Cegueira".

Voluntários na limpeza das praias na região de Serra Grande, no Sul da Bahia - Fredrik Axel Boëthius
Voluntários na limpeza das praias na região de Serra Grande, no Sul da Bahia
Imagem: Fredrik Axel Boëthius

Me propus a ajudar na elaboração de um questionário de monitoramento das praias para que uma equipe de voluntários pudesse observar e anotar diariamente a quantidade e características dos fragmentos encontrados. Fiz com gosto e apreciação, apesar de não ter nenhuma formação técnica na área ambiental. Na minha cabeça, persistia a pergunta: será que não existe um modelo pronto em alguma instância governamental? Por que isso não chega até nós?

Observei também a precariedade do Corpo de Bombeiros. Em um treinamento para voluntários no Sargi, soldados contaram que, ao serem convocados, receberam uma máscara simples, não adequada para enfrentar gases tão tóxicos. "Paramos em uma loja em Ilhéus e desembolsei R$ 80 do meu próprio bolso para comprar uma melhor. É a minha saúde que está em risco", disse um deles.

Estes estão sendo dias de muitas reflexões críticas. Por outro lado, a diversidade das doações que chegam é tocante. Voluntários do um projeto social realizaram mutirão para produzir pesto de coentro fresco, que auxilia na desintoxicação dos voluntários da linha de frente no combate ao óleo. Outros doaram homeopatia, massagens terapêuticas para aliviar o estresse, equipamentos para coletar os resíduos. Passados os piores momentos, seguimos aqui na varredura e coleta dos pequenos fragmentos de óleo, um verdadeiro trabalho de formiguinha.

Voluntários fazem monitoramento e limpeza do óleo na praia do Pompilho - Craline Piva
Voluntários fazem monitoramento e limpeza do óleo na praia do Pompilho
Imagem: Craline Piva

Hoje, 8 de novembro, me juntei ao grupo de voluntários dispostos a continuar a retirada de resíduos na praia do Pompilho. Encontrei uma linha deixada pela maré alta com fragmentos pequenos, de até 3 centímetros. Pontilhados de óleo cru, derretendo ao sol, se misturando com a areia e conchas. Parece humanamente impossível limpar toda essa fragmentação de petróleo, encontrada em trechos aleatórios ao longo do vasto litoral nordestino.

Ao usar os EPIs recomendados pelo Corpo do Bombeiros, inclusive a máscara com filtro para gases orgânicos e vapores ácidos, não senti efeitos colaterais na atividade de coleta do óleo. Mas registrei as queixas mais comuns de amigos que trabalharam na limpeza sem os equipamentos corretos (principalmente porque estes não tinham chegado a tempo): ardência nos olhos, tontura, dor de cabeça, irritações e descamações na pele e formigamento dos dedos.

Além dos impactos ambientais, já estão sendo apontados sérios prejuízos econômicos, principalmente nos setores de pesca e turismo. Por falta de análises apuradas sobre a real situação de balneabilidade das praias e da qualidade da areia, o clima ainda é de incerteza sobre o que dizer, de fato, para os turistas - e até para nós, moradores.

Com a retirada das manchas pretas, as praias voltaram a ostentar o cenário paradisíaco e o mar voltou a "convidar" para um banho refrescante. Prefeituras de cidades vizinhas, como Ilhéus, já lançaram vídeos e notas atestando a limpeza e garantindo a saúde e segurança dos visitantes.

Mas será que está tudo bem, mesmo? Dá para simplesmente ignorar tantos alertas de pesquisadores da área de saúde sobre os "riscos invisíveis"? Sobre a toxicidade que pode permanecer infiltrada na areia? Sobre qual é o grau de contaminação da flora e da fauna aquática?

Somos uma vila com muitos pescadores e marisqueiras, que já sentem o impacto direto na economia familiar, com a queda drástica no consumo de peixes. Há relatos de pescadores que continuam trabalhando nas regiões atingidas e que, na falta de compradores, acabam servindo para suas próprias famílias os pescados, apesar das recomendações de possível contaminação. São situações como essa que revelam a extrema importância das campanhas de arrecadação de donativos para quem tirava o seu sustento do mar. Desejo contribuir com isso a partir de agora. As manchas estão sendo recolhidas uma a uma nas praias e manguezais, mas o drama humanitário será difícil de apagar por um bom tempo.

Como posso ajudar?

diversas instituições que estão mobilizando voluntários e doações no Nordeste. No município de Uruçuca, ao qual pertence Serra Grande, foi criado um fundo para apoiar as ações da Comissão para prevenção de risco de Uruçuca "De Olho nas Praias". A prestação de contas desse fundo está sendo feita pelo site da ONG Tabôa, de Fortalecimento Comunitário: www.taboa.org.br.

Conta para receber doações:
Caixa Federal
Agência: 3203
Conta corrente: 2480-1
CNPJ 21.498105/0001-92
Tabôa Fortalecimento Comunitário - Serra Grande/Bahia

É obrigatório enviar comprovante para o WhatsApp (73) 99161-6996 ou pelo e-mail: financeiro@taboa.org.br

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