Dermatologista cria técnicas pioneiras e exclusivas para pessoas trans

Tudo começou com um dos seus pacientes, um homem cis, que desejava ter o seu rosto mais andrógeno porque gostava, às vezes, de se vestir de mulher. Ela topou, mas disse que antes precisaria estudar bastante porque nunca tinha feito nada assim.

A doutora Bianca Viscomi, dermatologista com cerca de 15 anos de experiência, pesquisou toda a literatura científica, fuçando avidamente em uma plataforma médica que contempla todos os artigos científicos publicados e, para a sua surpresa, os artigos que se aproximavam do tema eram raríssimos, sendo que nenhum, objetivamente, era direcionado a pacientes trans.

"Eram adaptações de técnicas que a gente usa em pacientes cis! Aí eu vi uma questão que era muito importante para mim: a necessidade de incluir pacientes trans na ciência", disse ela a Universa.

"A ciência tem o dever de melhorar e cuidar de todas as pessoas. E se a gente não tem os procedimentos bem escritos e bem embasados pela ciência, o que acaba acontecendo com estes indivíduos é cair nas mãos de profissionais não habilitados, se submeter a técnicas que não têm um resultado bom e bonito e, principalmente, que não têm segurança".

Quando Bianca viu que existia esse "gap" na literatura científica, resolveu produzir esse material.

Mas aí, fazer ciência no Brasil, ainda mais como investigadora autônoma, ou seja, fora de uma Universidade, é uma coisa muito difícil, e a maneira que consegui fazer isso foi pedindo ajuda, apoio, suporte para a indústria.
Bianca Viscomi, dermatologista

Técnicas inéditas

A médica decidiu estabelecer uma parceria com uma farmacêutica que lhe forneceu todos os materiais que ela precisava para fazer a transformação no rosto dessas pessoas.

Ganhou toxina botulínica, preenchedores e bioestimuladores de colágeno para começar a tratar esses pacientes, em maioria mulheres trans. Desenvolveu técnicas que até então não tinham sido publicadas e muitos casos hoje, do seu consultório e de tantos outros, começaram a ser publicados a partir de suas técnicas descritas.

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Desde sempre não quis nichar seu consultório.

"Existem clínicas especializadas no tratamento da face de pessoas trans, mas na verdade, o que eu quero é que essas pessoas frequentem os consultórios médicos e que possam encontrar em todos os consultórios o acolhimento e também o conhecimento que o profissional precisa ter para que elas sejam tratados adequadamente", diz.

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Imagem: Reprodução

Eu acho que enquanto essas pessoas precisarem se tratar nessas clínicas "nichadas" e específicas a gente ainda tem muito o que andar.
Bianca Viscomi, dermatologista

Hoje, Bianca tem cerca de 20 pacientes, contando homens e mulheres trans. Sua vontade é sempre ampliar, não somente no número de atendimentos, mas também na educação médica.

"Começamos recentemente um ambulatório assistencial didático, dedicado ao atendimento de pessoas trans que não podem pagar para serem atendidas em consultórios particulares".

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Transição acompanhada

Sobre tratamentos hormonais, a médica acredita que a testosterona tem um poder de masculinizar e virilizar e de mexer com os caracteres secundários muito menos que os hormônios femininos. A grande questão é que bloquear a testosterona e tomar hormônios femininos pode gerar muitas alterações de humor.

"O que a gente precisa entender é que identidades trans são um espectro onde muitas coisas são possíveis. Tem mulheres trans que se encontram dentro da reposição e outras que não gostam. Que, enfim, querem manter algumas características, como não querer desenvolver mamas. Então isso depende das escolhas."

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Imagem: Reprodução

Para Bianca, a transição é um processo que precisa ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar: endocrinologista, psicólogo, psiquiatra, dermatologista, cirurgião plástico, e esse processo precisa ser embasado pela ciência.

Além disso, a médica defende a importância de democratizar o conhecimento o máximo possível. Seu estudo foi publicado em "open access", ou seja, ninguém precisa pagar para ler.

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Seu trabalho busca sempre manter a ancestralidade em todos os indivíduos, cis e trans.

"Eu não posso descaracterizar uma pessoa num trabalho de feminilização ou masculinização a ponto de ela não reconhecer quem ela é, principalmente porque esses indivíduos podem ter uma questão de disforia de gênero, de reconhecimento de face, do próprio corpo."

Outra crença importante de Bianca é em seu olhar estético para não permitir que os pacientes fiquem "caricatos". "Eu tento preservar a identidade de todas as pessoas, sejam elas trans ou cis".

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