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Mulheres inspiradoras

Após sumiço do filho, ela lutou por 3 anos pra salvá-lo de trabalho escravo

Pureza Lopes Loyola - Reprodução/Repórter Brasil
Pureza Lopes Loyola Imagem: Reprodução/Repórter Brasil

Rute Pina

De Universa, em São Paulo

19/05/2022 04h00

"Gostei do filme porque sou eu mesma. É a minha história", diz a aposentada Pureza Lopes Loyola, 75, quando Universa a questiona sobre o longa que leva seu nome, "Pureza", estrelado por Dira Paes, com direção de Renato Barbieri e previsão de estreia para esta quinta-feira (19). A inspiração é a saga da maranhense na busca por seu filho, que foi parar em uma fazenda de trabalho análogo à escravidão no Pará em 1993.

Antônio Abel, seu filho caçula, deixou o Maranhão para trabalhar no garimpo no Pará. Sem notícias dele por um mês e sem saber se ele tinha chegado ou não ao destino em segurança, Pureza decidiu procurá-lo: levou apenas uma bolsa, sua Bíblia e uma foto de Abel. A busca durou três anos. "Passava de cinco a seis dias sem comer, enfezada como boi brabo. Mas passaria por cima das leis do Brasil e do inferno por causa do meu filho", diz.

No percurso, se deparou com inúmeras situações de exploração no campo. Registrou o que conseguiu e fez denúncias do que havia visto às autoridades, em uma luta incansável até a criação de um órgão governamental que fiscalizasse situações de trabalho escravo.

Com andar lento e calmo, Pureza encontrou a reportagem no hall de um hotel em São Paulo, em meio a uma bateria de eventos da pré-estreia do filme. Em três dias, esteve presente e foi ovacionada em sessões de cinema na capital paulista, no Rio de Janeiro e em Brasília. "Estou cansada, não vejo a hora de voltar para casa", diz, sobre a atual viagem pelo país.

Dira Paes vive Pureza no longa que leva o nome da personagem - Divulgação - Divulgação
Dira Paes vive Pureza no longa que leva o nome da personagem
Imagem: Divulgação

Pureza nasceu em Presidente Juscelino, município localizado a duas horas de São Luís (MA), mas se mudou para Bacabal, a 240 km da capital maranhense. Ela e a família fabricavam e vendiam tijolos. Teve cinco filhos. "São três homens e duas mulheres, os crie trabalhando e lutando, dando o pão de cada dia", conta ela que, mesmo cansada da tour de lançamento do filme, desatina a falar, às vezes misturando histórias e assuntos.

"Minha vida foi dura, mas venci tudo o que apareceu. Estou com a minha história contada até na Alemanha, estou fora do Brasil", diz ela, que é evangélica e aprendeu a ler aos 40 anos para conseguir entender o que estava escrito na Bíblia.

Pureza viu e relatou trabalho escravo contemporâneo no Maranhão

Durante a busca pelo filho, Pureza foi a fazendas e trabalhou em algumas como cozinheira. Assim, convivendo com trabalhadores no dia a dia, descobriu um sistema de aliciamento que empregava mão de obra para o desmatamento de áreas de mata nativa, transformando o terreno em pasto.

Os trabalhadores aliciados ficavam alojados nessas fazendas sem condições e garantias de trabalho e seus documentos eram confiscados. Eles se tornavam dependentes de seus patrões para comer, ter produtos básicos, como de higiene, e até mesmo as ferramentas que usavam no trabalho, como enxadas. Essa dependência era revertida em dívidas maiores que o salário que recebiam, o que os mantinha presos ao dono da fazenda.

Também eram castigados física e psicologicamente, segundo o relato de Pureza. "Ficava observando, meu cérebro fotografando tudo. Eu e Deus. Ali, eu só pedia para que nem onça, cobra ou homem me matassem", relata.

"O desespero pelo meu filho, que era o caçula, me dominou. E quando eu vi o que vi nas fazendas, o desespero aumentou 100%. Me lembro de Antônio, um senhor já de idade, chorando como criança porque a mãe dele não sabia onde ele estava, e ele não tinha condição de sair dali. Todo mundo estava devendo. Eles apanhavam, levavam tiro. Passavam noite e dia na roça, cantando, daquele jeito que está no filme", diz

Dira Paes e Pureza durante gravações de filme - Divulgação - Divulgação
Dira Paes e Pureza durante gravações de filme
Imagem: Divulgação

"Eu era mãe, tia e irmã dos escravos."

Foram três anos e dois meses de sofrimento, pelo filho perdido e pelas pessoas que via sendo oprimidas nas fazendas. "Eu era a mãe, a tia e a irmã dos escravos", afirma. "Dizia que iria botar a boca no trombone para ver se alguém ajudaria."

E botou: Pureza viajou o Brasil relatando o trabalho análogo à escravidão no Maranhão e pedindo ajuda para encontrar o filho. Com a ajuda da CPT (Comissão Pastoral da Terra), ela entrou em contato com o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho no Maranhão, no Pará e em Brasília. Chegou a escrever cartas para três presidentes da República: Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso —apenas Itamar Franco respondeu.

"Fui para Brasília perder meu tempo, gastei meu dinheiro e me estressei demais, ninguém fez nada. Ia vender a casa porque o dinheiro não dava mais para pagar essas viagens", diz a aposentada, que fala do descrédito que as pessoas tinham ao ouvir o que ela relatava.

"Até hoje, tem gente que duvida das coisas porque não viu e não foi lá", conta. "Mas a esperança nunca perdi. Essa aí reinava, mais do que eu: na minha mente, parecia que eu estava vendo meu filho perto de mim. Não desisti."

A mãe localizou Abel quando ele estava trabalhando em um garimpo em Mato Grosso e ouviu, na rádio, a notícia das buscas da mãe pelo seu paradeiro.

Busca fomentou criação de órgão governamental

A luta e os relatos Pureza deram impulso à criação do Grupo Especial Móvel de Fiscalização do Trabalho Escravo em 1995. O comitê uniu auditores fiscais do trabalho, policiais federais e procuradores do trabalho para fiscalizar a violação de direitos trabalhistas no país. Entre 1995 e 2021, o Grupo Móvel libertou mais de 57 mil trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Em 1997, Pureza recebeu em Londres o Prêmio da Anti-Slavery International, a mais antiga organização de combate ao trabalho escravo em atividade no mundo.

Sua história nas telas do cinema, ela diz, pode ajudar a conscientizar as pessoas sobre a situação de trabalhadores que, segundo ela, ainda persiste. "O filme vai ser bom para despertar todo o mundo. Vai ser um 'despertamento' muito grande."

Dira Paes no papel como Pureza Loyola no filme - Divulgação - Divulgação
Dira Paes no papel de Pureza Loyola no filme
Imagem: Divulgação

"Eu vi tudo o que vi. E sofri. Mais do que me contarem, eu estava vendo o que acontecia", diz Pureza.

Filmado em 2019, a obra teve estreia adiada por causa da pandemia e entra agora no circuito nacional. Mas já ganhou prêmios 28 prêmios nacionais internacionais, como o de melhor filme no Canal de Panamá International Film Festival e no Big Muddy Film Festival, nos Estados Unidos. Interpretando Pureza, a atriz Dira Paes também ganhou prêmios de melhor atriz Seattle Latino Film Festival, também nos EUA, e no Salento International Film Festival, na Itália.

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