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O que acompanhantes podem fazer para evitar violência obstétrica no parto?

Gisele Lopes
Imagem: Gisele Lopes

Rute Pina

De Universa

25/01/2022 04h00Atualizada em 25/01/2022 10h36

Após o episódio de violência obstétrica vivido em seu parto, a influenciadora e empresária Shantal Verdelho teve que se pronunciar nas redes sociais para pedir fim aos ataques ao marido. Mateus Verdelho, que acompanhava o nascimento da filha do casal, foi criticado por não ter feito uma intervenção no momento das agressões. "Ele estava em situação de vulnerabilidade tanto quanto eu. A vida e saúde da esposa e da filha estavam nas mãos do médico. Ia fazer o quê? Brigar?", publicou Shantal.

De fato, quem acompanha uma mulher na hora do parto -- seja marido, companheira, mãe, irmã ou qualquer outra pessoa de confiança da gestante -- também está em situação de pressão e nervosismo e pode ter dúvidas sobre como agir para evitar violência obstétrica. Em casos como o de Shantal, o que poderia ser feito?

Para responder a essa questão, Universa conversou com a obstetriz Flavia Estevan, da equipe do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, de São Paulo. Segundo ela, se o acompanhante testemunha a agressão, ele pode intervir e pedir a troca da equipe médica que faz a assistência à gestante.

"Nesses casos, a equipe de enfermagem do próprio hospital pode ser chamada e o acompanhante pode fazer uma denúncia, chamar a atenção para aquela situação e dizer que você quer outra equipe porque a atual está incapacitada e exercendo violência", orienta a obstetriz.

Especialistas ouvidos pela reportagem também dão outras orientações importantes. Segundo eles, quem vai acompanhar um parto precisa sair de uma posição passiva. Só assim, vai conseguir ajudar a evitar as diversas formas de violências que podem ocorrer no momento -- desde as relacionadas a procedimentos, como uso de estimulantes para acelerar o parto e realização da episiotomia (abertura entre ânus e vagina que facilitaria a passagem do bebê), a agressões físicas e verbais.

Estevan diz que o acompanhante também está vulnerável por ter vínculos com a mulher e o bebê. Mas, ainda assim, essa pessoa pode ser peça-chave para auxiliar a parturiente. "O acompanhante está intimamente ligado ao paciente, mas ele não está com a dor ou a perda de consciência da mulher em trabalho de parto. Então, seu papel é fazer a mediação entre a equipe e a pessoa", diz obstetriz.

Acompanhante deve estar por dentro do plano de parto

A especialista pontua que, para uma boa condução de problemas que podem aparecer, o acompanhante precisa estar cada vez estar mais envolvido com a gestação, desde o pré-natal. "Essa pessoa é quem vai estar em consciência para resolver questões que se apresentam na hora do parto e representar os interesses da paciente", explica.

Por isso, a especialista diz que quem acompanha também tem que estar por dentro de todos os procedimentos que podem ser aplicados. "Ela é uma testemunha do que está sendo feito, o que é muito importante."

Uma medida que vem ganhando força, mas que ainda é pouco divulgada, é o plano de parto, um documento que a gestante entrega na chegada ao hospital listando seus desejos e vontades.

Estevan diz que o documento pode ter um efeito moral e auxiliar o acompanhante a expor que determinada ação da equipe médica contraria o desejo da mulher. "O plano de parto é uma carta de intenções, um documento que não tem valor jurídico no Brasil, mas que faz muita diferença ao entrar na instituição", diz a obstetriz.

"Antigamente, as pessoas torciam nariz para quem levava plano de parto, mas hoje é mais aceito. Os hospitais recebem, registram e assinam. Então, isso vem cada vez mais ganhando espaço e muitas vezes isso já indica para o profissional que a mulher está esclarecida sobre seus direitos."

O casal Natália da Cruz, 33, e André Aquino, 31, fizeram o plano de parto para a chegada de sua primeira filha Nina, hoje com um ano e sete meses. Para eles, a carta de intenção foi fundamental para dar mais tranquilidade ao momento e tirar a sensação da impotência do acompanhante, conta André. No documento de três páginas, eles abordaram questões como uso de anestesia a menções religiosas.

"A gente se preparou bastante, fizemos cursos e conversamos com muitas pessoas. Lemos o plano de parto de outras mulheres para saber o que elas diziam para fazer e não fazer", diz André. "Já ter pensado em decisões que poderiam ser tomadas em um momento que você não está desesperado, pressionado, com frio na barriga e tudo acontecendo é muito importante."

André Aquino e Natália da Cruz no nascimento da primeira filha do casal, em 2020 - Gisele Lopes - Gisele Lopes
André Aquino e Natália da Cruz no nascimento da primeira filha do casal, em 2020
Imagem: Gisele Lopes

Natália começou o trabalho de parto em casa, orientada por obstetra e parteira. Mas decidiram ir para o hospital após a demora na evolução do processo. O casal montou um grupo no WhatsApp com profissionais de referência e com a família para compartilhamento de informações — estratégia que também pode ajudar o acompanhante a tomar decisões em momento de nervosismo.

Após alguns exames, Natália teve indicação para a cesárea. E, novamente, o plano de parto ajudou o casal a passar pela decisão com tranquilidade. "Sempre tem algo imprevisível. Mas estávamos muito seguros de várias decisões difíceis que a gente iria se deparar. Você fica, de fato, muito vulnerável e propenso a tomar decisões das quais pode se arrepender depois", diz André.

Para Natália, estar na companhia de alguém que se preparou com ela foi essencial: "Só percebi a importância da companhia dele no desenrolar do momento. O parto foi muito longo, e eu tinha me preparado para ter tido um parto normal. Mas tivemos que tomar decisões e, realmente, você fica sem saber o que está acontecendo. Então foi importante ter alguém junto que não está com dor, mas está conectado a seus planos e sabe as possibilidades quando as coisas dão errado. Fiquei frustrada de ter feito a cesárea, mas segura de que era isso que deveria ter sido feito."

André acompanhou todo o trabalho de parto de Natália, do pré-natal à decisão da cesárea - Gisele Lopes - Gisele Lopes
André Aquino e Natália da Cruz no nascimento da primeira filha do casal
Imagem: Gisele Lopes

O Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde disponibiliza online um modelo de plano de parto para que mulheres se inspirem e usem para elaborar seu próprio plano de parto. A carta pode ser baixada no site da organização.

Em caso de agressões, solicite a troca de equipe

Se mesmo com todo o preparo, agressões ou violências acontecerem, a obstetriz Flavia Estevan explica que o acompanhante pode e deve acionar a enfermagem ou equipe médica responsável pelo plantão e pedir para que seja substituído o profissional que está prestando a assistência.

Se for uma equipe particular, como era o caso de Shantal, também há a possibilidade de chamar profissionais do próprio hospital e dispensar o médico que estava atuando com violência.

Para se preparar, conheça equipe médica e visite hospital antes do parto

Quando a parturiente dá entrada no hospital, a documentação assinada naquele momento autoriza o parto, e a equipe médica tem autonomia para avaliar o que será feito em cada caso. "A partir deste momento, o acompanhante não tem como autorizar ou não os procedimentos", diz Estevan.

Por isso, a obstetriz afirma que a conversa com a equipe antes deste momento é essencial. "Você precisa abordar o profissional sobre o que ele pensa, falar dos procedimentos. Hoje, profissionais embasados, por exemplo, têm uma taxa zero de aplicação da episiotomia."

A doula Edite Neves afirma que gestante e acompanhante devem ficar atentos aos sinais que o médico pode transmitir por piadas ou comentários no pré-natal. "É importante a rede de apoio desta mulher fazer uma pesquisa sobre o médico, ver qual índice ele tem de parto normal e cesárea, se já tem alguma denúncia ou reclamações sobre ele. Uma dica é conversar com grupos e equipes que já trabalharam com ele", afirma.

"Uma doula também pode ajudar neste processo. E se o médico diz que não aceita doulas na equipe, isso já é um sinal de alerta."

Outra dica é visitar o hospital para entender não só a estrutura do local, mas também conhecer previamente os protocolos da instituição. A Lei 11.634/2007 garante que toda a gestante assistida pelo SUS (Sistema Único de Saúde) conheça a maternidade onde o parto será realizado e qual a maternidade que ela pode ser atendida nos casos de intercorrência pré-natal.

Nesta visita, argumenta Estevan, é importante checar possíveis procedimentos — a obstetriz aconselha que a mulher e seu acompanhante chequem a política do hospital sobre, por exemplo, uso de medicamentos para aliviar a dor da gestante. "Claro que a pandemia complicou a entrada a hospitais, mas este também é um direito garantido por lei", lembra. "O acompanhante pode exigir, por exemplo, a analgesia, se for um desejo da mulher."

É lei: toda mulher pode ter acompanhante

A legislação brasileira garante desde 2005 o direito de a mulher grávida ter um acompanhante durante todo o parto, o que inclui o pré e o pós imediato. Em 2015, a Lei do Parto Humanizado reiterou esse direito. Vale lembrar que o acompanhante pode estar presente tanto na cesária quanto no procedimento natural.

Segundo ela, ainda é comum hospitais negarem acompanhante, principalmente homens, se as mulheres estiverem em enfermaria coletiva. Para Estevan, esta violação também pode ser considerada um tipo de violência obstétrica.

Conhecer a lei foi o que garantiu à costureira Giva Malta, 52, estar ao lado da filha, em março de 2020, quando ela deu à luz. A família se preocupou com a demora do parto e uma possível falta de oxigenação do bebê ao nascer.

A equipe que acompanhava a filha de Giva administrou o medicamento misoprostol para a indução do nascimento da criança. Ainda assim, após 48 horas, a dilatação não evoluía.

"Disse que ela não queria mais tentar o parto normal. Depois disso, pediram para que eu saísse, argumentando que eu não poderia mais acompanhá-la porque estava em um quarto comunitário com outras quatro pessoas em trabalho de parto", lembra.

"Mas eu sabia que poderia ficar. Minha filha estava em uma situação em que ela não conseguia nem andar ou ir ao banheiro sozinha. Então falei que não iria sair dali e não saí mesmo. Sabia que era um direito da paciente", conta a avó de Joaquim, que nasceu horas seguintes, após uma cirurgia cesárea.