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Mulheres inspiradoras

A mulher negra por trás da narração do filme sobre o Atlético-MG

Carol Leandro, narradora do filme "Lutar, lutar, lutar", sobre a trajetória do Atlético-MG  - Divulgação
Carol Leandro, narradora do filme 'Lutar, lutar, lutar', sobre a trajetória do Atlético-MG Imagem: Divulgação

Leandro Silveira

Colaboração para Universa

12/11/2021 04h00

Uma mulher preta, com formação em contabilidade e, hoje, atuante, na área de vendas. Um perfil, em tese, bastante comum dentro da sociedade brasileira. Mas, definitivamente, não a opção óbvia para ser a voz condutora do filme sobre a história de mais de 100 anos de um dos principais clubes do futebol do país.

Foi sob essa perspectiva que Carol Leandro recebeu o convite de Helvécio Marins Jr. para narrar "Lutar, Lutar, Lutar", que entrou em cartaz na quinta-feira, em circuito nacional, relatando a trajetória do Atlético-MG de 1908, ano da sua fundação, a 2014.

"Minha reação ao convite foi de descrédito total. Nos acostumamos com muita coisa da sociedade, como o racismo estrutural. Ele me revolta, mas eu sei que acontece", diz Carol, 31 anos, moradora de Contagem (MG).

Eu não tinha a menor expectativa de passar por uma coisa dessas, nunca fui a imagem da atleticana que a sociedade desenhou. E a mulher negra vende menos midiaticamente.

As palavras de Carol refletem uma realidade. Cinema e futebol chegaram praticamente juntos ao Brasil, no fim do século 19. Pilares importantes da representatividade da cultura, elas também refletem o racismo, com a baixa representatividade dos negros em cargos de relevância e decisão, bastando lembrar que Marcão, hoje, à frente do Fluminense, é o único técnico negro entre os 20 clubes do Campeonato Brasileiro.

Lutar, lutar, lutar - Divulgação - Divulgação
Carol Leandro, narradora do filme 'Lutar, lutar, lutar', sobre a trajetória do Atlético-MG, com a namorada. Elas se conheceram no coletivo Grupa
Imagem: Divulgação

A situação é pior para as mulheres negras. Um estudo do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa apontou que no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, de 2002 a 2017, apenas 2,63% das indicadas ao prêmio de melhor atriz eram mulheres pretas, com um índice de 3,8% na disputa da premiação dada para papéis coadjuvantes.

É nesse contexto de baixa representatividade que "Lutar, Lutar, Lutar" começou a ser pensado no começo dos anos 2010, por Helvécio Marins e Sérgio Borges. A ideia ganhou impulso com a conquista do título da Libertadores de 2013 pelo Atlético-MG. Em 2014, quando o projeto saiu do papel e suas imagens foram captadas com a participação do roteirista Fred Melo Paiva, o clube ainda venceria a Copa do Brasil.

Nos sete anos que se passaram entre o início da produção e o seu lançamento nas telas, muita coisa mudou —inclusive a sociedade. "A gente chamava cruzeirense de viado e cantava 'Maria, eu sei que você treme", relembra Fred. "Não existia na nossa cabeça, três homens brancos, em 2013, preocupação com a representatividade das mulheres. Houve uma evolução pessoal de cada um de nós", acrescenta.

Lutar, lutar, lutar - Divulgação - Divulgação
Toninho Cerezo em cena do filme 'Lutar, lutar, lutar', sobre a trajetória do Atlético-MG
Imagem: Divulgação

Coletivo feminista como resposta ao sexismo no futebol

Também foi nessa época, entre as conquistas do Atlético-MG e a finalização do filme, que surgiu o coletivo feminista Grupa, como resposta ao sexismo no lançamento do uniforme do clube em 2016, quando mulheres desfilaram de biquíni.

Para Carol, a Grupa entraria em sua vida um pouco depois disso. Filha de pai cruzeirense, mas com um tio atleticano que a levava aos estádios, passou, posteriormente, a ir ao Mineirão e ao Independência sozinha. Até entrar, em 2018, no coletivo, que agrega mais de 120 mulheres em grupos nas redes sociais, embora suas relações e componentes não se resumam a esse âmbito. E ela destaca a importância da Grupa para, simplesmente, dar a segurança às mulheres de frequentarem as arquibancadas sem medo.

Tem muitas meninas com medo de ir ao estádio. E nós temos acolhimento. Lá, nada importa para elas, a minha sexualidade... Os meus melhores amigos eu formei na arquibancada.

A presença nas arquibancadas levou Carol a ser uma das personagens selecionadas para um filme, ainda não finalizado, pelo cineasta Lobo Mauro que retrataria a rivalidade entre torcedoras de Atlético-MG e Cruzeiro, time da irmã da narradora. Foi ele o responsável por apresentar Carol, personagem de uma foto icônica da vibração da torcida, a Helvécio, que a definiu como narradora do filme.

Lutar, lutar, lutar - Divulgação - Divulgação
Torcida do jogo Atlético X Botafogo em 1971, em cena do filme 'Lutar, lutar, lutar', sobre a trajetória do Atlético-MG
Imagem: Divulgação

O provável ineditismo de colocar uma mulher negra narrando um filme de futebol veio com outro, dela própria, que nunca havia participado de qualquer produção cinematográfica. Foi preciso, então, fazê-la desaprender a emular o estilo de um repórter de televisão, que viu durante toda a vida. "Eu tinha certeza de que ela precisava falar do jeitinho dela. Mudamos um pouco o texto para ela se sentir à vontade", diz Helvécio.

Usar a voz para narrar um filme também foi uma vitória pessoal para Carol.

Sempre tive problema de autoestima com a minha voz, por ela ser mais grossa. No início, me concentrava e parecia que estava narrando uma marcha fúnebre.

Representatividade para o torcedor

A ideia da direção com a presença de Carol foi dar voz às pessoas comuns e representatividade ao torcedor. "O filme escolhe uma mulher para ser a voz de Deus, uma deusa preta. Ela tenta fazer uma narração profissional, mas ela não é. E isso traz um frescor", avalia Lobo.

Ela é uma voz que tem urgência para estar nesse lugar. Se encaixa na estética da mensagem do filme, com um viés humanista, voltado para o torcedor, algo que fazemos, inclusive, com o posicionamento das câmeras.

Helvécio Marins Jr.

A dificuldade de ver a mulher como atuante na sociedade —e ainda mais em um ambiente como o do futebol— provoca até mesmo o risco do apagamento da história, como no caso da trajetória do Atlético-MG, como relembra Fred, que reservou um trecho importante do seu roteiro para contar uma pouco conhecida história feminina no clube.

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Tricampeonato, em 1955, no filme 'Lutar, lutar, lutar' conta a trajetória do Atlético-MG
Imagem: Divulgação

Afinal, foi das mãos de Alice Neves, mãe de um dos fundadores do clube, que foram costurados os primeiros uniformes e bandeiras do time. Além disso, ela chegou a fundar uma torcida organizada feminina.

"A mulher é algo intimamente ligado à história do Atlético. Dona Alice Neves ajudou a tornar possível a história do clube. Então, juntou essa importância com a consciência pela luta das mulheres", diz.

Linha de Três

Atuante na Grupa e presença constante nos jogos do Atlético-MG, Carol também dá outros passos no terreno do futebol, tendo criado, ao lado de outras amigas, o Linha de Três, canal no YouTube em que elas registram as impressões sobre o time em transmissões antes e após os jogos.

Lutar, lutar, lutar - Divulgação - Divulgação
Carol Leandro, narradora do filme 'Lutar, lutar, lutar', sobre a trajetória do Atlético-MG, com as colegas do Linha de Três
Imagem: Divulgação

E como boa atleticana que carrega o legado de Dona Alice, também dá seus passos para ampliar a presença do futebol feminino. Ex-jogadora do Prointer, um time amador de Belo Horizonte, ela trocou as chuteiras pela função de treinadora, estando hoje à frente do time de futsal Las Chicas, fruto de um projeto social no Morro do Papagaio, uma comunidade na região centro-sul da capital mineira.

O trabalho já rendeu frutos, como Sabrina, de 17 anos, hoje lateral-direita titular do América-MG. Uma conquista pessoal também para Carol, hoje a voz de "Lutar, Lutar, Lutar". "Como mulher negra, sempre achei muito alguém querer a gente para algo. Depois, me ver narrando o filme do meu time vira uma honra gigante", conclui a, agora, narradora.

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