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Empresário que assassinou a mulher tem pena aumentada, 19 anos após crime

A estilista Fernanda Orfali foi morta pelo marido, o empresário Sergio Nahas, seis meses após o casamento  - arquivo pessoal
A estilista Fernanda Orfali foi morta pelo marido, o empresário Sergio Nahas, seis meses após o casamento Imagem: arquivo pessoal

Paulo Sampaio

Colaboração para Universa

17/08/2021 04h00

Na semana passada, depois de atender a um recurso da acusação, a Justiça de São Paulo aumentou de sete para 8 anos e 2 meses, em regime fechado, a pena do empresário Sergio Nahas, condenado por matar a mulher em setembro de 2002. Julgado em novembro de 2018, ele havia sido sentenciado a sete anos em regime semiaberto.

Desta vez, o Tribunal de Justiça de SP entendeu que a pena deveria ser acima do mínimo, em virtude das circunstâncias do crime. Segundo o assistente da acusação, Ricardo Takamune, "houve o reconhecimento de uma forma gravosa do delito". "O assassinato aconteceu em um dos cômodos da residência do casal, local em que a vítima deveria se sentir segura", diz.

A defesa entrou com embargos de declaração, alegando contradições e omissões. "Não há nada nos autos que comprove que Sergio Nahas puxou o gatilho. Elementos indicam o suicídio", diz o advogado Eugênio Malavasi.

Entenda o caso

A estilista Fernanda Orfali estava casada com Sérgio Nahas havia seis meses, quando foi morta no apartamento onde o casal morava, em Higienópolis, bairro nobre na região central de São Paulo. Nahas teria puxado o gatilho quando Fernanda descobriu a relação dele com travestis —de quem comprava cocaína. A bala ricocheteou na coluna vertebral dela e atingiu seu coração. A estilista tinha 28 anos e Nahas, 38.

Durante 16 anos, a defesa interpôs inúmeros recursos, a maior parte considerada protelatória. O primeiro júri havia sido marcado para os dias 8, 9 e 10 de novembro de 2017, mas acabou adiado. Na véspera do feriado de Finados, imediatamente antes do julgamento, a defesa encaminhou ao Tribunal de Justiça um parecer em que reforçava a argumentação de que a vítima sofria de depressão e por isso se matou. "Ela tem um histórico da doença, sempre frequentou psiquiatras", sustentou a advogada Dora Cavalcanti.

Familiares de Fernanda afirmam que ela nunca foi a um psiquiatra até se casar. "A Nanda era a pessoa mais alegre da casa, fazia brincadeira de tudo, não consigo nem imaginá-la tentando se matar", diz o irmão dela, Júlio Orfali. A mãe, Nadir, conta que o pai de Sérgio, José Nahas, "providenciou um psiquiatra para acompanhar o filho no período de abstinência, e outro para ajudar Fernanda a conviver com um marido viciado". Segundo Nadir, o psiquiatra de sua filha era conhecido de José Nahas da igreja Ortodoxa e "encheu a Nanda de antidepressivos". Ainda se apresentou mais tarde como testemunha de defesa de Sérgio e depôs durante quatro horas, diz Julio Orfali.

Festa de casamento

Mais de 250 pessoas foram convidadas para a cerimônia de casamento de Sérgio Nahas com Fernanda Orfali, celebrada em março de 2002 na Igreja Ortodoxa da Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Em dois álbuns de fotos, um em preto e branco, e outro em cores, os noivos aparecem trocando alianças, cortando o bolo, posando com os pais e os padrinhos. Muito sorridente, a noiva não imaginava a tragédia que o destino reservava para ela.

Ex-aluna do centenário Colégio Dante Alighieri, Fernanda era a filha mais nova de quatro irmãos, teve uma educação convencional e, segundo sua família, dificilmente acreditaria se alguém dissesse naquele momento que seu marido era viciado em cocaína e costumava comprar a droga de travestis. "Nunca passaria pela cabeça dela algo assim", diz o irmão, Julio Orfali. "Ela era desencanada, extrovertida, leve, vaidosa, do tipo que levava 37 batons na bolsa."

Para não estragar a festa de casamento, a noiva preferiu não pensar em um misterioso episódio ocorrido uma semana antes, quando o noivo desapareceu por 48 horas. Nunca inteiramente explicado, o sumiço dele foi atribuído a um "sequestro relâmpago".

Fernanda e a família insistiram para que Sérgio registrasse um boletim de ocorrência, mas o pai dele, José Nahas, convenceu-a de que aquilo era mera burocracia e não levaria a nada. Seis meses depois, Sérgio passou mais dois dias longe de casa, sem que ninguém soubesse o seu paradeiro. Desta vez, ele não precisou alegar ter sido vítima de sequestradores, já que saiu de casa batendo porta. O motivo da briga com a mulher parecia inconsistente: "Ele achou ruim porque ela foi com uma amiga solteira ao cabeleireiro, e gritou: 'Em família árabe, mulher não sai com amiga solteira!"', contou a mãe de Fernanda, Nadir, de 76 anos.

Fernanda achou suspeito. Ligou para Julio, o irmão, e disse pela primeira vez que seu casamento estava indo mal e que pensava em se separar. Chegou a arrumar as malas. Quando o marido apareceu, ela vasculhou secretamente o celular dele atrás de alguma pista. Percebeu que dois ou três números se repetiam. Ligou para um deles, atendeu uma voz híbrida. Do outro lado da linha, falava a travesti Katryna, que, segundo se investigou, era a parceria mais frequente de Sérgio. Disposta a saber até onde ia a relação dos dois, Fernanda fez uma visita a ela. O quitinete que a travesti dividia com uma amiga ficava no centro da cidade, em uma região conhecida como Boca do Lixo, não muito distante do luxuoso apartamento em que o casal morava.

Na versão da travesti, Sergio costumava participar de orgias de sexo movidas a cocaína. A história podia ser fantasiosa. Mas pelo menos o tráfico da droga foi confirmado pela polícia. Os investigadores encontraram nos extratos bancários de Katryna e outras travestis cheques assinados por Sérgio em valores próximos a R$ 3.000.

Discussão e tiros

Já em casa, Fernanda confrontou o marido com suas descobertas, e os dois tiveram uma violenta discussão no quarto. De acordo com Nadir Orfali, a filha recuou até o closet, onde tentou se trancar para proteger-se do avanço descontrolado do marido. A essa altura, ele já estava munido com uma das armas que mantinha ilegalmente em casa. "Ele tinha mais força, arrebentou a porta e deu um tiro nela", conta a mãe. Foram dois disparos. Ela morreu na hora. "O segundo tiro, dado provavelmente quando ela caiu sobre os braços dele, atingiu a janela do closet."

Com 1,70m de altura, morena, atraente, Fernanda era o xodó da família. Nadir conta que Alexandre, o irmão cinco anos mais velho, tinha adoração por ela. Renata, a terceira, ri ao lembrar-se de que a irmã estava sempre pronta para ir a uma festa.

Ela foi apresentada a Sérgio por um casal de amigos de seus pais do Esporte Clube Sírio, na zona sul de São Paulo, frequentado pela colônia árabe. Julio e Alexandre já o conheciam porque jogavam bola juntos. Mas o relacionamento dos irmãos com o futuro cunhado nunca foi próximo. "Apesar de ser um cara simpático, ele tinha umas reações violentas. Uma vez, em uma briga de jogo, ele arrancou a manga da camisa do adversário", lembra Julio.

O namoro de Fernanda e Sérgio evoluiu rapidamente, até que, um ano depois, os dois resolveram se casar. Nadir não tem dúvidas de que o pai de Sérgio "sabia do vício do filho e dos parceiros dele". "Mas ele queria um herdeiro. E disse a Fernanda que ela podia escolher o que quisesse para a festa, do bom e do melhor, igreja, vestido, bufê, a conta era dele."

Um mês depois do casamento, Sérgio contou a Fernanda que era viciado em cocaína —mas estava lutando para livrar-se da droga. Ela pensou em deixá-lo. Nadir diz que a aconselhou a ficar, "salvar uma vida". Foi quando o pai de Sérgio providenciou um psiquiatra para acompanhá-lo e outro para ajudar Fernanda.

Segundo Nadir, o psiquiatra de sua filha era conhecido de José Nahas da igreja ortodoxa e se apresentou mais tarde como testemunha de de defesa de Sérgio. Ele depôs durante quatro horas, diz Julio. O promotor que trabalhou no caso, Romeu Zanelli, estranhou: "Nem sabia que um psiquiatra podia mencionar publicamente o que ouviu de seu paciente em confidência".

A advogada de defesa, Dora Cavalcanti, fala do caso como uma história de amor triste, interrompida por causa de um problema de depressão profunda. "O Sergio ficou muito abalado com a morte da Fernanda. Ele carrega a dor dessa tragédia com ele", disse.

Pedido de socorro

Cerca de 30 minutos antes de ser assassinada no sábado, 14 de setembro de 2002, Fernanda ligou para Julio pedindo que ele fosse buscá-la. O irmão percebeu que era grave, porque na véspera ela tinha ligado perguntando: "O que eu faço para sair daqui?" Fernanda parecia desesperada. Ele foi socorrê-la.

A caminho de Higienópolis, ligou para Alexandre e contou que a irmã estava em apuros. Renata também foi. No percurso, Julio ligou para Fernanda, mas quem atendeu foi Sérgio. "Aquela altura, ele já tinha matado ela. Tanto que disse: 'Agora, você pode vir buscar sua irmã."' Ao virar na rua Basilio Machado, ele avistou uma viatura da polícia e uma ambulância do Samu em frente ao edifício onde a irmã morava com o marido. Suspeitou que era com ela. E era.

Em entrevista a Universa, Dora Cavalcanti declarou que, "em respeito à dor do irmão de Fernanda, não iremos tecer considerações a respeito da sua versão sobre os fatos". Julio, por sua vez, afirma que "a ligação ficou registrada e está no inquérito".

Quem chamou a polícia foi o próprio Sergio. Quando os irmãos de Fernanda chegaram, José Nahas também estava no apartamento. A promotoria afirmou que a cena do crime tinha sido alterada. "O local não foi adequadamente preservado. E eu estou sendo light", afirmou o promotor Zanelli.

Sérgio Nahas sustentou que Fernanda se trancou no closet dizendo que ia se matar e que, quando ele arrombou a porta para tentar salvá-la, era tarde demais. O problema, disse Zanelli, é que havia vestígios de pólvora na camisa dele — encontrada escondida embaixo da cama do casal. A defesa alegou que os vestígios passaram para a camisa de Sérgio quando ele abraçou a mulher. Em sua análise, a perícia achou improvável que a pólvora tenha passado da roupa dela para a dele. Sérgio foi preso na hora, por porte ilegal de armas. Ele mantinha em seu apartamento pelo menos quatro.

Sergio Nahas já havia sido casado, mas não teve filhos. Em outubro de 2004, registrou sua união com uma suíça no 11º Cartório de Registro Civil, em Santa Cecília. O oficial que lavrou o documento o reconheceu das páginas policiais dos jornais e comunicou ao Ministério Público que ele estava se casando com uma estrangeira. Mencionou que a nova senhora Nahas tinha vindo ao Brasil apenas três vezes. Depois de confirmar, o MP pediu a prisão de Sérgio. Ele ficou na cadeia de 11 de novembro de 2004 até 7 de dezembro do mesmo ano, quando sua defesa conseguiu um habeas corpus.