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"Eu com covid e ela numa festa": amizades que não sobreviveram à pandemia

Tiziana Acquaviva deixou de seguir 25 amigos nas redes sociais para não se irritar com posts em bares e festas - aquivo pessoal
Tiziana Acquaviva deixou de seguir 25 amigos nas redes sociais para não se irritar com posts em bares e festas Imagem: aquivo pessoal

Paula Zarif

Colaboração para Universa

29/07/2021 04h00

No último ano, Tiziana Acquaviva, de 23 anos, deixou de seguir 25 pessoas nas redes sociais - uma delas muito próxima antes da pandemia. Desde o início da pandemia, ela seguiu as orientações e saiu apenas para atividades essenciais, enquanto a amiga optou por não cumprir as recomendações da OMS.

Sem uma regra oficial para impedir os encontros de grupos maiores em casas e, mais recentemente, em bares e restaurantes, coube a cada um impor seus próprios limites para efetivar o distanciamento como medida de proteção contra o coronavírus. Quando percebeu que a amiga não estava encarando o momento da mesma forma que ela, Tiziana questionou, mas o retorno não foi o esperado: "Ela dizia, em tom de deboche, que estava tudo bem, pois estava em casa, como o Ministério da Saúde solicita", comenta.

O limite para se afastar foi claro: "A gota d'água foi quando tive covid, que contraí indo ao médico oftalmologista, e na espera do pronto-socorro para ser internada, vi um post dela nas redes sociais promovendo uma festa em seu barco para mais de 30 pessoas. Fiquei no hospital durante 4 dias, 2 em semi UTI com sequelas no pulmão e fígado. Faço tratamento até hoje para sintomas pós-covid e mesmo assim ela não entende a gravidade da doença".

"Em todo tempo que estive contaminada e me recuperando, ela não se importou comigo, para saber como estava ou se precisava de algo. Seguiu dando festas e encontros com diversos amigos. Uma pessoa egoísta ao nível genocida não é alguém que desejo manter por perto".

"Fico pensando quantas pessoas esses amigos já contaminaram"

Para Luisa*, 26 anos, professora de idiomas de Campo Grande (MS), acompanhar as postagens de quem não tem respeitado o distanciamento traz tristeza: "Vejo as pessoas sendo inconsequentes e fico imaginando a quantidade de pessoas que elas contaminaram". Quando os casos diminuíram, relata que se permitiu encontrar alguns poucos amigos dentro de casa, mas voltou a se isolar no início do ano.

Ela também se afastou de quem estava saindo de casa e escolheu deixar de seguir uma amiga nas redes sociais por entender que o melhor caminho era não ter esse contato. "Não quero conversar com a pessoa e perguntar como ela está para ouvir que foi em uma festa no final de semana e enquanto eu estava em casa. Acho completamente sem noção".

Para a psicóloga Maria Luiza da Silva Oliveira é legítimo querer se afastar de pessoas que você não se identifica mais. "Porém, cabe um alerta ao isolamento emocional diante da quebra de vínculo e necessidade de uma rede de apoio, principalmente nesse momento de pandemia". Além disso, a especialista reforça que cada amizade é única e que o grau de intimidade e confiança podem possibilitar uma conversa sobre as razões de cada um.

"Amigos criaram grupo 'clandestino' de whatsApp para combinar festas"

Isadora descobriu que seus amigos criaram um grupo no Whatsapp para combinar os passeios sem ela - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Isadora descobriu que seus amigos criaram um grupo no Whatsapp para combinar os passeios sem ela
Imagem: arquivo pessoal

A conversa foi a alternativa escolhida pela fotógrafa e cineasta Isadora Tricerri, de 23 anos, de São Paulo, que recebeu como justificativa "cuidado com a saúde mental" ou a despreocupação porque essas pessoas já precisavam sair para trabalhar fora de casa. Depois de ter escolhido não sair, descobriu que seus amigos criaram um grupo no Whatsapp para combinar os passeios "clandestinos" e ela foi deixada de fora.

O discurso não é infundado, mas precisa ser usado com moderação. Maria Luiza Oliveira explica que com o aumento de informações sobre saúde mental, podem ser criados ruídos para que cada um interprete como for conveniente para si mesmo. "Em uma sociedade bastante egoísta existem pessoas muito ansiosas para proporcionar prazer e entretenimento a qualquer custo, mas sem carregar qualquer tipo de culpa por contágio ou mortes. Nesse sentido o discurso em favor de sua própria saúde mental lhes cai bem para afastar a responsabilidade".

O psicólogo Guilherme Valente avalia que a pandemia trouxe, sim, uma atenção maior a saúde mental, mas pondera: "Para isso temos psicoterapia, medicamentos, mudanças de estilo de vida e outras formas de nos cuidar que não nos exponha. Perder uma pessoa querida pode causar ainda mais sofrimento do que o distanciamento. Do que vale a saúde mental se não houver saúde alguma para ser cuidada?".

A estudante de gastronomia Maria Paula Jahnel foi feirante e fez estágio em um restaurante no último ano, então não teve a opção de trabalhar em casa. Ela também deixou de seguir nas redes quem postava como se a vida estivesse normal.

"Eu notei uma certa distorção das recomendações, o 'fica em casa' passou a ser ficar com oito ou dez amigos. Saíam para jantar com dois amigos, mas cada dia da semana em um lugar diferente e com dois amigos diferentes. Não estavam aglomerando como em uma festa, mas está longe de ser uma atitude responsável", explica.

Preparação para o tal "novo normal"

Giovanna se afastou da maioria dos amigos pois eles achavam que ela estava se protegendo demais - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Giovanna se afastou da maioria dos amigos pois eles achavam que ela estava se protegendo demais
Imagem: arquivo pessoal

A vacinação avança para os mais jovens e, a exemplo de outros países, o Brasil caminha para que esses encontros possam acontecer com menos medo e risco. As amizades, no entanto, ainda podem seguir abaladas.

Para Maria Paula, "as atitudes vão além do momento. Uma pessoa que não respeitou as restrições em nenhuma fase da pandemia não tem o menor respeito pela vida alheia. Não sei se um dia vou querer sair com gente assim, agora sabendo tudo o que eu sei. Não é uma questão de "guardar rancor", e sim de compatibilidade mesmo."

Já Luísa sabe que vai voltar a falar com uma das pessoas por ser próxima da família, mas, com quem consegue escolher, comenta que percebeu que não quer estar junto e viver no mesmo ritmo.

O momento de reavaliação das amizades foi crucial também para a estudante de administração Giovanna Atikian. Seus amigos só ficaram em casa por um mês antes de voltarem a se encontrar em grupos grandes: "Me afastei da maioria dos meus amigos, não concordava e eles achavam minha proteção boba. As opiniões começaram a ser diferentes e eu repensei quem eram as pessoas que eu estava saindo".

Ela optou por não deixar de seguir ninguém nas redes sociais, mas, como consequência, sente que está perdendo uma fase importante da vida, vendo tudo acontecer de fora, especialmente porque o início da pandemia coincidiu com suas primeiras aulas da faculdade. "Vejo que as pessoas já conheceram novas pessoas, já trocaram de grupos de amigos, começaram a namorar e terminaram e eu fiquei acompanhando pelo Instagram", relata.

Mesmo que não da forma tradicional, a psicóloga considera importante encontrar formas de ritualizar as passagens, como o início da faculdade, de maneira segura para não ter a sensação de que ela se perdeu no tempo. Outra opção é planejar uma comemoração tardia, que também será um sinal de esperança.

*nome fictício, preferiu não se identificar

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