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'É agredida e não se separa': e quando sua amiga sofre violência doméstica?

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Imagem: iStock

Ana Bardella

De Universa

15/07/2021 04h00

"Se você é amiga de alguém que está inserida em um relacionamento abusivo, não deixe essa amizade porque ela não te escuta — ou te escuta e volta [com o ex] e você se cansou de tudo. É cansativo sim, frustrante, mas pode acontecer o pior": as frases fazem parte de um longo desabafo postado nos stories do Instagram na última terça-feira (13), por uma amiga de Pamella Holanda, agredida pelo ex-marido, DJ Ivis. No texto, Regiara Farias Izidório relembra o quanto é delicado ajudar a uma mulher em situação de violência.

A psicóloga Névia Rocha confirma que fazer parte da chamada rede de apoio não é tarefa simples, principalmente porque as relações abusivas costumam ser repletas de idas e vindas. Logo, a sensação que a família e os amigos podem ter é de que seus esforços e conselhos para que a vítima saia da relação estão sendo em vão. "Mas precisamos relembrar que a palavra-chave dos relacionamentos abusivos é a manipulação. Para quem está de fora, a resposta pode ser muito óbvia: terminar. No entanto, para a vítima, o cenário se torna muito mais complexo", aponta.

"Mas por que você não termina?"

Se uma mulher próxima de você vive uma relação tóxica, a maneira mais eficiente de ajudá-la é acolhendo — e jamais julgando ou cobrando atitudes que ela não está preparada para tomar. "Cada mulher tem sem próprio tempo, que pode ser bastante demorado. O ideal é não pressionar ou ser incisiva demais, caso contrário, ela pode se sentir julgada ou envergonhada, e acabar se retraindo", alerta a psicóloga, que atualmente ministra o curso "Entendendo as relações abusivas". Ou seja, jamais coloque as suas expectativas sobre como ela deveria agir acima da amizade entre vocês.

Quem se beneficia quando uma amiga corta os laços com a outra por ela estar em uma relação abusiva é sempre o agressor, já que, afastada dos demais, ela se torna cada vez mais dependente dele. Aliás, esse processo de reconciliação, seguido de uma fase de "lua de mel" faz parte do ciclo de violência de relacionamentos abusivos.

Como, então, encontrar a medida certa do apoio? Mostrando que, independentemente do que aconteça, você está ali e não vai abandoná-la. "Aconselho sempre a ligar ou mandar uma mensagem, perguntando se ela está bem, porém, de uma forma leve. Também recomendo passar informações de uma forma sutil, através de vídeos e textos que possam gerar identificação, mas sem dizer que é algo sobre a vida dela", orienta Névia.

Caso a intimidade entre vocês seja grande a ponto de ela desabar sobre violências físicas que vem sofrendo, a psicóloga afirma que a melhor postura é sugerir uma movimentação respeitando a autonomia feminina. "Aconselho perguntar o que ela deseja fazer a respeito disso, respeitando seu espaço. Ou dizer: 'Eu gostaria de te acompanhar a uma delegacia, se você estiver preparada para isso', demonstrando apoio", conclui.

"Tenho provas de que ela apanha. Posso denunciar?"

Mesmo que não haja provas, qualquer pessoa pode registrar uma denúncia, anonimamente, através número 180. É importante fazer este registro, já que a central ajuda a mapear os casos de violência doméstica no país. Estas denúncias, no entanto, só evoluem uma vez que a vítima confirma para as autoridades a existência do crime.

Em compensação, se a agressão estiver acontecendo naquele momento e você estiver ciente disso, pode ligar diretamente para a polícia, através do número 190 e acionar socorro.

Caso tenha provas, como áudios ou fotos, de que sua amiga foi vítima de violência, é possível relatar as agressões diretamente para o Ministério Público, através de uma queixa-crime — mas Isabela Del Monde, advogada e colunista de Universa, pede cautela com este recurso. "O ideal é sempre pensar nas condições em que a vítima está naquele momento. Caso o homem receba a notícia de que está sendo investigado, ele pode se enfurecer e atentar contra a vida da mulher de surpresa", diz.

O cenário ideal, portanto, seria bolar um plano de escape: começando por convencê-la a sair da relação, permitindo que se prepare emocional e financeiramente para a separação — para então acompanhá-la até a delegacia a fim de registrar um boletim de ocorrência e dar início às investigações.

"O caminho mais seguro é estar ao lado daquela mulher pelo tempo que for necessário. Jamais dizendo que ela é burra, que não aprende, que é 'trouxa', que o cara não muda. Isso só reforça sua baixa autoestima. Até hoje, o que mais vi funcionar é ter muita paciência com as idas e vindas e com os discursos de que hora ele é um príncipe e hora ele é um monstro", diz.

Vale relembrar à amiga o quanto ela é maravilhosa, inteligente, competente — de tudo o que conquistou antes de embarcar na relação e fazê-la reparar no quanto entristeceu de lá para cá. Ainda que demore, ajudar a resgatar a autoestima feminina ainda é uma das armas mais eficientes no combate a violência contra a mulher.