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Fiscal de barriga alheia: por que elas odeiam ser confundidas com grávidas

"Quando eu não estava grávida faziam suposições sobre o meu corpo. Quando engravidei, ninguém acreditava", conta Gabi Menezes - Reprodução/Instagram
"Quando eu não estava grávida faziam suposições sobre o meu corpo. Quando engravidei, ninguém acreditava", conta Gabi Menezes Imagem: Reprodução/Instagram

Júlia Flores

De Universa

02/07/2021 04h00

A cena é comum e quem já passou por ela sabe o constrangimento: em uma loja, no transporte público ou em uma fila alguém pergunta para quando é o bebê ou se você já sabe o sexo. O problema é que você não está grávida. E, durante aqueles segundos de climão — tanto para quem fez a pergunta ou para quem foi questionada — geralmente a mulher que escutou a indagação se sente mal. "Estão dizendo que estou gorda?", pensa.

Por que estamos tão presas a um padrão de magreza que uma pergunta simples pode virar uma questão para a autoestima? E mais: quem disse que as pessoas podem ficar especulando sobre o corpo alheio?

"No momento em que você questiona alguém em público se ela está grávida, só porque você acha que ela está um acima do peso, já coloca para a pessoa que ser gorda não é um ideal, como se o único jeito dela ter a barriga volumosa é estando grávida", comenta a psicóloga e influenciadora digital Gabi Menezes.

Gabi é uma mulher gorda e também produz conteúdo "body positive" nas redes sociais. Para ela, o peso não é um problema, mas sim a tentativa alheia de fiscalizar o seu corpo, com falas sobre sua barriga e estética. "Quando eu não estava grávida faziam suposições sobre o meu corpo. Quando engravidei, ninguém acreditava que eu estava gestando uma vida", conta.

"O padre me chamou no altar para dizer que 'era uma benção eu estar grávida'. Quase morri de vergonha", conta Letícia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"O padre me chamou no altar para dizer que 'era uma benção eu estar grávida'. Quase morri de vergonha", conta Letícia
Imagem: Arquivo pessoal

Além dela, outras mulheres ouvidas por Universa, sentiram-se intimidadas e já passaram por episódios de constrangimento público após terem sido confundida com gestantes.

Caso da analista de pricing Letícia Rodrigues, de 28 anos, também passou por esse constrangimento. E o pior: na frente de uma igreja lotada.

"O padre quis me abençoar pela gravidez. Mas eu não estava grávida"

Letícia explica melhor: "Era a missa de homenagem dos 25 anos de casados dos meus pais. O padre pediu para que a família subisse ao altar para receber uma benção. No momento em que estava indo encontrar com eles, o padre me olhou e disse: 'Que alegria! A família está crescendo'. Ele achou que eu estava grávida, mas eu não estava. Não sabia aonde enfiar minha cara".

Apesar da situação relatada por Letícia ter um fundo cômico, esse tipo de fala pode produzir efeitos negativos sobre a mulher. Ela conta que, depois do episódio, passou a controlar o peso. "Me senti super sem graça com a fala dele, mas não disse nada, nem desmenti a informação. Fiquei em choque e parei de usar o vestido que estava usando naquele dia. Eu tinha por volta de 19 anos e era bem magra, meço 1,66 m de altura. Fiquei chateada na época, falei com minha mãe, que tentou me consolar, mas ainda assim fiquei um tempo pensando que estava gorda. Depois eu vi que era besteira", desabafa.

Para Gabi Menezes, a atitude é gordofóbica, além de indelicada. "Isso diz muito sobre como as pessoas gostam de comentar sobre o corpo alheio", diz

Fazer comentários sobre a aparência física dos outros é errado, porque você não sabe pelo que a pessoa está passando para estar com a barriga maior. Às vezes a mulher nem é tão gorda, mas ela tem um nódulo na barriga, algo do tipo. Não é legal

Ao contrário de Letícia, que "superou" os comentários que recebeu, a analista de relacionamento com clientes Juliana Pereira (27) sente os efeitos, até hoje, de ter sido questionada por um estranho se estava grávida ou não, há 3 anos.

"Parei de usar vestido por conta desse tipo de comentário"

"Lembro que depois do comentário eu passei a buscar formas de esconder o meu corpo para que outras pessoas não falassem mais sobre ele", conta Juliana - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"Lembro que depois do comentário eu passei a buscar formas de esconder o meu corpo para que outras pessoas não falassem mais sobre ele", conta Juliana
Imagem: Arquivo pessoal

Juliana relata que estava no transporte público quando um homem insistiu para que ela ocupasse o assento preferencial. "Estava voltando de uma exposição no Tatuapé (zona leste de São Paulo), de metrô, e fiquei de pé no vagão porque tinham poucos assentos disponíveis. Um homem levantou e me ofereceu o lugar, eu disse que estava tranquila e confortável, mas ele continuou insistindo. Teve uma hora que olhei para ele séria e disse: 'Estou bem em pé, vou em pé e não quero sentar'", lembra.

O episódio aconteceu em 2019, mas mesmo em 2021 Juliana ainda enfrenta dificuldades de vestir peças largas, como vestido, que causam a impressão de que a pessoa está mais gorda. "Depois desse comentário fiquei muito tempo sem usar vestido, até hoje não consigo. Por mostrar e modelar meu corpo, ainda me sinto insegura de usar a peça".

Ela conta que o ato do desconhecido, que é considerado por muitos como gentileza, causou sérios danos na sua autoestima.

No dia seguinte ao comentário, passei a fiscalizar o que comia, sentia culpa, vergonha e até um pouco de revolta. Pensava: 'Se eu não tivesse engordado, nunca teria ouvido isso'. Não cheguei a desenvolver transtorno alimentar, mas a fala foi gatilho para mim, e passei a fazer dietas desde então

Só com o tempo Juliana superou o comentário. Após ter a autoestima abalada, ela procurou outras formas de se relacionar com o corpo, sem se importar com os comentários e críticas alheias. Ainda assim, mesmo após três anos do episódio, só consegue usar vestido em casa, sem desconhecidos por perto. "Vivemos em uma sociedade que julga muito o corpo da mulher. Um comentário seu pode servir de gatilho para outra pessoa. Tem muito fiscal do corpo e da saúde alheia. Às vezes nos importamos tanto com isso que ficamos doentes", afirma.

Por que a magreza é elogiada?

Para a psicóloga Gabi Menezes, o melhor jeito de evitar esse tipo de reação é não abordar mulheres fazendo comentários sobre os seus corpos. "Se você está em um transporte público e acha que tem uma gestante de pé, espere que ela venha até você para te pedir o lugar. Ela sabe dos direitos dela, vai falar com você. Não se preocupe".

Em 2017, Gabi se tornou mãe. Os comentários não pararam nem com a chegada do filho Nicholas (4): "Hoje em dia, quando estou com ele no mercado ou em qualquer espaço físico público, e às vezes estou com um vestido solto, uma roupa confortável, já falam: 'Vem o segundo aí, né?!'".

As pessoas normalizaram elogiar o corpo alheio quando ele está magro, mesmo que a pessoa esteja doente. Ou criticar o peso dos outros porque a pessoa engordou — e você nem sabe se ela está doente ou não. Tomar conta do corpo do outro se tornou algo comum

Caso você já tenha sido a pessoa que perguntou a uma desconhecida se ela estava grávida, fica a reflexão. Se você foi a mulher interrogada por um desconhecido, e se chateou com o comentário, Gabi tem uma dica: "Hoje em dia, se alguém pergunta se estou grávida, eu faço a pessoa ficar constrangida, respondo que não estou e que é culpa do lanche de mais cedo. Não me culpo mais por isso. A primeira coisa que todas as mulheres precisam entender é que falas sobre o corpo do outro dizem mais sobre quem está falando do que sobre elas mesmas. Não é a pessoa que recebeu o comentário que está errada, mas sim quem o fez".

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