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Ana Paula Xongani

Body Positive: discurso também é ação e estamos colhendo os resultados

Dionizia Luz, um dos meus exemplos de liberdade nas redes sociais - Reprodução/Instagram/@dionizialuz
Dionizia Luz, um dos meus exemplos de liberdade nas redes sociais Imagem: Reprodução/Instagram/@dionizialuz
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

14/01/2021 04h00Atualizada em 15/01/2021 14h03

Com toda a certeza do mundo, o final de 2020 e início de 2021, esse pedacinho de tempo banhado de festividades e verão, está atípico para muita gente. Não tivemos a oportunidade de aproveitar despreocupadas a companhia de familiares, amigos e colegas que amamos nos encontros de amigo oculto, no Natal e nas celebrações para receber o novo ano - além das sempre merecidas férias de janeiro.

Especialmente o verão, esta época do ano em que tanta gente ama curtir a força e a beleza do sol, acaba sendo um período de reflexão. Impossível não observá-lo a partir da lente de muito o que foi 2020, especialmente o meu 2020, ano de tanto pensar o autocuidado e o amor-próprio. De abrir olhos, braços e pensamento pra isso. Para mim mesma.

E, de onde vejo o verão neste exato momento, sentada numa praia vazia vazia, com duas grandes e maravilhosas amigas, sinto meu peito expandir em otimismo. É um sentimento bonito que quero compartilhar com vocês.

Pela primeira vez, depois de um bom tempo sem ir à praia, observei nitidamente o efeito prático de todas as construções narrativas que temos acompanhado sobre body positive, sobre o corpo livre. Efeitos muito práticos para quem está na praia e quem está fazendo de um cantinho da casa o seu mar.

Certa vez, Silvio de Almeida, advogado, filósofo, professor, escritor e presidente do Instituto Luiz Gama, disse em entrevista no Roda Viva que discurso também é ação. Isso me chamou muita atenção porque a gente tem uma tendência muito forte em hierarquizar discurso e prática, colocando o discurso em um lugar menor. Mas, ele foi cirúrgico em nos lembrar que discurso é uma ação e a prática é outra ação. E que, na maioria das vezes, a gente não consegue mensurar a dimensão do impacto do discurso. A gente não consegue dizer, efetivamente, o quanto "isso" mudou "aquilo".

Tudo o que temos visto nas redes sociais - e também fora dela - sobre body positive está sim surtindo efeito. Vemos sim com muito mais facilidade pessoas com seus diferentes corpos simplesmente vivendo na praia, na piscina ou vestindo seus bons biquínis para tomar banho de mangueira em casa. E tudo isso tem a ver com discurso que muitas pessoas, principalmente mulheres (sempre elas!) estão construindo em torno deste tema.

E, além de todos os aspectos subjetivos que isso implica, há também os impactos na moda, tema desta coluna. Além de corpos diversos e belíssimos, o que a gente anda vendo nesse verão são vários modelos de biquínis e maiôs.

Vemos também uma infinidade de criações e soluções autorais para exaltar a beleza que aprendemos e descobrimos em nossos corpos volumosos e não padrão. São amarrações, é a parte de baixo como a parte de cima, é um jeito diferente de amarrar a alça, peças de conjuntos diferentes combinadas, muita coisa.

Esse lance da liberdade é tão rico que faz a gente explorar o "se vestir" na praia, na piscina, no quintal, na sala. Tem muita coisa nova e, sem dúvida, tudo isso passa pela liberdade da construção do discurso. Tudo passa também pelo exato momento em que tantas produtoras de conteúdo decidiram, através de seus discursos, de seus corpos, propor uma sociedade em que as pessoas são mais livres para viver suas multiplicidades.

E isso é bom e importante para quem tem sofrido estas pressões sociais, mas não apenas. É bom também pra todo mundo. Como é bom ter uma casa mais livre, uma praia mais livre, um grupo de amigos mais livres, um Instagram mais livre, uma representação mais livre do que é belo! Como é bom sentir essa atmosfera de mudança, de ver mais corpos se divertindo, curtindo sem esconder seus corpos em tecidos que não os valorizam. Como é bom ver tantas pessoas tirando fotos sorrindo, se sentindo bem com aqueles momentos, com suas existências.

Eu me emociono muito quando vejo o caminho que o discurso percorre até a prática. Em ver como um não existe sem o outro e que ambos têm seu espaço fundamental. Ambos criando espaço para não apenas gerar, mas para garantir a plenitude da pluralidade de expressão das palavras e dos corpos.

Discurso e prática gerando liberdade. Pra você, pra mim e pra moda que veste nossos passeios pelo mundo.

E você? O quanto já foi impactada pelos discursos de corpos livres?