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"Tenho 32 anos, mas sou negra há apenas cinco"

Dayse Rodrigues, CEO da Ubuntu Consultoria, descobriu-se negra há 5 anos - Arquivo pessoal
Dayse Rodrigues, CEO da Ubuntu Consultoria, descobriu-se negra há 5 anos Imagem: Arquivo pessoal

Dayse Rodrigues em depoimento a Nathália Geraldo

De Universa

14/01/2021 04h00Atualizada em 14/01/2021 10h54

"Tenho 32 anos e sou mãe de três crianças negras. O pai deles é do continente africano, de Guiné-Bissau, eu sou de Recife. De cinco anos pra cá, comecei a fazer uma construção de identidade atrelada à minha negritude. Eu, que faço parte dos ditos pardos, me reconheço como negra de pele mais clara, como fruto de uma miscigenação que não é positiva.

Ela aconteceu primeiramente por conta do estupro de mulheres negras e indígenas; depois, houve uma política de estado de branqueamento da população brasileira, em que a ideia era torná-la completamente branca. Essa seria a solução para o subdesenvolvimento do país. Sou o resultado desse processo que não deu certo, que passa pela minha árvore genealógica, de avós negros.

Comecei a falar da questão racial com a maternidade. Antes, eu era cor de jambo, moreninha, mas não me reconhecia como mulher negra.

Quando meu filho mais velho tinha 7 anos, ele começou a sofrer discriminação racial na escola. Falavam: 'Seu cabelo é duro, seu nariz é feio.' A primeira ofensa que a criança negra sofre é sobre a estética. Pierre trouxe essa demanda para casa e eu não sabia explicar, porque nós, brasileiros, não somos preparados para falar, na escola, com a família, sobre isso. E eu fazia parte dessa ignorância. Foi aí que comecei a me revisitar.

Dayse Rodrigues - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A empresária ao lado dos filhos Pierre, Thierry e Sophie
Imagem: Arquivo pessoal

Quando a gente reivindica esse lugar de negro de pele clara não está reivindicando a dor que os negros de pele escura sofrem. É mais fácil que uma ofensa como 'macaco' seja direcionada a um negro de pele retinta do que a mim, que sou negra de pele clara.

A gente escuta que tem privilégios. Mas não temos; temos vantagens sociais, porque privilégios só a branquitude detém. Sofremos discriminação racial de forma muito menos violenta, em algumas situações, mas, nas estatísticas, pardos e pretos estão nos números de subemprego e de violência policial.

Eu enxerguei a negritude dos meus filhos em mim. Eles foram meu gatilho. E é difícil não começar esse processo pela estética, porque é ela que faz com que o negro de pele clara tente seguir o padrão social imposto, e tente se passar por branco.

Eu fazia progressiva no cabelo desde os 13 anos. Antes, fazia relaxamento. Era um produto que deixava cheiro forte, a ponto de entrar no ônibus e passar vergonha, porque ninguém queria sentar do meu lado. Sem contar que feria meu couro cabeludo. Como o cabelo não alisava totalmente, eu tinha que fazer escova. E se eu saísse na chuva, ele cacheava...

A gente alisa por uma questão de segurança, para se sentir aceita, mas tem um efeito na saúde mental violento. Você passa a vida inteira tentando negar a identidade.

Com o nascimento da minha filha, Sophie, hoje com três anos, eu ainda tive que entender que não sou a referência estética dela; e isso foi muito forte. Ela pega meu cabelo e ele cai, por ser cacheado. O dela, não. Então, eu falo que é uma coroa de rainha, e busco mais referências para ela.

Além disso, tem a questão do batom. Eu não usava de cor escura na boca, vermelho, porque deixava meu lábio em evidência, maior. E eu sempre amei vermelho. Um dia eu pensei: 'Quer saber?'. E saí com batom vermelho. Hoje, sou reconhecida por ele.

Quando eu trabalhava na secretaria de uma faculdade, criei o curso Ubuntu, por um edital, para conversar com os alunos sobre a questão racial, apresentar documentários e fazer rodas de conversa. Em 2018, eu submeti esse projeto a uma incubadora de projetos sociais. E no final de 2019, abri a Ubuntu Consultoria, para trabalhar dentro das empresas essa questão. Além da consultoria, damos cursos de reeducação racial.

Para isso, eu tenho uma construção de conhecimento. Não posso falar do racismo como uma pessoa negra de pele escura sofre, mas falo do meu processo. Além disso, sou mãe de crianças negras retintas, eu ocupo esse espaço e ninguém o tira de mim.

Quem está passando por se reconhecer negro precisa entender primeiro que ser negro não está atrelado à dor - não quer dizer que precise passar por discriminação por ser negro. E as pessoas não têm necessariamente o mesmo percurso.

Depois, recomendo também procurar ler autores negros, Djamila Ribeiro, Abdias Nascimento, Adilson Moreira, Silvio Almeida, Joyce Berth, eles têm leituras acessíveis, que falam sobre isso.

É preciso reconhecer como foi feita a miscigenação no Brasil e revisitar a árvore genealógica. Claro que no Brasil você não é negro só porque tem um avô ou bisavô negro, mas é importante que reconheça a ancestralidade. Isso ajuda a construir a sua identidade. E entender como você é lido hoje na sociedade.

Hoje eu me autodeclaro uma mulher negra, mas quero dizer que não entraria em concurso por cota racial, por exemplo. Porque acho que ela é feita para quem sofre discriminação de forma mais violenta. E eu tive um acesso econômico e social diferente, tive a oportunidade que a maioria não tem.

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