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"Após plástica, fiquei com um seio maior e convivo com um corpo deformado"

 Mônica Malta teve complicações após colocar prótese de silicone no seio - Arquivo pessoal
Mônica Malta teve complicações após colocar prótese de silicone no seio Imagem: Arquivo pessoal

Mônica Malta em depoimento à Luiza Souto

De Universa

27/01/2021 04h00

Aos 30 anos já era mãe de três crianças e não gostava do meu corpo. Meus seios, que já eram pequenos, ficaram murchos e muito feios, e a barriga criou uma diástase, um afastamento dos músculos, e resolvi juntar dinheiro para colocar silicone e fazer uma abdominoplastia. Hoje, depois de cinco cirurgias, tenho o corpo deformado.

Além dos prejuízos físicos, aos 37 anos tenho crise de ansiedade e uma das consequências é a queda de cabelo. Não consigo me olhar no espelho e me aceitar. Oitenta por cento das minhas roupas são pretas e folgadas, para parecer mais magra. As fotos que publico nas redes são manipuladas.

O descontentamento é tanto que no fim de 2020, sem pensar muito, cortei meu cabelo todo. Ele era comprido, mas como nunca estou satisfeita comigo, fui cortando, querendo causar impacto, quando na verdade não era um problema visual, mas interno.

Nunca tive um corpo 'padrão'. Era a magrela da família. Treinava para concurso da polícia, onde moro, em São Mateus (ES), e sempre estava aparentemente bem, mas sentia vergonha de me mostrar para meu marido. Então senti a necessidade de fazer cirurgia plástica.

'Sinto a minha pele necrosando'

Com sacrifício, juntamos o total de R$ 14 mil para colocar 375 ml de prótese de silicone nos seios, e fazer a abdominoplastia. Um mês depois do procedimento, apareceu a primeira necrose na pele do seio esquerdo. Ficou uma ferida aberta que não fechava. Sentia a prótese com o dedo. Então precisei fazer uma microcirurgia para retirar essa pele necrosada, e esperar a ferida fechar.

Um mês após esse segundo procedimento, a pele necrosou novamente e repeti a cirurgia. Já o abdômen ficou com aspecto de inchado, um resultado constrangedor.

A pele seguiu necrosando e começou a sair um líquido, chamado seroma. Passei a ter febre, mas o médico apenas me passava remédios por aplicativo de mensagem.

Mônica Malta antes da plástica: insatisfação e vergonha do corpo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Mônica Malta antes da plástica: insatisfação e vergonha do corpo
Imagem: Arquivo pessoal

'Ouvia as pessoas me chamarem de monoteta'

Na época, uma esteticista com a qual me consultei viu a ferida e me alertou sobre o risco de ser uma bactéria, que, dependendo da gravidade da infecção, poderia levar à morte. Quando você recebe uma notícia como essa, não pensa mais em estética. Pensa nos seus filhos e só quer resolver.

Voltei ao cirurgião plástico e ele aplicou uma injeção na ferida, que depois me falaram ser soro com formol, para estancar o líquido. Assim que ele acabou, não conseguia falar nem mexer o lado esquerdo e perdi o ar. Achei que estivesse morrendo e liguei para a minha mãe me socorrer.

Logo após esse episódio, e eu ainda com a ferida aberta, fiz a quarta cirurgia para retirar a prótese de um dos seios. Quatro meses depois, coloquei uma nova. Somente após esse quinto procedimento a ferida fechou.

Ao todo, foram nove meses de cirurgias em que dependia do meu marido e filhos, hoje com 16, 13 e 11 anos, para tomar banho, me limpar. Sequer podia abraçá-los. Perdi emprego num escritório de advocacia, adiei a formatura da faculdade e sofri muito preconceito. Ouvia as pessoas me chamarem de 'monoteta'. Levava na brincadeira na frente delas, mas depois chorava em casa.

Quis me separar por vergonha de mim, e cheguei a falar para meu marido arrumar outra pessoa, porque minha autoestima era zero. Eu fedia a remédio. Os dentes ficaram fracos, eu tinha um hálito horrível, o estômago queimava.

Cheguei a perguntar para o cirurgião, ao lado do meu marido: 'Você comeria uma mulher assim?' Nem é meu vocabulário, mas estava revoltada. Hoje meu marido segue comigo, me dando apoio.

'Para economizar R$ 2.000, passei por isso tudo'

Pensei em procurar outro cirurgião, mas não tinha dinheiro. Hoje sou contra fazer tudo por beleza. E me sinto mal quando acompanho casos como o dessa influenciadora que morreu após uma lipo.

As mulheres estão muito escravas de procedimentos. Elas precisam se lembrar de quem elas são, que são mais que um pedaço de carne. E também que existe academia, dieta balanceada, e que custa bem menos que uma plástica. Cuidar da alimentação sai muito mais em conta.

Eu entendo quem queira fazer. Eu não queria um peito murcho, e é algo que não conserta com academia. O marido fala que está bom, mas é porque ama. Se antes eu colocava sutiã com enchimento e ficava bonitinha, hoje nada me ajuda. Nem uso sutiã, só top.

Reconheço que tem coisas que dá para melhorar com cirurgia, mas as pessoas estão ultrapassando limites, perdendo sua identidade com harmonização e outros procedimentos.

Além disso tudo, ainda caem em mãos de pessoas que prometem cobrir qualquer valor. Foi o meu caso. Quer fazer? Procura saber se o médico já respondeu algum tipo de processo, procure no mínimo dez pessoas para saber o resultado. Por causa de R$ 2.000, R$ 3.000 a menos passei por tudo isso.

Já fui a três cirurgiões que prometeram consertar o que esse médico fez, mas não tenho dinheiro, então estou esperando que a justiça seja feita. Hoje processo esse profissional e aguardo a juíza do caso marcar a perícia. Não sossego enquanto não fizer justiça.

No mais, não sou uma mulher motivada, mas entendi que há pessoas precisando de mim. E quando me olho no espelho, penso: 'apesar de...', estou feliz."

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