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Nina Lemos

Lilianes morrerão até que a insatisfação feminina pare de ser lucrativa

A influenciadora Liliane Amorim, que perdeu a vida após complicações em um lipoaspiração. - Reprodução/Instagram
A influenciadora Liliane Amorim, que perdeu a vida após complicações em um lipoaspiração. Imagem: Reprodução/Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

25/01/2021 04h00

"Influenciadora mostra corpo sarado depois de lipo". Quantas vezes você já leu isso por aí? A lipo, um apelido para lipoaspiração, muitas vezes é tratada como uma coisa banal. No YouTube e no Instagram, famosas e celebs do Instagram mostram detalhes do procedimento como se falassem de uma ida ao dermatologista ou uma passada em uma loja para comprar lingerie.

Só que lipoaspiração é uma cirurgia feita com anestesia geral, que envolve riscos, internação. Infelizmente, muitas pessoas só são lembradas disso quando acontece uma tragédia. A do momento é terrível: a digital influencer Liliane Amorim, uma mulher linda de apenas 26 anos, morreu no domingo, 24, em decorrência de complicações de uma lipo. Ela estava internada desde 15 de janeiro, quando realizou a cirurgia, no Ceará, onde morava.

Não é exagero dizer que Liliane é mais uma vítima da indústria da beleza e da pressão estética.

A morte de Liliane não deixa de ser um crime cometido por uma cultura que diz para as mulheres o tempo todo que elas não estão bonitas o suficiente, ou que precisam emagrecer mesmo vestindo 38. E, claro, a pressão aumenta para quem, como no caso de Liliane, trabalha com imagem.

Em épocas de Instagram, apesar dos perfis de mulheres que pregam uma beleza mais diversa, a situação piorou. Imagina ser adolescente ou uma mulher de 20 e poucos anos e passar o dia se comparando com todas as outras que exibem um corpo perfeito na internet?

Detalhe: esse corpo muitas vezes nem é real. Em tempos de filtro, cinturas são afinadas para ficar com as da Barbie. Existem estudos que mostram que cada vez mais adolescentes fazem plásticas para ficarem parecidos com a imagem que tem nas redes, depois do uso de filtros ou aplicativos. A inveja nem é mais do outro, mas da gente mesma em versão Instagram.

Jovens como Liliane são vítimas dessa cultura da imagem e de uma indústria que lucra, e muito, com a nossa insatisfação. O Brasil é o campeão mundial de cirurgias plásticas. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, em 2018 foram realizadas mais de 1,5 milhão de cirurgias.

A crise e as mudanças causadas pelo coronavírus parecem não ter diminuído essa outra epidemia. Levantamentos mostram que os números de algumas plásticas até aumentaram, já que ficamos mais tempo online e mais expostos a todas essas imagens perfeitas.

A busca por "lipo lad", uma modalidade de lipoaspiração que virou moda, cresceu 350% no Google entre agosto e novembro de 2020. Nas redes, influenciadores chegaram a sortear cirurgias. Será que a morte de Liliane vai servir de alerta geral para esse absurdo? Ou outras garotas vão precisar morrer?

Quantas Lilianes vão ter que morrer para que esse cenário triste mude?