PUBLICIDADE

Topo

Relacionamentos

A convidada: como elas se tornaram namoradas de um casal

Iris (ao centro) começou a namorar Igor e Isane quando eles já estavam há 10 anos juntos. - Arquivo pessoal
Iris (ao centro) começou a namorar Igor e Isane quando eles já estavam há 10 anos juntos. Imagem: Arquivo pessoal

Fernanda Colavitti

Colaboração para Universa

14/01/2021 04h00

Contrariando a velha máxima, três nem sempre é demais em um relacionamento. Mesmo que para o "terceiro elemento" de um trisal inicialmente possa ser um pouco mais difícil se sentir parte da relação e surjam algumas inseguranças, é possível, sim, ter uma relação igualitária entre três pessoas. "A primeira questão para orientar quem está entrando nesse relacionamento é ter sempre muita autoconfiança e autoestima. E, a partir daí, fazer um acordo claro sobre as regras, o que esperar, o que não esperar, de preferência os três juntos", aconselha a sexóloga especializada em relacionamentos Lelah Monteiro.

Foi assim que Íris e Sarah conseguiram superar as dificuldades e se consolidaram como parte integrante dos casais com os quais começaram a se relacionar. Confira os depoimentos:

Íris de Freitas Ribeiro, 28, psicóloga de Salvador (BA), namora Isane Costa de Farias, 32, arquiteta e Igor Silva Almeida, 31, eletrotécnico - arquivo pessoal - arquivo pessoal
"Com muito diálogo e parceria percebi que eles me queriam dentro do relacionamento", diz Íris (no centro)
Imagem: arquivo pessoal

"Isane e Igor me convidaram para passar a quarentena com eles"

"Quando comecei a me relacionar com a Isane e o Igor, no final de 2019, eles já estavam juntos há dez anos. Mas em nenhum momento eu me senti como "a namorada do casal". Nunca houve essa diferença de papéis na nossa relação, a gente sempre se considerou um trisal. Nosso envolvimento, nosso compromisso e nossos planos para o futuro sempre foram construídos a três.

Não tive muita dificuldade em entrar em um relacionamento já estabelecido, porque quando comecei a me envolver com eles eu também tinha um namorado. E todos nós estávamos em relacionamentos abertos. Conheci primeiro a Isane, em uma despedida de solteira de uma amiga em comum, e começamos a ficar. Depois o meu companheiro conheceu a Isa, eu conheci o Igor, e nos envolvemos os quatro.

Após alguns meses eu terminei o meu relacionamento, e ficamos só nós: Isa, Igor e eu. Foi só então que comecei a sentir um pouco de insegurança, de achar que eu não conseguiria fazer parte de um relacionamento consolidado. Mas isso aconteceu por um bloqueio meu, por causa das minhas crenças.

Eles nunca me excluíram, pelo contrário, sempre deixavam claro que estávamos construindo um futuro juntos, os três. Tanto, que partiu deles a ideia de oficializar nosso relacionamento.

Eles já moravam juntos há três anos, e durante a pandemia, me convidaram para passar a quarentena com eles. Não houve um pedido de namoro formal, mas desde junho de 2020 nos tornamos oficialmente um trisal perante a sociedade. E estamos nos organizando para continuar morando juntos depois que acabar a pandemia.

Com muito diálogo e parceria fui percebendo que eles também me queriam dentro desse lugar mais profundo. Essa é a principal vantagem de entrar em um relacionamento estabelecido: já existe um espaço de diálogo, uma maturidade.

E essa construção é o principal desafio de um relacionamento a três na minha opinião, pois precisamos conciliar os desejos de três pessoas, que pensam diferente, com ideais diferentes. E nós prezamos muito nossas individualidades. Nosso relacionamento é aberto. É tudo muito conversado, mas não temos esse modelo de fazer tudo juntos.

Não tivemos muito problema de aceitação. Todos os nossos amigos nos apoiaram e incentivaram. Para alguns poucos familiares, principalmente os de outras gerações, foi mais desafiador por conta de preconceitos sociais e religiosos, mas a maior parte das pessoas da nossa convivência nos acolhem e entendem que vivemos com muito amor, carinho e respeito, sem machucar ninguém. E é isso que importa."
Íris de Freitas Ribeiro, 28, psicóloga de Salvador (BA), namora Isane Costa de Farias, 32, arquiteta e Igor Silva Almeida, 31, eletrotécnico

o trisal Sarah, da Nathalia e do Diego - acervo pessoal - acervo pessoal
Diego e Nathalia (no centro) namoravam há 6 anos quando ela conheceu Sarah em app de relacionamento
Imagem: acervo pessoal

"No começo achei que eu era só uma diversão para eles"

"Começar um relacionamento a dois é difícil, mas pelo menos você e a outra pessoa estão no mesmo patamar. Agora, quando você entra em relacionamento com um casal já estabelecido, que está junto há seis anos, pensando em casar e construir uma família, como aconteceu comigo, você está em um patamar totalmente diferente. Eu não me sentia parte daquela relação no início, achava que eu era apenas uma diversão para a Natália e o Diego.

Demorei um pouco para topar sair com os dois. Conheci primeiro a Natália, em um aplicativo de namoro, em outubro de 2019. Ela me contou que namorava um cara, mas que também gostava de meninas, e os dois queriam ter um relacionamento poliamoroso. Fiquei meio insegura com aquilo e parei de responder as mensagens dela por um tempo.

Até que um dia o Diego me chamou no whatsApp, e nossa conversa fluiu um pouco mais. No dia seguinte, conversei de novo com a Natália, e combinamos de nos encontrar, os três. Marcamos em uma tabacaria. Ficamos conversando e flertando, mas não rolou nada lá. Dei carona para eles na volta (a Natália sentou no banco da frente, e o Diego no banco de trás), e na hora da despedida, a Natália me beijou, e quando terminou, o Diego me beijou também. Eu estava tão nervosa, que só beijei eles de volta e me despedi com um tchau.

Mas desse em dia em diante, nunca mais paramos de nos falar e de querer nos encontrar. Isso me assustou um pouco, porque, na minha cabeça, eu era só uma diversão para eles, e eu estava começando a me envolver pra valer. Mas a gente não conversava sobre isso. Eu não dizia o que estava sentindo, eles também não, e seguíamos saindo, mesmo eu estando muito incomodada com a situação. Até que um dia eu explodi.

A gota d`água foi no dia em que o Diego me contou que tinha comprado uma aliança e ia pedir a Natália em casamento. Naquela hora eu pensei: 'o que eu estou fazendo aqui?', 'o que eu sou para eles, um passatempo, uma diversão?' Tive a sensação de que sairia perdendo nessa história, porque já estava me envolvendo e não sabia se eles também tinham o mesmo sentimento. Mas não falei nada.

Nessa noite fomos para um barzinho, e eu fiquei o tempo inteiro jogando indiretas sobre nossa relação, e eles davam risada e levavam na brincadeira.

Por um acaso, um amigo que era a fim de mim me mandou mensagem dizendo que tinha me visto no bar e ia lá me cumprimentar. Avisei a Natália e o Diego, e na mesma hora, os dois fecharam a cara, com ciúmes. Meu amigo não sabia que eu estava me relacionando com eles, então começou a dar em cima de mim, o que fez com que a Nath e o Di começassem a "marcar território". Então, eu aproveitei a situação para, finalmente, dizer como eu estava me sentindo e dar o ultimato para definirmos a nossa situação.

o trisal Sarah, da Nathalia e do Diego - acervo pessoal - acervo pessoal
Sarah, Nathalia e Diego moram juntos há 7 meses e recentemente ficaram noivos
Imagem: acervo pessoal

E foi assim que começamos a namorar. A sensação foi: 'Uau, rotulamos! E agora?'. Foi uma mistura de euforia, medo, ansiedade, e apreensão por não saber o que estava nos esperando. Até que uns três meses depois que assumimos o namoro, eles voltaram a tocar no assunto do casamento deles. Essa ideia sempre foi bem complicada para mim. Eu sempre me coloquei na situação de não querer impedir e muito menos pedir que eles não fizessem por minha causa. Achava que se eles se importassem comigo, a decisão deveria sair inteiramente dos dois.

Só que isso fez ir sentindo que me doava demais para algo que não estava recebendo em troca, que eles iam se casar e eu faria menos parte ainda do relacionamento deles ou até mesmo nenhuma parte nisso.

Tive de fazer terapia para conseguir colocar minha cabeça no lugar. E decidi que o meu amor-próprio deveria vir em primeiro lugar. Avisei que eu sairia do relacionamento quando eles se casassem. Foi uma fase difícil, com muitas brigas, mas que acabou resolvendo de vez nossa situação. Assumimos nossa relação publicamente, para as famílias e amigos. Não foi fácil, houve rompimentos com pessoas que não aceitaram, mas resolvemos a questão principal.

Estamos morando juntos há sete meses, e recentemente ficamos noivos, os três. Usamos aliança dourada na mão direita. Pretendemos fazer uma festa para oficializar nossa união, e depois disso seremos casados." Sarah Salgado Gomes, 22, assistente de qualidade e fotografa, de São Paulo, namora Natália Assunção da Cunha, 22 anos, fotógrafa, e Diego Delbianco, 25 anos, desenvolvedor de web

Relacionamentos