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Minha história

"Estou casada há 10 anos com três homens e criei bolha de respeito pra mim"

Lirous Ávila: a assistente social e DJ que vive num quadrisal - Reprodução/Facebook
Lirous Ávila: a assistente social e DJ que vive num quadrisal Imagem: Reprodução/Facebook

Luiza Souto

De Universa

19/12/2020 04h00

Estou casada há dez anos com três homens. Minha família são eles, meus pais, os pais de um deles, e a irmã. O resto é parente. Então não me importo com o que digam. Do meu pedestal ninguém me tira.

Tenho 38 anos e sou formada em serviço social pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e atuo como DJ. Sempre me identifiquei com algo que não era masculino. E sempre acho que o termo mulher é muito forte pra mim. Prefiro minha identificação enquanto travesti, porque me dá alguma liberdade, me sinto mais à vontade do que ficar desempenhando papel de gênero de mulher. Não sou só mulher, mas mulher negra, também travesti.

Vivi como gay por muito tempo, mas essa palavra não me completava. Assumir uma identidade de gênero é um processo doloroso, porque tem outros questionamentos, como a roupa que você vai usar, como você vai se relacionar, quem vai te dar emprego.

Transicionei aos 18 anos, quando comecei a ver o mundo de outra forma. Mas as pessoas me viam como mulher, mesmo usando roupa dita masculina. Tenho uma passabilidade grande e as pessoas não me reconhecem como trans na rua. Às vezes, até aviso. Tanto que tentaram me estuprar para eu 'aprender a ser mulher de verdade'. Os caras acharam que eu era sapatão. Isso me deu muito medo, porque se descobrissem que o objeto de desejo deles não era uma mulher biológica, eles me matariam ali. Meu pai viu a cena e me protegeu.

'Levei a bandeira trans para a formatura'

Em 2013, montei um pré-vestibular com professores da própria instituição e conseguimos colocar 15 mulheres trans na faculdade. Foi uma força-tarefa. Até eu dei aula também, de português. Hoje já tem doutora travesti.

A gente ter chegado na faculdade motivou outras meninas a entrarem também. Parecia que estava levando elas para a Disney. Mas nesse percurso tivemos duas desistências, porque sofremos perseguição. Quando entrávamos no banheiro, víamos frases na parede como "fora traveco".

Lembro que em sala de aula, citei dados para a professora, e quando acabei, ela perguntou: "Você já terminou?". Ou seja: o que falei não era importante.

Na minha formatura, me chamaram num lugar reservado, mas não em tom intimidador, e me mandaram seguir o protocolo. Queriam que eu fosse "normal" como outra pessoa, pegasse o canudo e fosse embora. Óbvio que o medo deles era que eu expusesse o que representava. Não sei o que eles achavam que eu ia fazer de diferente, mas levei a bandeira trans enrolada na manga da beca e a ergui.

'Só um grupo seleto de travesti consegue arrumar emprego'

Nasci em Porto Alegre e vim para Florianópolis depois de passar por situação de violência doméstica com um companheiro. Cheguei a ficar em cárcere privado por um tempo. Não denunciei porque a pessoa era importante na cidade e estava ameaçando colocar fogo até na casa dos meus amigos. Ele me agredia de um jeito que não ficavam marcas no meu corpo.

Meus pais moram em Florianópolis, e são católicos fervorosos. Minha mãe, de 78 anos, tem a convicção de que vou para o inferno, mas é minha melhor amiga. Ela não me quer longe dela. Quando comecei a me maquiar, ela que dava o retoque final.

Quando fugi de Porto Alegre, cheguei primeiro em Santa Maria, e pedi acolhida num mosteiro, mas não fui muito bem recebida. O padre me respeitava e me levou para Santa Catarina, em 2004. Lá, consegui emprego numa rede de fast food. Mas quando recebi meu primeiro salário, fui roubada lá dentro.

Não tive como pagar o aluguel de onde morava, e vivi em situação de rua por 30 dias. Me escondia atrás de um hospital e depois ia para o trabalho.

Só um grupo seleto de travesti consegue arrumar emprego. E o fato de ser assistente social é pior, porque não querem que eu cuide de criança ou idoso. Nunca fui aceita para trabalhar como assistente social numa instituição.

Então trabalhei com fast food, telemarketing. Já fui para entrevistas de emprego com roupas masculinas e cabelo preso. Depois que assinaram a carteira, mandei tudo para o inferno e me vesti como sou. Sabia que meu profissional era bom e se eles me quisessem era aquilo.

Há dez anos trabalho com acolhimento a vítimas de violência, como voluntária e coordenadora da ADEH (Associação em Defesa dos Direitos Humanos). Atendo a cerca de 70 casos de violência por mês. Tem casos em que as pessoas não buscam a delegacia, mas nos procuram. Atendo muitas meninas que trabalham na rua. Tem muita violência contra esse público.

Consigo, através de uma rede de apoio, atendimento psicológico, jurídico e social para as vítimas, e sem apoio do poder público. No ano passado nos tiraram do espaço que nos foi cedido, sendo que pagávamos condomínio. Era um prédio de 100 m², com áreas de acolhimento, espaço de convivência, onde atuavam 35 voluntários.

Já fiz duas mudanças e agora consegui espaço para guardar nossas coisas. Para pagar as contas, faço discotecagem desde 2016. Agora minha luta é trazer o espaço de volta. Estou tentando uma vaquinha, e fazendo extras em bares e restaurantes.

'Não entendo por que pênis e vagina conseguem legitimar tanto'

A gente é deslegitimada por ser trans. Tanto que sempre falo para as meninas que vai ser difícil se elas realmente quiserem fazer a transição. Trabalho com realidade, e a minha realidade é alertar o que acontece lá fora. Minha responsabilidade afetiva não é dizer que vai ficar tudo bem, mas fortalecer essas pessoas para enfrentar o mundo.

No lado profissional, falo que a pessoa tem que ser três vezes melhor no trabalho. É fato: quando errava alguma coisa, não foi a DJ que errou, mas a travesti que errou. Isso acontece em outros espaços e dentro do próprio movimento.

Às vezes me incomodo com discussões acerca do sexo biológico, da construção social em torno dele. Não entendo por que um pênis ou vagina conseguem legitimar tanto uma estrutura social.

 Lirous com os companheiros Jackson, Jhean e Matheus - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Lirous com os companheiros Jackson, Jhean e Matheus
Imagem: Reprodução/Facebook

'Quero fazer a Gretchen, mas de forma simultânea'

Tive um período complicado porque nem eu me entendia, imagine as pessoas. A gente vê muita gente querendo se aproveitar da nossa condição de trans, principalmente homem. Num determinado momento, me senti mais segura e com a autoestima lá em cima, e passei a exigir que as relações que eu tinha fossem transparentes. Não tinha por que ficar me escondendo. Foi quando comecei a me relacionar de verdade.

Quando a pessoa trans se assume, a possibilidade dela conseguir mais coisas para sua vida é maior. Porque no momento que a gente rompe com uma identidade que a gente não reconhece, começa a construir coisas positivas para aquela que a gente assume

Estou casada há dez anos. Dois estão com 28 anos e um tem 34. Um deles trabalha em pizzaria, o outro é designer e o outro antropólogo. Não tinha essa questão de monogamia, mas aconteceu. Foi um processo natural, nada de caso pensado.

Foi muito louco porque eu morava com meus pais e um companheiro. Até o segundo fugir de casa por causa do preconceito, e não ter onde ficar. A gente acabou levando lá pra casa. Foi o primeiro caso em que acolhi uma pessoa nessa situação.

Com o terceiro, que veio em 2013, aconteceu a mesma coisa, e ficou mais complicado porque meu pai começou a dizer que estava fazendo como pessoas que pegam cachorro de rua, de levar todo mundo pra casa. No final das contas, saí da casa dele.

Minha mãe enxerga como algo legal, e trata eles como se fossem filhos. Meu pai é mais metódico. Não sei se finge que não vê ou vê e não liga. Mas é uma relação boa com a família.

Tenho união estável com um deles. E todos nós conseguimos a bênção de um padre na missa. Na minha cabeça é: estou com três crianças dentro de casa e não quero mais uma. Às vezes, brinco que quero fazer a Gretchen, mas de forma simultânea.

Todos eles trabalhavam na instituição, e são pessoas maravilhosas. No máximo a gente briga no videogame.

Criei uma bolha maravilhosa, e dentro dela há respeito. Não sei o que as pessoas costumam dizer fora disso.
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