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Lipo LAD: o que há por trás da cirurgia da moda que cria barriga tanquinho

Ludmilla realizou procedimento que ressalta músculos, a lipo LAD - Reprodução Instagram
Ludmilla realizou procedimento que ressalta músculos, a lipo LAD Imagem: Reprodução Instagram

Júlia Flores

Da Universa

27/11/2020 04h00

A cantora Ludmilla já fez lipo LAD. A influencer Vírginia Fonseca e a ex-BBB Flayslane também. Recentemente, no Brasil, que ultrapassou os Estados Unidos e tomou o primeiro lugar no ranking das nações que mais fazem cirurgias plásticas no mundo, o novo procedimento vem chamando a atenção dentro e fora dos consultórios por prometer o sonho da barriga tanquinho própria. Mas, afinal, o que é a lipo LAD?

A ex-BBB Flayslane também fez a Lipo LAD - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
A ex-BBB Flayslane também fez a Lipo LAD
Imagem: Reprodução Instagram

O que é?

A diferença entre a lipoaspiração tradicional e a lipo LAD (sigla para lipoaspiração de alta definição, também chamada de lipoaspiração HD) é que a primeira retira gordura localizada de uma camada mais profunda da pele, enquanto a lipo LAD, além de remover o excesso de gordura, também modela e destaca os músculos atuando em uma camada mais superficial do corpo, dando o efeito de barriga tanquinho e perna torneada.

Médicos e especialistas dizem que a lipo LAD surgiu da busca por um novo ideal de beleza: o corpo musculoso. "Está na moda ter um corpo esculpido, assim como ter uma barriga mais lisinha já foi tendência um dia", diz a cirurgiã plástica Luciene Oliveira, da Clínica Leger, de São Paulo. Para a médica, as redes sociais contribuíram para a popularização do procedimento. "A internet aumentou o culto pelo corpo. Agora, as pessoas não querem só ter uma vida saudável, mas também querem mostrá-la. Hoje em dia, ter um corpo definido mostra que você é cuidadosa consigo mesma."

A procura pela cirurgia nos mecanismos de busca da internet disparou nos últimos meses. Só no Google a busca pelo termo lipo HD aumentou cerca de 350% no período de agosto até novembro de 2020. No Instagram, a #hashtag lipo HD já soma quase 90 mil posts. Rolando a timeline, não é difícil encontrar alguma influencer que tenha feito a operação.

É o caso da blogueira fitness Anna Livya Padilha. Com apenas 20 anos, a influencer realizou o procedimento em uma clínica badalada de São Paulo, que chega a cobrar R$ 50 mil pela cirurgia e tem quase 1 milhão de seguidores no Instagram. A reportagem de Universa tentou marcar uma consulta no local, que está com agenda cheia apesar da pandemia.

Na ligação, descobrimos que a primeira avaliação com um cirurgião plástico na clínica custa R$ 800. A atendente não quis informar o valor da cirurgia no local. Pelo país, o procedimento pode custar de R$ 20 mil a R$ 50 mil, valor que varia de acordo com o profissional e a região.

Anna, assim como muitas influencers que se submeteram ao procedimento, não precisou arcar com grande parte dos custos da operação em troca de divulgar posts e fotos sobre a clínica em suas redes sociais. Com isso, a blogueira também recebeu críticas dos seguidores. "Falaram que eu estava romantizando o procedimento. Nunca escondi nada, nem escondi todos os remédios que tomei para aliviar a dor", diz a Universa.


Como é feita a lipo LAD?

Tiago Simão, cirurgião plástico e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, de São Paulo, explica que a cirurgia costuma demorar de três a seis horas, é feita com anestesia e precisa ser realizada em ambiente hospitalar. No procedimento, os cortes, que costumam ter cerca de meio centímetro, são feitos para a entrada das cânulas de lipoaspiração nas regiões em que se busca drenar a gordura. "Normalmente são perfurados pequenos orifícios no paciente. Se o objetivo é definir o abdômen, são feitos três cortes na parte da frente --perto da cintura e do umbigo. Para aspirar a parte de trás, são mais três cortes: dois na altura do sutiã e um no glúteo para sugar a gordura dos flancos."

No pós-operatório, é preciso usar cinta modeladora, fazer drenagem linfática e tomar medicações anticoagulatórias para evitar o risco de trombose, além de anti-inflamatórios. "É uma cirurgia que não dói tanto. O que dói mais é a drenagem pós-operatória. A cinta ajuda os pacientes no pós e geralmente eles não se queixam", explica Tiago Simão. "Os riscos da lipo são iguais aos de outros procedimentos: pode haver sangramento, hematoma, abrir algum ponto. Uma das complicações mais temidas é a trombose, que pode evoluir para uma embolia pulmonar, porém, essa é uma complicação rara e pouco comum neste procedimento."

Segundo os especialistas, os resultados costumam aparecer no prazo de um mês após a cirurgia. Anna, que fez a lipo em outubro, compartilhou imagens com o "novo corpo" no Instagram duas semanas depois de ter realizado o procedimento. "Estou satisfeita com o resultado", conta.

Virgínia Fonseca fez a LAD um pouco antes de engravidar - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Virgínia Fonseca fez a LAD um pouco antes de engravidar
Imagem: Reprodução Instagram

A lipo HD não é pra todo mundo

A lipo LAD, assim como a lipoaspiração convencional, não é indicada para pacientes que buscam perder peso, explicam os especialistas, já que é um procedimento de modelagem corporal. Se o paciente estiver com o IMC (Índice de Massa Corporal) acima de 30, o ideal é que o médico indique um programa de reeducação alimentar e exercícios físicos para que o interessado perca peso.

A médica Luciene Oliveira explica que a cirurgia é ideal para quem já tem uma musculatura definida, mas que não consegue exibi-la por causa da gordura localizada. Além disso, é preciso que o paciente esteja comprometido com uma alimentação balanceada e busque seguir uma rotina de exercícios físicos, para que o resultado não se perca.

"Precisamos pensar no resultado a longo prazo. Será que a paciente daqui a dez, 20 anos, vai manter os mesmos hábitos alimentares e seguir a rotina de exercícios físicos? Toda a definição corporal pode ser perdida caso não haja esse comprometimento."

Alan Landecker, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, de São Paulo, alerta que a deformação corporal é um dos possíveis problemas da cirurgia. "Na lipo tradicional, você age na camada profunda da pele. O ideal é não invadir a camada superficial de gordura, porque, caso você invada, o tecido fica irregular. Na lipo de alta definição, fazemos essa invasão com o propósito de desenhar os músculos. Mas o problema é que, assim, se gera uma deformidade permanente. Então, por exemplo, se essa pessoa engordar, ela vai engordar com os gominhos e é impossível reverter o resultado", explica.

O médico questiona a realização excessiva de cirurgias no país e discorda daqueles que optam pela lipoaspiração como primeira opção para alcançar o "corpo dos sonhos". "Esse procedimento está na moda porque as pessoas querem o que é mais fácil. Eu tento fazer com que meus pacientes não operem. Primeiro, eu coloco eles em um sistema de dietas, controle de alimentação, exercícios físicos. Assim, a pessoa consegue emagrecer sem precisar da cirurgia", diz Alan.

A cirurgiã Luciene Oliveira também problematiza a popularização do procedimento e alerta: "É preciso conversar com o seu médico e definir com ele o que fica melhor em você. Esse procedimento não é para todas as pessoas. Quem não tem hábitos saudáveis, não tem musculatura não pode fazer a cirurgia. A lipo HD não é pra todo mundo".

Pandemia aumentou busca por procedimentos estéticos

Um vídeo da influencer Alexandra Gurgel criticando o procedimento viralizou nas redes sociais. Alexandra, criadora do Movimento Corpo Livre, já passou por uma lipoescultura malsucedida aos 23 anos e hoje fala sobre o assunto. "Eu vejo crianças de 13 anos querendo operar o nariz para sair bem na selfie. Crianças que sonham em ter o corpo parecido com o da fulana do Instagram que fez uma lipo, que fez isso, fez aquilo", diz a Universa.

Alexandra cita trechos da obra "O Mito da Beleza", da escritora feminista Naomi Wolf, para explicar a dimensão do problema. Segundo Naomi, na sociedade patriarcal, o culto à beleza e à juventude é transformado em uma arma para controlar a emancipação intelectual, sexual e econômica da mulher. Ficamos, assim, presas a um ideal de corpo e dedicamos nosso tempo a alcançá-lo.

"A lipo LAD é só mais uma arma do patriarcado para que as mulheres continuem obcecadas pela própria beleza", opina Alexandra. "A gente acha que só vai ser feliz com o corpo perfeito e ficamos esperando esse momento. As pessoas não percebem, mas primeiro surge o batom emagrecedor, depois a harmonização facial, aí aparece a lipo LAD. São táticas para fazer você gastar dinheiro e achar que aquilo é a solução dos seus problemas."

Assim como a médica Luciene Oliveira, a influencer também relaciona o aumento dos procedimentos estéticos ao avanço das redes sociais e questiona a falta de medidas por parte de empresas como Twitter e Instagram, que poderiam, por exemplo, impedir a veiculação de posts-propaganda de cirurgias estéticas.
O Doutor Alan Landecker alerta que é crime por parte das clínicas oferecer operações cirúrgicas em troca de publicações, fotos e vídeos na internet.

Para Alexandra, outro fator que pode ter colaborado para o sucesso da lipo LAD é a pandemia. "No começo do isolamento, surgiram vários memes gordofóbicos. Várias pessoas descontaram a ansiedade na comida. Agora, em vez de controlar a alimentação, muitas delas recorrem a procedimentos estéticos para recuperar o 'corpo perfeito'. É como se a barriga tanquinho pudesse mudar o seu mundo", diz a influencer. "Você pode fazer o que quiser com o seu corpo, mas precisa questionar o porquê de estar fazendo isso."

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