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Reclamar de pelo pubiano, não mudar posição: o que há de machista no sexo?

Machismo pode influenciar nas escolhas na cama, especialmente entre casais heterossexuais - Getty Images
Machismo pode influenciar nas escolhas na cama, especialmente entre casais heterossexuais Imagem: Getty Images

Nathália Geraldo

De Universa

03/10/2020 04h00

"Conheci um cara no Carnaval. Eu fiz sexo oral nele e quando pedi para fazer em mim, ele disse: 'Ah, mas tem muito pelo'. Eu fiquei no chão. Na hora não falei nada para não perder a temperatura do momento, a gente mudou de posição, enfim...".

Faz três anos que a jornalista Vanessa* passou por essa situação, no meio da transa, que hoje identifica como uma postura machista do homem com que se relacionou. "Quase que eu disse: 'Faltou às aulas de biologia? Vulva tem pelo'. Se bem que só tenho essa consciência hoje. Na época não questionava muito."

Se um homem fala sobre a depilação da mulher, ou qualquer aspecto do corpo dela, conduz o ato sexual para práticas em que só ele sente prazer ou não se preocupa em explorar as zonas erógenas (não à toa, o fato de homens heterossexuais não encontrarem o clitóris virou meme nas redes sociais) dela, é possível que o casal esteja transando de forma machista — e muitas vezes nem se dá conta.

Raphaella Moura - Divulgação - Divulgação
Sexóloga e psicóloga clínica Raphaella Moura: "Temos uma estrutura social machista e patriarcal que atravessa nossa sexualidade"
Imagem: Divulgação

Para a psicóloga clínica e sexóloga Raphaella Maia Moura, o "sexo machista" é fruto da construção social em que a mulher está sempre em posição de subserviência e como objeto para satisfação masculina. Em vários aspectos da vida, se perpetua a desigualdade entre gêneros - e com o sexual, não é diferente.

"Temos uma estrutura social machista e patriarcal que atravessa nossa sexualidade, que está presente na definição de orientação sexual, identidade e expressão de gênero. E que afeta nosso modo de se relacionar afetiva e sexualmente. Isso significa que o sexo também é machista".

Universa coletou em grupos de discussão nas redes sociais situações a que mulheres foram submetidas durante a transa. A seguir, Moura comenta como práticas sexuais masculinas - especialmente em relações heterossexuais - também podem ser identificadas como machistas, e como podemos reconstruir a vida sexual de forma que todo mundo tenha prazer (e segurança) junto.

Sexo machista: reconhecendo situações

  • Comentar seus pelos pubianos e dar opinião (não solicitada) sobre eles

"Muitos homens, quando meninos, passaram pelo consumo da pornografia, ou mesmo se relacionaram com garotas de programa, e entendem o sexo como algo performático. É necessário entender que nem sempre a mulher terá toda a flexibilidade que ele vê, ou mesmo a vulva sem pelo nenhum, como aparece na pornografia", analisa Moura.

"Se um homem aponta isso para a parceira, ela vai se sentir mal. Só que é importante saber que cada mulher tem uma vulva, uma sensibilidade. Queremos colocar os corpos em padrões que são referência nesse tipo de mídia, mas isso afasta a mulher do seu corpo natural. Isso pode fazer com que ela queira se enquadrar nesses moldes, capitalistas e machistas, de que para ir transar ela precisa ter perna, axila, vulva, tudo depilado...".

A depilação, de fato, é uma das questões que pode mexer com as mulheres. Como tudo que diz respeito a seu corpo, a orientação é se questionar sobre o que o hábito significa para você (vale dizer que pelos pubianos não são sinônimo de falta de higiene ou mau cheiro).

  • Se recusar a fazer sexo oral e ter nojo de beijar após o ato

Não querer sentir o gosto da secreção vaginal ou do sêmen na boca está na lista dos "nojinhos" que homens e mulheres podem ter durante o ato sexual. E, sim, cada pessoa pode ter suas preferências sexuais - desde que isso não seja uma imposição para o parceiro ou um impeditivo para ter/promover prazer ao outro.

"O homem por vezes não quer só receber o oral, mas gozar na boca da mulher, como o 'ápice' do ato, para se sentir superior a ela. Só que depois não quer beijar porque tem nojo. Então, é preciso perceber se há esse sentido, de 'usar a mulher', que vem de uma construção histórica da nossa sexualidade", aponta a sexóloga.

  • Só aceitar transar em posições que dão prazer a ele

posições que facilitam o estímulo do clitóris (uma das chaves para o prazer feminino) e, outras, a penetração. No ato sexual, é bom variar para que o homem e a mulher se sintam contemplados e atinjam o orgasmo. O que não pode acontecer é homem dizer que não quer trocar de posição, mesmo que a parceira goste de outra, só porque ele não terá tanto prazer assim. Nestas horas, vale ter "consciência sexual", como explica Moura, saber o que te satisfaz e, então, verbalizar o interesse:

No sexo machista, a mulher sente que não pode falar, porque o corpo dela fica na posição subjugada.

"Então, por vezes, ela pode até achar estranha alguma posição que ele pede, mas pensa que precisa agradar, já que está ali...E acaba cedendo para o homem", analisa. "Não há problemas em termos preferências sexuais, o problema é como isso é conversado. Então, é importante que a mulher tenha voz para falar: 'Será que a gente não pode tentar outras coisas?'. Afinal, ela também precisa gozar, demonstrar do que gosta no sexo.

  • Considerar a penetração como objetivo único do sexo

Nem de longe a penetração é sinônimo de orgasmo feminino (há, inclusive, outras práticas que podem ser até mais prazerosas).
Acontece que, no sexo machista, o pênis se torna o protagonista da situação, e o homem transa de forma "roteirizada" para conseguir com que a vagina fique molhada, ou sequer faz isso, e vai direto para a penetração.

"Existe o sexo decorado, que vai do beijo, para os dedos, para o sexo oral e depois a penetração. Só que às vezes a mulher ainda não está lubrificada, ou não gosta de algo, ou até da intensidade com que ele está fazendo", opina a sexóloga. É a hora de conversar: para que os dois se sintam bem, falem sobre seus gostos e incômodos sem tabus.

  • Forçar a cabeça da parceira no sexo oral

Os limites sexuais nem sempre são estabelecidos antes de o casal transar. Assim, se a mulher se sente desconfortável com um ato, como o do homem empurrar a cabeça dela enquanto ela faz sexo oral, é preciso reagir e deixar claro que não está gostando.

"Muitos homens acham que têm que ser mais brutos no sexo, e fazem isso para estarem em um lugar de comando, do 'só vai sair se eu quiser'. Tem mulheres que podem se sentir confortáveis em fazer isso, mas, se não, é tirar a mão do cara e dizer que não quer".

  • Não colocar camisinha ou tirar no meio da transa

Não faltam relatos de mulheres que dizem ouvir do parceiro que a camisinha aperta (e Universa já mostrou que isso é balela da forma mais didática possível). Forçar a barra para transar sem o preservativo masculino, diz a sexóloga, também se configura como um ato machista.

"Aí, a mulher é ludibriada com essa narrativa, e prefere tomar pílula do dia seguinte ou pedir para não gozar dentro. Só que isso não minimiza os riscos", pontua.

Tirar a camisinha durante a penetração sem a outra pessoa perceber é crime. Em inglês, se usa o termo "stealthing" (significa "ocultação", "dissimulação", em inglês) para casos que podem ser enquadrados pelo Código Penal brasileiro pelo artigo 215, que fala sobre violação sexual por meio de fraude.

Autonomia sexual e conversa são saídas

Identificar se você já fez ou não sexo machista em algum momento não traz todas as respostas para a questão, mas pode ser o primeiro passo para a busca pela autonomia sexual e para fugir dos padrões machistas na transa, que podem impor as vontades de uma pessoa sobre a outra.

"Em qualquer configuração de relação, de orientação sexual ou identidade de gênero, sendo sexo casual ou não, as mulheres precisam despertar para essa consciência sexual, se conhecerem. Para, então, decidirem se querem ou não continuar ficando com a pessoa", aconselha a sexóloga.

É importante também investigar se a atitude machista é feita de forma consciente ou inconsciente para, então, decidir se vale a pena manter o contato sexual com o outro.

*Nome fictício usado a pedido da entrevistada

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