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Líder de seita é preso acusado de estuprar dois adolescentes em Fortaleza

O líder de uma seita chamada de Comunidade Afago, Pedro Ícaro de Medeiros, conhecido como Ikky Medeiros, foi preso acusado de praticar crimes sexuais - Divulgação
O líder de uma seita chamada de Comunidade Afago, Pedro Ícaro de Medeiros, conhecido como Ikky Medeiros, foi preso acusado de praticar crimes sexuais Imagem: Divulgação

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Recife

29/09/2020 21h00Atualizada em 30/09/2020 00h09

O líder de uma seita chamada de Comunidade Afago, Pedro Ícaro de Medeiros, conhecido como Ikky de Medeiros, foi preso hoje acusado de praticar crimes sexuais contra dois adolescentes, em denúncia do MPCE (Ministério Público do Estado do Ceará), por meio do Núcleo de Investigação Criminal e do Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência.

Medeiros foi preso pela Polícia Civil do Ceará em um dos três endereços dele, localizado em Fortaleza, na manhã de hoje. Ele é investigado por abusar sexualmente de 40 ex-integrantes do grupo.

A operação intitulada "Erasta" ocorreu em cumprimento a mandado de prisão preventiva expedido pela 12ª Vara Criminal de Fortaleza. A Justiça expediu ainda mandados de busca e apreensão nos três endereços usados pelo líder da seita. A prisão de hoje se refere à acusação feita pelo MPCE à Justiça de crime de estupro cometido por ele contra dois jovens quando eles eram adolescentes.

O processo corre em segredo de Justiça para não expor as vítimas, que já são maiores de 18 anos. Elas teriam passado anos sendo abusadas pelo acusado.

O nome da operação se refere aos conceitos da pederastia da antiga Grécia, em que Erasta era o homem com mais de trinta anos que se relacionava com jovens com objetivo de refinar-lhes a educação.

O MPCE informou que chegou às duas vítimas do acusado por meio de publicações com a hashtag #exposedfortal, que lançou duas campanhas chamando vítimas de crimes sexuais do Ceará a procurarem o órgão.

"Neste contexto, compareceram as vítimas, cuja qualificação (nomes e identificação) permanece em sigilo, por força de lei, culminando com a individualização do senhor Pedro Ícaro de Medeiros, como autor de crimes sexuais em desfavor das mesmas", disse o MPCE, em nota ao UOL.

Mais 40 vítimas

Além da denúncia de crime sexual contra dois adolescentes, Ikky de Medeiros é investigado em uma Notícia de Fato que traz dezenas de relatos de abusos praticados em pelo menos 40 pessoas. As vítimas desta segunda denúncia são homens e mulheres que participavam da seita criada por ele em 2018.

As denúncias de abuso sexual, tortura, lesão corporal, entre outras vieram à tona depois que ex-participantes do grupo começaram a divulgar nas redes sociais relatos dos supostos crimes que sofreram. Eles usaram as hastags #exposedafago #exposedfortal #cadeianoikky. Um perfil no Twitter e dois no Instagram foram criados para receber relatos de outras pessoas que teriam sido vítimas do investigado.

"O investigado ficou nacionalmente conhecido ao ser denunciado por várias vítimas que com ele conviviam na 'Comunidade Afago', e ter sido alvo de reportagem do programa da Rede Globo, Fantástico", destacou o MPCE.

Segundo pessoas que participaram da seita, cerca de 200 indivíduos seguiam o "mestre Ikky" durante os dois anos que a Comunidade Afago começou a ser divulgada. O grupo, inicialmente, agia com trabalho voluntário atendendo pessoas em situação de rua e oferecendo cursos terapêuticos.

A jurista Thayná Silveira, que atendeu vítimas de Ikky de Medeiros e levou o caso ao Ministério Público, relatou que algumas vítimas a procuraram para pedir ajuda jurídica ao caso e, até agora, ela já contabiliza 40 pessoas que teriam sofrido crimes praticados pelo guru.

"Elas começaram a chegar até a mim através da #exposed. Comecei a coletar os depoimentos de todas que entraram em contato e, no dia 16 de junho, encaminhei todas as denúncias com provas materiais e testemunhais ao Ministério Público. A prisão que saiu hoje foi [em decorrência] de duas outras vítimas que ele abusou durante anos quando era menores de idade, mas a investigação da Comunidade Afago continua", explicou Silveira.

Os ex-participantes da Comunidade Afago contaram que chegaram ao grupo atraídos pela proposta de acesso a cursos de terapias holísticas com valores simbólicos a serem pagos, além de poderem exercer trabalho voluntário de rua. À medida que o grupo foi crescendo, Ikky de Medeiros, que se diz formado em filosofia e ter poderes mediúnicos, começou a hierarquizar a comunidade.

"Ele destinava cargos para homens que ele tinha interesse sexual e a partir disso ele começava o processo de manipulação. Ele não tem formação para cursos de massagem, massoterapia e o que mais usava era o de tantra para abusar sexualmente dos homens. As vítimas sexuais eram homens e as mulheres sofriam abusos psicológicos, eram humilhadas e difamadas", acrescenta Silveira.

Dentro da hierarquização da seita, existia um grupo chamado de "aprimorado", e ele selecionava as pessoas que iriam participar. "Esses integrantes eram submetidos a 'treinamentos' como se fosse resistência, com pedras quentes e tapas na cara", conta a jurista, destacando que as vítimas relataram que sofriam muita humilhação e tortura.

Um áudio enviado ao UOL, supostamente gravado por Ikky de Medeiros, revela parte do ritual da vela, que era uma sessão de tortura da qual participantes tinham a pele queimada por pingos do material quente: "A bacia tem que ser grande o suficiente para tu mergulhar tua mão ou alguma parte do teu corpo depois que eles forem queimados."

Um suposto ritual para purificação dos integrantes do grupo chamava "ovo luminoso". Segundo relatos, "essas pessoas tinham que ter relações sexuais com ele dez vezes e iriam absorver o 'dom' do 'mestre' para ter poderes igual ao do guru.

"Cinco meninos foram obrigados a manterem relações sexuais e duas meninas forneceram o sangue menstrual. Eles contaram que, quando completaram as dez relações sexuais, ele falou que 'agora que estava começando'", disse Silveira.

Outro ritual relatado pelas vítimas ocorreu num sítio, onde ele enterrou duas pessoas vivas. Este ritual, segundo ele, era para "acabar com a coisa de magia negra que vinha na família dessas pessoas", destacou Silveira.

Mas por que as pessoas demoraram tanto a denunciar os supostos crimes? A jurista explica que elas estavam num estado de vulnerabilidade, que acreditavam nas ameaças do líder da seita em fazer feitiços que tirariam a vida delas ou pessoas da família. Além disso, o participante era obrigado a assinar um contrato de anonimato e confidencialidade.

"Estava numa fase de muitos conflitos emocionais e pense que aquilo me faria muito bem. Uma pena que tudo isso seja apenas para encobrir várias perversidades. Lembro que com pouco tempo na comunidade que, do nada, várias pessoas estavam com uma marca de queimado na nuca. Quando perguntava o que era aquilo, só me respondiam: 'é Deus'. (...) outra coisa que era bem ensinada era a importância de guardar segredos. Era avaliada nossa capacidade de guardar segredo das outras pessoas para saber se você seria ou não digno dos conhecimentos que ele tinha para passar", diz o relato de uma suposta vítima de Ikky Medeiros publicado no perfil do Instagram de Comunidade Afago - A Verdade.

Part 1 #cadeianoikky #exposedafago #exposedfortal

Uma publicação compartilhada por Comunidade Afago - A Verdade (@verdadeafago) em

"O que aconteceu nesse círculo me causou muita dor. Fui violadx, abusadx, manipuladx, fui vítima de mentiras e muitos constrangimentos vexatórios públicos. É importante saber que quem estava lá, estava muito frágil. O líder diz que ele sabe o caminho para que as pessoas saiam da dor delas, diz que escuta a voz de Deus, e que cada um que obedecer vai ficar bem", destaca outro relato publicado no perfil.

Part 2 #cadeianoikky #exposedafago #exposedfortal

Uma publicação compartilhada por Comunidade Afago - A Verdade (@verdadeafago) em

O outro lado

O advogado Klaus Borges, que faz a defesa de Pedro Ícaro de Medeiros, informou que ainda não teve acesso aos autos do processo, que está em segredo de Justiça, e só vai poder se pronunciar quando tiver acesso ao teor da denúncia contra o cliente.

"O processo está em segredo de Justiça e, infelizmente, até o momento não nos facultaram acesso, apesar de já termos solicitado", disse Borges.

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