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9% das famílias no país dizem que crianças e adolescentes estão sem estudar

Getty Images
Imagem: Getty Images

Fernanda Toyomoto

Colaboração para Universa

25/08/2020 14h01Atualizada em 25/08/2020 14h20

Com a crise provocada pela pandemia de Covid-19 no Brasil, 9% das famílias com crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos dizem que elas estão sem realizar qualquer atividade escolar durante a pandemia. É o que revela a pesquisa "Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes", feita pelo Unicef e Ibope Inteligência. Esse universo representa 4 milhões de famílias no país.

No lado oposto, 91% dos lares com crianças ou adolescentes afirmam que elas têm realizado atividades escolares. Esse índice é maior para estudantes de escolas particulares e chega a 94% dos entrevistados. Já entre estudantes da rede pública de ensino, do ensino infantil ao médio, esse índice cai para 89%.

Para o Unicef, mesmo entre os que afirmam que os alunos têm mantido o vínculo escolar, a questão é a qualidade dessa relação. "A grande questão é entender a qualidade com que essa frequência de atividades tem sido realizada. Nesse momento de atividades remotas é importante manter o vínculo com a escola, e para mantê-lo, quanto mais frequência e mediação tiver, mais fácil de identificarmos os problemas", afirma Ítalo Dutra, chefe de Educação do Unicef no Brasil.

Entre o grupo dos que mantêm a relação com a escola, a maioria dos estudantes passou a realizar as atividades pela internet, mas a disparidade entre a rede particular e pública chama a atenção: 97% dos estudantes de escolas particulares usam a internet para mediar a relação com a escola enquanto na rede pública esse universo é de 81%.

A pesquisa foi feita entre os dias 3 e 18 de julho e ouviu 1.516 pessoas por telefone. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para cima ou para baixo, e o nível de confiança é de 95%.

Maioria recebe atividades todos os dias

O nível de frequência também mostra divergências significativas. Nos cinco dias da semana anteriores à pesquisa, 63% dos estudantes receberam tarefas e atividades escolares diárias, enquanto 12% não receberam tarefa nenhuma e 6% somente em um dia da semana.

Tanto nas escolas públicas quanto nas escolas privadas, a comunicação com as famílias se manteve ativa. Segundo a pesquisa, 68% afirmam ter recebido contatos da escola para informar progressos das crianças nas atividades (71% nas particulares e 65% nas públicas). Além disso, 48% afirmam que a escola entrou em contato para saber como estava a situação da casa e das crianças e dos adolescentes. Nesse ponto, o contato foi maior para quem tem filhos em escolas públicas, 51%, versus particulares, 44%.

A pandemia aumentou as desigualdades. Isso se reflete nos percentuais de meninas e meninos que não conseguiram manter a aprendizagem em casa. Diante da crise provocada pela Covid-19, há que se ter um esforço ainda maior para que a exclusão escolar não aumente no país Ítalo Dutra, chefe de Educação do Unicef

O estudo também aponta que milhares de crianças e adolescentes enfrentam privações, violações de direitos, fome e redução de rendimentos durante a crise.

Segurança alimentar e nutricional

A pesquisa também trouxe informações sobre como a pandemia tem afetado a segurança alimentar e nutricional de crianças e adolescentes. "Estamos diante de um cenário preocupante de má nutrição. Percebemos o aumento do consumo de alimentos não saudáveis, que contribuem significativamente para o aumento do excesso de peso e das doenças crônicas não transmissíveis", afirma Cristina Albuquerque, chefe de Saúde do Unicef no Brasil.

Quase metade da população brasileira (49%) sofreu mudanças nos hábitos alimentares desde o início da pandemia da Covid-19. Entre as famílias que residem com crianças e adolescentes, o impacto foi ainda maior: 58%.

Segundo a pesquisa, 31% das famílias com crianças e adolescentes passaram a consumir mais alimentos industrializados, tais como macarrão instantâneo, bolos, biscoitos recheados, achocolatados, alimentos enlatados, entre outros. Entre as famílias que não residem com crianças e adolescentes, esse aumento no consumo foi de 18%.

Outro destaque foi o aumento do consumo de refrigerantes e bebidas açucaradas e do consumo de alimentos preparados em restaurantes fast-food (hambúrgueres, esfirras ou pizzas).

"A má nutrição tem impactos preocupantes no desenvolvimento das crianças, em especial nos primeiros anos de vida. Essa situação impacta prioritariamente as populações mais vulneráveis com efeitos a longo prazo. É fundamental atuar imediatamente para reverter esse cenário e garantir o acesso de meninas e meninos a uma alimentação adequada e saudável", afirma Cristina.

Segundo a pesquisa, um em cada cinco brasileiros (21%) passou por algum momento durante a pandemia em que os alimentos acabaram e não havia dinheiro para comprar mais. Novamente, a situação é mais preocupante entre aqueles que residem com crianças e adolescentes, em que o percentual chegou a 27%. Além disso, 6% disseram que tiveram fome e deixaram de comer por falta de dinheiro para comprar comida (9% no grupo familiar).

Maioria sofreu redução de renda

Segundo a pesquisa, 55% afirmam que o rendimento de seus domicílios diminuiu desde o início da crise sanitária.Mais uma vez, os impactos foram maiores nas famílias com crianças e adolescentes, em que 63% viram sua renda diminuir.

A redução também está mais presente nas camadas mais pobres: 67% daqueles com renda familiar de até um salário mínimo tiveram queda de rendimentos, contra 36% daqueles com renda familiar de mais de 10 salários. O estudo revela, ainda, que 18% dos brasileiros deixaram de pagar alguma conta de luz, água ou gás na pandemia.

"A pesquisa deixa claro que os impactos econômicos e sociais da pandemia afetam mais crianças, adolescentes e suas famílias. Para além dos benefícios temporários, é importante que os programas regulares de proteção social incluam, de maneira sustentável, todas as famílias vulneráveis", afirma Liliana Chopitea, chefe de políticas sociais, monitoramento e avaliação do Unicef no Brasil.

O auxílio emergencial foi pedido por 46% dos brasileiros entrevistados. Entre quem vive com crianças e adolescentes, o percentual chegou a 52%. Dos que pediram o auxílio, 25% não foram considerados elegíveis ou ainda não receberam o auxílio. O desemprego também foi maior entre famílias com crianças e adolescentes.

"Em momentos de planejamento fiscal e orçamentário, é fundamental olhar a proteção social não como um gasto e sim como um investimento no presente e no futuro do país", diz Liliana.

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