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Os riscos de adiar o divórcio por causa dos filhos, segundo especialistas

Sentir o clima ruim sem que isso seja explicado ou nomeado tem sérias consequências psicológicas para as crianças - Crédito:Goodboy Picture Company
Sentir o clima ruim sem que isso seja explicado ou nomeado tem sérias consequências psicológicas para as crianças Imagem: Crédito:Goodboy Picture Company

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

16/08/2020 04h00

Você deve conhecer algum casal nesse perfil: a relação já chegou ao fim há tempos mas os dois optam por continuar juntos e adiar a separação "em nome dos filhos". Segundo terapeuta de casal e de família Carmen Cerqueira Cesar, de São Paulo (SP), a justificativa costuma vir sustentada por argumentos do tipo "ele vai prestar vestibular este ano e o divórcio pode prejudicá-lo", "ela é muito pequena e vai ficar traumatizada" ou "agora não é um bom momento, eles acabaram de mudar de escola e estão se adaptando".

Na prática, porém, é uma decisão que não costuma fazer bem aos envolvidos - muitos menos às crianças e aos adolescentes. "Alegações assim costumam aparecer como 'desculpas' nem sempre totalmente desprovidas de fundamento, mas cujo objetivo, no fundo, é postergar a decisão de encerrar o casamento por conta do medo, da insegurança ou do comodismo", afirma a psicoterapeuta.

Muitos casais permanecem numa situação extremamente infeliz com medo de enfrentar o novo, o desconhecido. Bate o medo de abandonar a estrutura já montada e consolidada da família que, mesmo infeliz, representa sua identidade social e sua sustentabilidade emocional.

Para Joselene L. Alvim, psicóloga clínica especialista em neuropsicologia, procrastinar uma separação em um dado momento pode ser uma decisão boa. "O problema é quando os adiamentos e desculpas são constantes, porque as pessoas acham que o tempo irá resolver o que de fato é responsabilidade do casal. Assim, adiar até pode trazer alívio, mas temporário", diz. As consequências só fragilizam ainda mais o relacionamento e trazem sentimento de culpa, aumento da ansiedade e de conflitos entre o casal. "Isso influencia negativamente na vida pessoal de cada um, na dinâmica familiar e, em especial, na rotina dos filhos, que convivem diariamente sob um clima tenso, que, pelo prolongamento, pode desencadear somatizações", diz Joselene.

As mágoas e os ressentimentos vão se acumulando e a raiva e a insatisfação passam a minar os parceiros por dentro. Ambos podem até adoecer, física ou emocionalmente, ou em algum momento "explodirem" - o que acaba sendo pior para todos, inclusive e principalmente para os filhos.

Crianças entendem sim

Alguns casais acreditam que a inocência e a falta de maturidade das crianças faz com que elas não percebam o que acontece entre eles. Só que mesmo quando não existem brigas nem confrontos verbais, é possível que notem, sim, o que vem ocorrendo. "A comunicação não se dá apenas pela fala. Existe toda uma aprendizagem não verbal, de gestos e expressões faciais e corporais, que a criança é capaz de assimilar e que 'grita' muito mais do que palavras. Sentir o clima ruim sem que isso seja explicado ou nomeado faz com que os pequenos acabem fantasiando a situação e, inclusive, passem a se culpar por tudo aquilo que está havendo com os pais", afirma a psicopedagoga Luciana Brites, da clínica NeuroSaber, de Londrina (PR). "Os pais tendem a achar que mantendo uma relação amistosa os filhos não irão perceber que há uma crise. Isso é um grande engano, pois mesmo antes de ocorrer a separação de fato, a separação emocional já é perceptível através das relações conflituosas ou do clima tenso entre ambos, mesmo que o casal permaneça em silêncio", diz Joselene.

Crianças e adolescentes nessas circunstâncias costumam ficar confusos com a falta de coerência entre o que percebem e o que é falado. "Isso pode inclusive, em alguns casos, causar um problema sério na estruturação da personalidade infantil, relacionada à percepção. Crianças obrigadas a viver uma espécie de 'faz de conta' provavelmente irão reproduzir esses comportamentos aprendidos na fase adulta, podendo adotar um padrão de não enfrentamento da realidade e de fuga dos problemas" afirma Carmem. Entre as maiores consequências sérias, podem se tornar adultos que não sabem lidar com os altos e baixos da vida.

Não há um padrão de comportamento de crianças e adolescentes após uma separação. A maneira como cada um irá reagir e se ajustar à nova realidade dependerá diretamente de como os pais lidam com o rompimento, de como interagem entre si e com os filhos, e como estes percebem e elaboram a separação. "Os pais devem explicar, de acordo com a fase de desenvolvimento dos filhos, que eles não foram a causa da separação. E, ainda, respeitar o tempo emocional de cada um para elaborar a situação e transmitir segurança e amor. E deixar claro que a separação será entre homem e mulher e não do pai e da mãe em relação aos filhos. Ao contrário do que se pensa, a quantidade e a qualidade da relação com os filhos podem melhorar após o divórcio, criando oportunidades nunca antes imaginadas", diz Joselene.

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