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Maioria dos casais não são alma gêmea e isso não é problema, diz Luiz Hanns

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Imagem: Getty Images

Andressa Rovani

De Universa

13/07/2020 04h00Atualizada em 13/07/2020 10h31

O que faz com que um casamento dê certo e seja satisfatório para ambas as partes? Para o doutor em psicologia clínica pela PUC-SP e autor do livro "A Equação no Casamento - o que pode (ou não) ser mudado na sua relação", Luiz Hanns, seis pontos principais podem ser avaliados -e alguns, melhorados- para se definir a afinidade entre duas pessoas.

"Complementaridade psicológica, consenso sobre várias áreas, atração, o estresse individual que contamina o casamento, o quanto cada um investe ou não no projeto e competências para o convívio são pontos que têm que ser alinhados pelo casal. A maioria dos casais não tem tudo isso", diz ele.

Mas parte dessas questões pode ser trabalhada. "A maioria dos casais não tem uma complementaridade ideal, não é alma gêmea", aponta. Hanns diz que, por exemplo, um casal pode ser complementar psicologicamente, mas sexualmente suas fantasias não baterem.

Hanns vai tratar deste tema de hoje até quinta, ao vivo, às 20h, no curso gratuito "Casamento: a arte de conviver a dois", sobre recursos para cuidar de relacionamento. As aulas já contam com 60 mil alunos cadastrados e a inscrição pode ser feita no site da Casa do Saber.

Para Universa, ele conta um pouco sobre o que discutirá nas aulas e aponta alguns caminhos para quem quer fazer o relacionamento dar certo. Leia a seguir, trechos da entrevista.

UNIVERSA: Com sua experiência clínica, podemos definir por que, em geral, um casamento acaba?

HANNS: O que define a satisfação alta ou baixa de um casamento —pode não ser um casamento formal, pode ser uma coabitação, pode ser um casal hetero ou homossexual—, é uma equação de como seis itens se relacionam nessa dinâmica e, dependendo disso, indicam que casamento vai acabar ou continuar. Os seis itens são os seguintes:

1- Complementaridade psicológica - se as características de um complementam as de outro. A maioria dos casais não tem uma complementaridade ideal, não é alma gêmea. Isso não é um problema. As pessoas são complementares em alguns setores do funcionamento psíquico e não em outros. Por exemplo, uma pessoa pode ter uma extroversão, que é muito compensatória para o outro, que é mais tímido. Ele pega carona na sociabilidade do parceiro. Ou ele pode ter uma extroversão que atropela e irrita o outro, que é mais recatado. Essas características podem ser tóxicas para outro e irritar ou não.

2 - Grau de concordância que o casal tem em quatro áreas principais:

  • gostos e afinidades: um intelectual quer livros e é sedentário, outro é esportivo e gosta de filmes de ação;
  • projetos de vida, por exemplo ter filhos;
  • os valores: um pode achar fundamental trabalhar duro e formar um patrimônio, outro não;
  • os consensos, que é onde tem mais conflitos, que são regras de direitos e deveres do convívio. Um acha que é o outro que tem que trocar fralda do bebê, e por aí afora. Esse grau de com senso pode ser elevado e tornar muito agradável a convivência.

Já a afinidade é uma área de vibração fora da cama, onde o prazer acontece, em que a gente vibra junto.

Quando a cama não é muito boa e não tem afinidade de interesse, a gente pode até ter uma aliança de projetos de vida, mas não tem a diversão da vibração conjunta. Então a equação vai combinando vários itens, tornando um casamento muito interessante ou não.

3 - A atração em geral e sexual - tem casais que combinam muito, mais ou menos, ou pouco. Você tem a química de pele, química sexual, você tem a habilidade de cada um na cama, você tem o quanto confluem nas fantasias um com o outro. O quanto cada um é capaz de criar um clima, ter de sedução, erotismo, não só na sexta à noite antes da transa, ou na meia hora da transa, mas no convívio. Tudo isso vai compondo a satisfação ou a insatisfação sexual.

4 - Grau de estresse individual de cada um e de gratificações fora do casamento - uma pessoa que tem uma vida muito gratificante, se sente um bom pai, uma boa mãe, tem boa relação com a família de origem, se sente bem com a própria aparência, tende a ser mais leve no casamento, exigir menos do cônjuge e tolerar mais as imperfeições

5 - O projeto de família - é uma questão filosófica, psicológica, cultural, de como cada um encara o casamento, o quanto cada um valoriza o projeto e está disposto a fazer dar certo.

6 - As competências para o convívio a dois - antigamente os casais não precisavam muito disso. Isso está discutido no meu livro "A equação do Casamento": é preciso saber quando ceder, saber se comportar dentro de uma relação. A maioria dos casais não conhece essas regras. E tem ainda a conexão emocional entre os dois. Quando isso existe, todo o resto costuma caminhar mais. Esse é um item que a vasta maioria das pessoas pode aprender a melhorar. Quando elas fazem isso, acontece uma coisa interessante: eles aprendem a lidar. A gente ensina isso em terapia de casal, a lidar com dificuldades sexuais, com coisas que irritam na personalidade do outro.

O psicoterapeuta Luiz Hanns - Patricia Stavis/Divulgação - Patricia Stavis/Divulgação
O psicoterapeuta Luiz Hanns
Imagem: Patricia Stavis/Divulgação

Quais as principais queixas dos casais no consultório?

As principais queixas acabam sendo os casos de infidelidade. Em países não machistas, é quase igual a parcela de homens e mulheres que desejam ter um caso extraconjugal e têm dificuldade com a monogamia por 20, 30, 40 anos. Entretanto, em países mais machistas, as mulheres são mais reprimidas e os homens acabam praticando mais a infidelidade. Outra queixa comum é a sexual, a vida sexual vai ficando muito empobrecida.

Mas o maior problema é um desalinhamento no segundo fator, que são os consensos. Não tanto nos gostos, mas na falta de afinidade e interesse na relação. A relação vai ficando sem graça, o casal percebe que não tem muito em comum. E a queixa que mais gera briga são as regras de convívio. Se a sogra tem direito de nos visitar toda semana, divisão de trabalho em casa. É preciso sempre responder mantendo uma certa etiqueta.

A ascensão da independência feminina é um fator de risco para o padrão de relação que temos no Brasil?

Sem dúvida, o fato de a mulher ter direitos iguais, pelo menos juridicamente, mudou muita coisa. Não é a única mudança que levou o casamento a se tornar um empreendimento mais desafiador, mas é uma. Antes, até 1988 o homem era o chefe da família e mandava. Hoje, não manda, pelo menos não juridicamente. Isso ainda é muito, muito difícil de ser alinhado num casamento. No Brasil, talvez nos centros urbanos, nas classes médias, tem um avanço maior.

Mas há ainda um machismo estrutural que massacra muitas mulheres. E os homens não estão sabendo também lidar com isso.

Estão desorientados, assustados, antiquados, então é um motivo sim, de aumento muito grande da taxa de divórcios e de insatisfação.

Costumamos dizer em uma separação que o casamento não deu certo. Na sua opinião, é possível que um casamento acabe, mas tenha dado certo?

Os casais hoje cada vez mais sabem das taxas de divórcio e que o casamento vai ser até quando durar. Mas isso não resolve o problema. Porque se para um de nós o ciclo se encerrou de uma maneira mais natural, para o outro pode não ser o caso, ele pode estar devastado.

Subjetivamente, qualquer coisa que me frustra, ser demitido, acabar um casamento, ser reprovado no ano, para eu não vivenciar isso como uma derrota, tenho que ter um equilíbrio emocional muito grande, ver o que acontece à minha revelia de uma maneira mais positiva. Isso não é algo muito tranquilo para muitas pessoas.

Em um dos seus cursos na Casa do Saber, você ensina que há diferenças grandes entre as expectativas sexuais e afetivas entre um homem e uma mulher, independentemente dos fatores culturais. Casais deveriam ter pactos claros sobre expectativas?

No curso que eu vou dar agora, online, já estamos com quase 60 mil inscritos, nós vamos discutir esses aspectos. Alinhamento de expectativas é uma das aulas. De fato, homens e mulheres casam com expectativas frequentemente diferentes. Antigamente, com os usos e costumes determinando tudo o que acontecia no casamento, as pessoas tinham mais ou menos as mesmas expectativas e podiam estar mais ou menos felizes. E, gostando ou não, era um roteiro conhecido.

Seria ótimo se o casal conseguisse conversar, se conhecer melhor antes e ter uma experiência em que possa elevar as competências de convívio a dois, que envolve diálogo, observação, que ajuda muito a alinhar essas expectativas.
Expectativas desalinhadas vão acumulando frustrações. Elas são centrais.

Para mulher, é comum ter expectativa de uma relação com mais centralidade, mais compartilhamento de intimidade. E para o homem, às vezes, a expectativa é de uma parceria mais em paralelo.

Vamos tratar no curso e trato disso no meu livro também. Quando esse alinhamento acontece, o casal descobre que não consegue formar um consenso e conclui que não faz sentido ficar junto ou consegue negociar de um jeito interessante e formar consenso.

Existe alguma regra de ouro para um casal que deseja se manter casado?

Não tem uma regra de ouro. Mas ajudaria o casal ter se conhecido mais profundamente, conversado sobre sonhos, medos, valores, desejos. Mas se a gente pensar a regra de ouro, as pesquisas são unânimes em duas coisas: é preciso seguir certas regras de etiqueta de convívio, não utilizar comunicações destrutivas, saber falar sobre divergência se transforma qualquer divergência logo numa briga. E a principal é a conexão emocional, que é tema de uma hora inteira de outro curso que será dado na sequência [na Casa do Saber].

O que é exatamente isso de um homem se conectar emocionalmente com a mulher, ou dois homens ou duas mulheres?

A conexão emocional é fundamental. Talvez, se tiver que escolher em tudo isso uma principal chave, é essa, embora ela não seja uma condição suficiente, é uma condição necessária.

Sem ela o resto não vai ser alinhado e as outras competências de convívio não vão funcionar.

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