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Protocolo contra covid em hospital de SP pode separar mãe e bebê após parto

Carol Braga recebe a filha Estella após testar negativo para o coronavírus - Fiorello Films/Divulgação
Carol Braga recebe a filha Estella após testar negativo para o coronavírus Imagem: Fiorello Films/Divulgação

Janaina Garcia

Colaboração para Universa

25/07/2020 04h00

Acupuntura, aromaterapia e uma mudança de médico já perto das 34 semanas. A gestação da pequena Estella foi pensada em detalhes para que ela chegasse ao mundo do jeito mais humanizado possível -mesmo que essa aventura ocorresse durante uma pandemia da qual só deverá ouvir falar, um dia, pelos familiares ou pelos livros de história.

Não era para menos: Carol Braga, a mãe de Estella, queria que seu último parto fosse assim, ela que já é mãe de três filhos de 1, 3 e 17 anos. Ainda que tudo corresse como o desejado até o fim, Estella resolveu iluminar a vida dos pais mais cedo: em vez das tradicionais 40 semanas, deixou o útero materno com 37 semanas e seis dias de vida.

Na correria, o trajeto de Alphaville (Grande São Paulo), onde mora a família, até o hospital no Itaim Bibi, na zona sul da capital paulista, foi feito em meia hora, já tarde da noite, em vez dos 45 minutos usuais. Carol estava em trabalho de parto, com contrações intensas.

"Queria sentir amor, paz, a maior felicidade de completar um ciclo pelo qual eu tanto batalhei", conta a mãe. "Mas, hoje, não gosto nem de pensar, porque me dá muita angústia. Tudo o que não podiam fazer comigo e com ela, já que estávamos há tantos meses completamente juntas, vivenciando cada emoção e sentimento, era chegar e me dizer, como a médica me disse: 'Desculpa, Carol, mas a bebê não vai poder vir para os seus braços'. Eu tinha muita dor, mas nunca vou me esquecer da aflição da médica ao me dizer isso. Aliás, como esquecer um trauma?"

A experiência relatada pela psicóloga infantil Carol Braga, 39, se refere a um protocolo de atendimento a gestantes adotado desde o mês passado pelo hospital e maternidade São Luiz, um dos mais tradicionais do país e com unidades em diferentes regiões da cidade de São Paulo.

Aparentemente, o hospital tentou mirar a pandemia e mitigar riscos de contaminação por coronavírus aos recém-nascidos. Na prática, nas palavras da própria paciente e também de profissionais que lá atendem, acabou acertando e minando a oportunidade de mães terem acesso a seus bebês na chamada "golden hour" ("hora dourada"), momento crucial para fortalecer o vínculo entre ambos, favorecer a amamentação e diminuir riscos à saúde da criança, já que se refere à primeira hora após o nascimento.

Além da paciente, que fez um relato detalhado sobre uma experiência que considera traumatizante, a reportagem de Universa conversou com três profissionais de obstetrícia que atendem na unidade hospitalar e tiveram pacientes, nas últimas semanas, submetidas ao novo protocolo —tanto os que são do corpo clínico do hospital quanto os credenciados.

Os profissionais aceitaram falar sob a condição de anonimato. De acordo com eles, a medida adotada pelo São Luiz exige que a gestante se submeta ao teste de covid-19 dias antes do parto, tomando por base a DPP (data provável do parto), que marca as 40 semanas de gravidez.

Fora desse prazo, a gestante é automaticamente considerada, no ato da internação, positivo para o coronavírus e submetida a um teste molecular cujo resultado fica pronto, em média, dentro de três horas. Se o bebê nascer antes disso, mesmo que a mãe esteja sem sintomas da covid-19, não pode ter contato com a criança até que saia o resultado.

Em nota, o hospital informou ter adotado "rígidos protocolos preconizados pela OMS e Ministério da Saúde", desde o início da pandemia, mas admitiu que o contato pele a pele entre mãe e bebê fica impedido caso o exame não tenha sido finalizado antes do parto.

"Soubemos do protocolo por grupos de WhatsApp"

"Eu ainda não passei diretamente por isso, com pacientes minhas, porque, após me certificar com o hospital de que esse protocolo estava mesmo vigente -ou seja, tratando todas as gestantes sem teste dentro da validade de cinco dias como positivas para a covid-, encaminhei uma paciente que poderia ter o parto em uma hora para outra maternidade, porque esse teste nem sempre sai em três horas: pode atrasar", diz um médico que atende na unidade do São Luiz no Itaim.

"Isso fere tudo o que a gente trabalha na humanização, em que o resultado é justamente o fortalecimento do vínculo mãe/bebê por meio desse primeiro contato primordial entre eles. E não houve um comunicado oficial do hospital a nós, médicos, sobre isso: muitos soubemos do protocolo por grupos de WhatsApp", afirma o médico.

"Nem a OMS orienta que se separem mãe e bebê"

Outra médica, uma obstetra, também sem se identificar por receio de retaliações profissionais, reforçou a queixa sobre uma suposta falta de notificação formal prévia do hospital, "nem mesmo por email", a respeito do novo protocolo -adotado tanto com pacientes particulares quanto com os de convênios.

"Desde que isso mudou, orientei duas pacientes a irem a outra maternidade: de uma, o teste de covid tinha acabado de vencer; da outra, ainda não havia saído o resultado. Creio que o maior prejuízo é por um protocolo que não se fundamenta em medicina baseada em evidência. Nem mesmo a OMS [Organização Mundial da Saúde] orienta que se separem mãe e bebê em casos de covid, mesmo que a mulher esteja doente. A mãe deve usar máscara, para evitar troca de perdigotos, e álcool gel, para higienizar as mãos, e então amamentar. Por que quando nasce, apenas, não pode? Não faz o menor sentido", queixa-se a médica.

Uma terceira paciente dessa médica, encaminhada ao São Luiz, teve de ser levada para a sala de parto sem saber se havia testado positivo ou negativo para o coronavírus: o teste também estava fora da validade de cinco dias exigida pelo hospital.

"Fomos pra uma sala envelopada, com todo mundo paramentado, parecendo uns astronautas, como se a paciente estivesse com covid. Ela mesma foi obrigada a usar máscara durante todo o parto. Ainda bem que o resultado do teste dela, negativo, saiu antes de o bebê nascer. Mas ficava aquela sensação de que, se nascesse muito rápido, não poderia ter contato com o filho. Não deixa de ser uma violência", diz a médica.

Para a profissional, "é compreensível o hospital ter um cuidado" especial diante da pandemia. "Mas não sem base científica, com um protocolo que acaba impondo uma agressão psicológica para a paciente em trabalho de parto e em um contexto nada humanizado."

"Foi muito violento"

Outra médica com gestante encaminhada ao São Luiz não teve a sorte de um exame com resultado antes do parto: a paciente chegou com contrações, fez a coleta para o teste da covid-19 e já teve de ser encaminhada ao centro cirúrgico. O bebê, sentado, teve de vir por cesárea, e não pelo parto natural, como desejava a mãe.

"Fomos pegos de surpresa sobre a validade do teste ter sido mudada para cinco dias, e minha paciente estava a semanas da DPP. Não teve como fazer o exame antes e não quis fazer na admissão, pois chegou com muitas dores. Eu e o pediatra tivemos de conversar com ela e dizer que não concordávamos com a mudança imposta pelo protocolo, além de explicar que isso impediria que ela pegasse o bebê assim que ele nascesse. Entre uma contração e outra, ela deixou fazer a coleta, mas foi tratada como positivo, e o bebê veio antes de ela saber o resultado", conta a médica.

Na sequência, narra a profissional, se passaria uma experiência "horrorosa" para a paciente e os médicos presentes.

"Foi uma coisa horrorosa: assim que o bebê veio, não teve o pele a pele com a mãe. Ele teve de ir a um bercinho a cerca de 2 metros dela, que não se conformava com aquilo. Foi muito chato, muito violento, totalmente na contramão da humanização e, no caso da covid, também das evidências científicas. Em caso de paciente que testasse positivo, só em caso muito grave, de intubação, por exemplo, justificaria não entregar o bebê à mãe, já que a interação estaria comprometida", diz. "Para quem espera o parto humanizado, acredito que passar por isso é viver todo o processo do inferno."

Protocolo só para a mãe

carol braga - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Psicóloga infantil há quase duas décadas, Carol Braga não se considera apenas a mãe que havia planejado o parto humanizado da última filha natural -"ainda quero filhos do coração", justifica —, mas também uma espécie de ativista e estudiosa da causa.

"O parto pode ser um dos maiores traumas do ser humano, então, a humanização faz toda a diferença para o bebê se sentir aconchegado, amado, seguro ao chegar a esse universo tão diferente de onde ele estava, ideal em luz, calor e alimento", define. "Como na minha primeira filha eu não tinha ainda esse conhecimento, ela nasceu por uma cesárea tradicional. No segundo e terceiro filhos, busquei isso."

Carol conta que trocou de médico ao atingir 34 semanas porque queria se sentir mais segura de que sua escolha seria respeitada. "Eu tinha muita certeza do que eu queria e estava de fato realizada com o olhar da nova médica, com os rumos tomados, e, depois, com o trabalho de parto em que eu entrava: era a primeira vez que isso me acontecia, mas não teve como ser parto normal porque ocorreu o prolapso do cordão umbilical [ocorre quando o cordão umbilical sai do útero antes do feto]", lamenta.

No meio das dores das contrações, veio a notícia, da equipe médica, de que ela não poderia ter contato com a bebê até que saísse o resultado do exame. Ou seja, até que se provasse que ela não era positivo para o coronavírus.

"Eu lembro de ter dito à médica: 'Não fala isso para mim, não faz isso, ela vai nascer de dentro de mim'. Não fizeram teste no meu marido, que ficou comigo, nem com o casal de fotógrafos que acompanhou o parto. Se de fato a maternidade estivesse preocupada com a doença, com o bem-estar físico meu e da minha bebê, teria que seguir o protocolo com todos. Mas minha filha estava a 30, 50 cm de mim sendo tocada por todos, menos por mim, por quase duas horas", conta a mãe.

"Pedi à médica que conversasse com a minha filha e pedisse desculpas, que explicasse que ela tinha nascido em um mundo muito confuso, mas que ela era muito amada. Chorei muito de estar vivendo aquilo. Me senti culpada, pensando que poderia ter buscado outra instituição, e chateada por saber que aquele era um protocolo vazio, já que só eu fui testada. Foi uma mistura de raiva com culpa."

O pediatra que acompanhou o parto ainda conseguiu uma resposta para o teste, negativo, 40 minutos antes do prazo de três horas. O resultado foi recebido com palmas na sala. E Estella, finalmente, foi para o peito materno. "Foi como se estivessem me devolvendo o direito de amar."

Violência obstétrica e afronta a direitos das mulheres

A partir dos relatos ouvidos pela reportagem, a advogada Ruth Rodrigues, do coletivo Nascer Direito, avalia que a portaria do hospital em São Paulo incorre em violência obstétrica ao "desconsiderar portarias do Ministério da Saúde e mesmo orientações da OMS" que preconizam a amamentação do bebê na primeira hora de vida como direito recíproco dele e da mãe.

No mês passado, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, fez um apelo para que as mães que já tenham contraído a covid-19, a menos que apresentem sintomas, sigam amamentando os filhos. "Os benefícios de oferecer o peito superam qualquer possível risco de transmissão da covid-19", disse.

O coletivo que a advogada preside lida com o enfrentamento à violência obstétrica por meio de orientações jurídicas e de saúde. No caso do São Luiz, ela afirma não ver fundamentação jurídica para a aplicação do protocolo alvo de críticas.

"Há uma série de portarias do Ministério da Saúde que colocam medidas de assistência e boas práticas ao recém-nascido nas quais ações de humanização, como o contato pele a pele e a amamentação na primeira hora, estão previstos", afirma.

A ativista reforça que um dos conceitos da violência obstétrica é o de "patologização excessiva dos processos naturais", à medida que isso traz "mais malefícios que benefícios" aos envolvidos.

"Se obrigam a gestante a fazer o teste para a covid-19, deveriam obrigar que todos da sala de parto façam o mesmo. No caso dessa mãe, acaba valendo a inversão da presunção da inocência: até que se prove o contrário, ela é positivo para o vírus, e o filho é afastado dela. É ilógico e uma afronta a direitos e garantias fundamentais das mulheres, pois dizem respeito à dignidade da pessoa e à autonomia daquela paciente."

Hospital diz seguir protocolos da OMS

A reportagem de Universa procurou a Rede D'Or São Luiz após conversar com a mãe e com os três médicos que atendem na unidade Itaim.

A assessoria de imprensa da Rede D'Or São Luiz informou, por meio de duas notas, que a unidade Itaim "vem seguindo, desde o início da pandemia pelo novo coronavírus, rígidos protocolos preconizados pela OMS e Ministério da Saúde", sem especificar quais, e "visando a saúde e bem-estar da gestante e dos recém-nascidos".

"A unidade reforça que, caso a paciente interne com urgência sem a realização prévia do teste de covid-19, é feito o teste molecular com resultado em até três horas. Como o trabalho de parto é longo, em geral, o resultado é liberado em tempo hábil. Entretanto, mesmo se a parturiente chegar parindo, o bebê permanece todo o tempo junto com a mãe [ou seja, na mesma sala que ela], sendo recomendado aguardar o resultado para realizar o primeiro contato pele a pele. O Hospital São Luiz, unidade Itaim, recomenda que a parturiente não deixe para procurar a maternidade em fase muito avançada, pois desta forma será possível realizar o teste", informa uma das notas.

O hospital não comentou as alegações de suposta violência obstétrica, embora tenha admitido vetar contato pele a pele entre mãe e bebê se o resultado para a covid não tiver ficado pronto a tempo. Para o São Luiz, no entanto, ambos já ficam na mesma sala.

Direitos da mulher