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Mães e filhos

Fim do casamento: como contar para os filhos, conforme a idade

Crianças e adolescentes não devem ser ignorados na separação dos pais. Mas cada idade e perfil precisam de uma abordagem adequada - Crédito:Goodboy Picture Company
Crianças e adolescentes não devem ser ignorados na separação dos pais. Mas cada idade e perfil precisam de uma abordagem adequada Imagem: Crédito:Goodboy Picture Company

Claudia Dias

Colaboração para Universa

06/07/2020 04h00

Se a separação já é um processo dolorido para o casal, a hora de comunicar a decisão aos filhos tende a reforçar o clima tenso. Afinal, não é fácil oficializar a mudança que vai afetar a vida de todos os membros da família. Algo, porém, é certo: crianças e adolescentes não devem ser ignorados. No devido momento, de acordo com faixa etária e personalidades, eles precisam ser informados sobre a situação. Isso vale para todos: até crianças de 2 anos de idade já são capazes de compreender que os pais não vão mais viver juntos. Obviamente, cada fase e cada perfil precisam de uma abordagem adequada.

"É importante ressaltar que a boa comunicação não é só o que é dito ao anunciar a separação, mas, principalmente, como a nova configuração familiar e rotina serão conduzidas. Nossas ações comunicam muito para os filhos", diz Renata Ishida, psicóloga e coordenadora pedagógica do conteúdo do Laboratório Inteligência de Vida (LIV).

Não há receita de bolo: o desenrolar do diálogo vai depender não apenas da relação e do emocional dos pais, mas também da dinâmica familiar. Se os adultos estão seguros da decisão e, dentro do possível, emocionalmente estáveis, podem os dois, juntos, contarem aos filhos, pois é algo que definiram em dupla. "Já quando a situação é muito mais tensa, dramática e as coisas estão mais difíceis para um do que para outro, existe a possibilidade da medição de uma terceira pessoa, que pode ser um terapeuta ou alguém já preparado para lidar com situações do gênero", afirma Deborah Moss, neuropsicóloga especialista em psicologia do desenvolvimento.

Abordagem adequada à cada fase

Até por volta dos 10 anos, a melhor forma de abordar assuntos difíceis com crianças é por meio da atividade lúdica. "A brincadeira é o principal meio pelo qual a criança se expressa, expõe suas angústias e elabora seus conflitos", comenta Marjorie Rodrigues Wanderley, mestre em psicologia e professora da Estácio Curitiba. Os pais podem aproveitar a hora da recreação para expor o assunto da separação e deixar que a criança guie a conversa através da atividade. Os brinquedos, aliás, são meios para o filho pequeno se expressar, inclusive revelando eventuais angústias.

A seguir, listamos, fase a fase, a forma mais recomendada de conversar com os filhos.

Por volta dos 2 anos: com essa idade, a criança já apresenta certo entendimento e começa a ter raciocínio e linguagem. Se ainda está desenvolvendo sua capacidade de verbalização, os pais podem recorrer a brinquedos, bonecos e animais de pelúcia para exemplificar como será a nova dinâmica. "Não precisa ser com muita antecedência, pois a noção de tempo é diferente, mas é importante mostrar para ela onde o pai ou mãe vai morar, onde ela vai ficar quando for à casa nova. Tudo deve ser mostrado de forma concreta, minimamente antecipada, de forma transparente e honesta, numa linguagem infantil", detalha Deborah.

De 3 a 7 anos: é quando os pequenos tendem a ser muito autocentradas. Por isso, ao conversar, é importante que fique claro que elas não são as responsáveis pela separação. "Procurar estabelecer uma rotina previsível e consistente pode trazer mais conforto e segurança para a criança", reforça Renata. Nessa faixa etária, também é recorrente o filho apresentar algum tipo de "regressão" - voltar a ter comportamentos que já tinha abandonado, como fazer xixi na cama ou ataques de birra.

De 7 a 10 anos: eles já conseguem entender melhor o que está acontecendo e podem fazer mais perguntas sobre a situação, o que exige uma comunicação mais objetiva. Da mesma forma, vale aproveitar os momentos de interação entre a família (jogos em grupo, por exemplo), para abordar o assunto. "Aqui, também encontramos casos de somatização: comportamentos agressivos, dores de barriga e cabeça e mudança no apetite podem ser sinais de que a criança não está tão bem com a situação", lista Renata. Como tais indícios podem aparecer na escola, é importante comunicar os educadores sobre o momento que a família está passando.

Dos 11 anos em diante: com a chegada da adolescência, os filhos podem se sentir mais autorizados a criticar e questionar. A conversa deve ser aberta, franca e honesta. "É importante continuar com o canal aberto para a conversa e acolhimento, mas também ficar atento que nem todo sinal de angústia, dúvida ou oscilação de humor está relacionado ao divórcio. É uma fase de muita turbulência, tanto pelas modificações físicas e hormonais, quanto pelas expectativas e pressões da sociedade", lembra a psicóloga do LIV. Manter-se sempre disponível para o diálogo e incluir o adolescente na construção da nova rotina são atitudes que vão fortalecer o sentimento de que ele é respeitado e ouvido.

Quando filhos não aceitam situação

Verdade seja dita, pode ser que a turminha não aceite a decisão dos pais. Isso tende a se mostrar de diferentes formas: resistência em ir para a casa de quem se mudou, comportamento agressivo e chantagem, por exemplo. "É importante ter paciência, porque a elaboração da nossa situação exige tempo e o processo de cada criança pode ter um período diferente", avisa Renata Ishida.

Segundo ela, não raro essa não aceitação prolongada acontecer porque a criança percebe o impacto que suas manifestações têm na vida e nas escolhas de seus pais. "É importante que os adultos consigam deixar claro que essa decisão é tomada apenas pelos pais e não mudará, independentemente da vontade dos filhos", pontua.

Aliás, é importante que os adultos não se sintam culpados por possíveis reações negativas dos filhos. Em vez disso, devem procurar entender qual a melhor saída, levando em conta as particularidades de cada um dos filhos e da dinâmica familiar. Paralelo a esse posicionamento, é imprescindível acolher e legitimar os sentimentos dos filhos ajudando a nomeá-los, quando não for evidente. Se a situação persistir ou agravar, vale buscar ajuda profissional.

Erros que pais devem evitar

  • Conversar com filhos quando não estão emocionalmente bem: se os adultos não se mostrarem serenos, podem tornar tudo mais pesado para os filhos.
  • Jogar um contra o outro: falar mal do pai ou da mãe e se colocar como vítima são informações que não cabem às crianças.
  • Dar presentes: não faz o menor sentido adotar essa prática, porque não se trata de uma relação de troca, de estar tirando algo para por outra coisa no lugar.
  • Não ter cenário definido: é importante ter respostas para questionamentos do tipo: "Onde vou morar?", "Com quem vou ficar?", "Terei que mudar de escola?". Os pais precisam ter a nova rotina clara antes de conversar com filhos.
  • Alienação parental, ou seja, quando pais, avós ou pessoas de convívio das crianças e adolescentes adotam atitudes que prejudicam o vínculo do filho com um dos pais - desqualificando, acusando de algo ou negando o acesso de forma ilegal, entre outras situações.
  • Mentir: nem tudo precisa ser dito para a criança - pode-se ser omitido o que não interessa a ela. Mas inventar histórias para esconder a separação pode ser perigoso.
  • Compartilhar informações íntimas: trazer à tona questões ligadas à intimidade do casal não fazem sentido. Casos de traição, por exemplo, não devem ser colocados, a não ser que surjam perguntas a respeito, entre adolescentes. Mesmo assim, deve haver cuidado em falar a verdade, sem expor dados relacionados à sexualidade e à vida privada dos pais.

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