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#JustiçaPorTodasNós: no Twitter, jovens usam hashtag para relatar abusos

Ativista do movimento feminista Marcha das Vadias - Adriano Vizoni/Folhapress
Ativista do movimento feminista Marcha das Vadias Imagem: Adriano Vizoni/Folhapress

Ana Bardella

De Universa

25/05/2020 10h29

"Foi um dos piores dias da minha vida. Quem estava lá sabe o que aconteceu": no último final de semana, um relato de suposto abuso sexual no Twitter inflamou a rede social e incentivou outras adolescentes a relatarem suas experiências através da internet.

Uma jovem usou o espaço para contar aos seguidores sua experiência, alegando que durante a festa de aniversário de uma amiga no ano passado, ingeriu uma quantidade grande de bebidas alcoólicas e foi violentada por um rapaz que era de sua confiança.

Segundo o que escreveu, os dois já tinham se beijado naquela noite, mas quando seu estado de consciência ficou mais alterado, ele a levou para um local afastado dos demais, dizendo que iria cuidar dela. Com a garota deitada em uma rede e sem forças para abrir os olhos, ele teria passado as mãos sobre os seus seios e a penetrado com os dedos.

"Vocês não sabem o que é passar por isso e ver pessoas postando foto com a pessoa elogiando, fingindo que nunca aconteceu. Eu não quero saber se você 'fala com ele por educação', não me procura mais. Eu prefiro ficar sozinha do que ter a amizade de pessoas que me viram sofrendo e não fizeram nada", disse.

Ela preferiu não expor o nome do agressor e explicou os motivos pelos quais não registrou boletim de ocorrência: demorou para tomar coragem e contar sobre o que aconteceu para os seus pais. Depois que conseguiu fazer isso, não era mais possível realizar o exame de corpo de delito e "seria sua palavra contra a dele".

Por isso, mesmo sofrendo as consequências do suposto abuso e relatando ter crises de ansiedade, problemas para dormir, preferiu não procurar as autoridades.

Uma denúncia leva à outra

Na semana passada, uma menina de 14 anos também usou as redes sociais para relatar um caso semelhante: após a ingestão de bebidas alcoólicas, ela afirmou ter sido violentada por um rapaz de 19 anos, em Niterói. Fotos do suposto responsável pelo crime começaram a circular pela internet.

Na noite de ontem, mais um texto ganhou visibilidade: uma adolescente de 16 anos disse ter sido convencida por um colega a enviar fotos íntimas a ele. Pouco tempo depois, as imagens se espalharam pela escola, levando-a a ser discriminada e, desde então, se isolar.

"Eu tinha 13 anos e não sabia como reagir. O único jeito foi me isolando de todos, me culpando, me odiando a cada dia, cada vez mais. E as pessoas ao meu redor me julgavam, só xingavam. Nunca pararam para pensar quem foi o errado da história", ela escreveu.

#JustiçaPorTodasNós

Comovidas com os relatos, mais adolescentes decidiram contar seus casos, alguns sobre relacionamentos abusivos, outros sobre abusos sexuais. Por causa deles, surgiu a hashtag #JustiçaPorTodasNós:

Os perigos da exposição na internet

O abuso sexual é um crime que se alimenta de silêncio. Logo, falar sobre ele é necessário. No entanto, a advogada e psicanalista Vanessa Paiva orienta que denunciá-lo pela internet pode ser perigoso, em especial às meninas com pouca idade. "O meio mais seguro de se fazer uma denúncia é através dos órgãos oficiais, via boletim de ocorrência", relembra.

Isso porque todos os crimes precisam passar pelo processo de comprovação. Ainda que tenham acontecido exatamente da maneira como relatado pela internet, escrever um texto apontando alguém como culpado sem ter provas pode transformar, perante a lei, a vítima em culpada.

"Atendi um caso no qual uma menina disse ter sido violentada por um colega durante uma festa. Ela relatou o que aconteceu para os amigos da escola e pediu que eles se afastassem do rapaz, mas não registrou queixa. Quando soube do acontecimento, a família do menino entrou com um processo. A defesa não foi possível por que a jovem não havia seguido os procedimentos corretos de denúncia. No final, seus pais precisaram pedir desculpas aos pais do suposto assediador por difamação. Ela mudou de escola e ele segue convivendo normalmente com os demais", exemplificou.

Ainda que a queixa não seja feita no dia ou na semana seguinte, quando ainda é possível encontrar evidências do assédio via exame de corpo de delito, Vanessa garante que é seguro denunciar. "A polícia possui outras formas de investigação. Até a linguagem corporal dos envolvidos é analisada para saber quem está mentindo", aponta. Além disso, testemunhas e outros envolvidos podem ser ouvidos no decorrer do processo.

Abalos psicológicos

A profissional também chama atenção para os possíveis abalos psicológicos que uma denúncia feita pela internet pode causar às jovens. "Além de fragilizadas pelo crime, ao se exporem, as vítimas tendem a receber tanto apoio quanto críticas". O crime de abuso sexual é permeado pelo machismo: logo, ao ler um relato do tipo, muitas pessoas podem questioná-las sobre a veracidade dos fatos, perguntando até o que elas fizeram para provocar a situação e colocando a culpa do crime nas suas costas.

O fato de serem desacreditadas, mesmo que por uma minoria, é uma fonte inesgotável de dor. "É por causa disso que muitas mulheres, jovens e adultas, desenvolvem transtornos de personalidade ou doenças como depressão", assegura. Logo, por mais que o caminho de denunciar o abusador pelas redes sociais e fazer "justiça com as próprias mãos" seja tentador, ele pode trazer mais malefícios do que benefícios.

"O ideal seria que estas jovens pudessem fazer a denúncia para seus pais. Se não for possível, conversar com instituições que possam oferecer suporte a fim de que relatem o acontecimento para as autoridades e tenham o acompanhamento necessário para se recuperarem psicologicamente de forma segura", aconselha.

Violência contra a mulher