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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


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Conheça 3 mulheres da zona leste de SP que ajudaram a criar o SUS

A auxiliar de enfermagem aposentada Dalva da Silva - Arquivo Pessoal
A auxiliar de enfermagem aposentada Dalva da Silva Imagem: Arquivo Pessoal

Lívia Lima*

Do coletivo Nós, mulheres da periferia

04/05/2020 04h00Atualizada em 06/05/2020 16h02

Em meio à pandemia de coronavírus, não são poucos os profissionais que enaltecem a existência de um sistema público de saúde com cobertura tão ampla num momento tão crítico. Passados 32 anos de sua criação, o SUS continua sendo um modelo de política pública do setor em todo o mundo. A presença dele, inclusive, faz com que o Brasil seja um dos cinco países do mundo que tratam a saúde como um direito universal e gratuito.

Falar do início desta política é, automaticamente, remeter à atuação de um conjunto aguerrido de mulheres periféricas. Mobilizadas por mais direito à saúde em seus próprios bairros, essas mulheres foram as grandes responsáveis pela criação dos primeiros equipamentos públicos de saúde nos bairros periféricos de São Paulo.

Foi na zona leste de São Paulo que foram criados os primeiros conselhos de saúde, que poucos anos depois se tornaram relevantes para a concepção e construção do SUS (Sistema Único de Saúde). Na década de 1970, teve início o Movimento de Saúde da Zona Leste -que mais tarde se tornaria um dos principais pilares da construção popular do SUS, criado em 1988, dentro do pacote de transformações sociais trazido pela Constituição Federal.

Antes da criação do SUS, apenas aqueles que tinham emprego formal e carteira assinada, e, portanto, estavam inseridos no mercado financeiro de trabalho, tinham acesso à saúde. Até então, o serviço não era oferecido diretamente pelo Estado, mas por meio de fundos de aposentadoria. O resultado disso era a intensificação das desigualdades, já que só tinha direito aos cuidados no setor quem contribuía com a Previdência.

Dois grandes fatos foram fundamentais para o que aconteceu a partir da zona leste da capital paulista e se estendeu para as outras regiões periféricas: um deles foi a presença da Igreja Católica nos bairros, com a criação das Comunidades Eclesiais de Base. O outro, a atuação dos médicos que pensaram, junto às comunidades, uma reforma sanitária para o país.

Jovens médicos que foram atuar nos postos públicos da zona leste tornaram-se militantes da causa, junto de donas de casa. Inspirados pelo sistema de saúde do Reino Unido, que previa a igualdade de acesso à população, instalou-se a noção do direito à saúde para toda a população.

O primeiro conselho de saúde do país

Em 1979, nascia no Jardim Nordeste, no distrito de Artur Alvim, o primeiro Conselho de Saúde do país, eleito pelos mais de 8.000 moradores. A iniciativa se alastrou, os conselhos das suas regiões passaram a realizar eleições unificadas e, com isso, ampliar a luta por saúde em toda a cidade de São Paulo.

Dona Teresa - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A agente comunitária aposentada Teresa Mariano
Imagem: Arquivo Pessoal
Até 1988, quando nasce legalmente o SUS, o Movimento de Saúde da Zona Leste realizou diversos eventos públicos com grande participação da população. Eram encontros para oficialização das reivindicações do povo e também tentativas de unificação do movimento em toda a cidade.

Donas de casa e ativistas

A dona de casa Fermina Silva Lopes, 66, moradora de São Miguel Paulista e ainda hoje integrante do Movimento de Saúde da Zona Leste, relembrou durante entrevista à reportagem das primeiras ações coletivas das mulheres que deram origens às formações dos conselhos.

"Eu entrei nos anos 80, mas já tinham muitas mulheres no movimento. Elas lutavam em várias frentes. A gente trabalhava essa questão social escondida dos maridos. Eles iam trabalhar, a gente pegava as crianças e ia pra luta. Desde que, quando chegasse, a comida estivesse pronta, eles jamais saberiam que a gente tinha feito alguma loucura", relembra.

Fermina conta que as primeiras bandeiras foram lideradas pelas mulheres. "Depois veio a luta pelas unidades básicas, na zona leste conseguimos oito unidades. Era época do Jânio Quadros [1986] e ele não queria inaugurar as unidades antes da eleição."

Mesmo assim, as mulheres pintaram plaquinhas de madeira e fizeram a inauguração. Chamaram a TV Globo. "O Jânio quis morrer: tantas unidades fechadas e as mulheres inaugurando, colocando plaquinhas", conta.

Aposentada como auxiliar de enfermagem pela Prefeitura de São Paulo, Dalva da Silva construiu sua trajetória na área da saúde, mas faz questão de se referir a si mesma como artesã. Aos 60 anos, continua trabalhando. Atua em um centro de convivência de idosos em Ermelino Matarazzo, ensinando técnicas e práticas artísticas diversas.

"Nós não tínhamos uma organização, éramos todas donas de casa. Mas na década de 70, a gente começou a se organizar por causa do padre Xavier, que veio pra cá, para o Burgo Paulista. Eu fico emocionada porque a gente tava em plena a ditadura, e esse padre ia de casa em casa pra chamar à reunião, dizia que o bairro precisava de creche, de posto de saúde", diz acessando suas lembranças.

Dalva nunca tinha saído de casa para reuniões deste tipo. Mas ela não só passou a frequentar como a perceber a urgência de tais necessidades. "A periferia estava abandonada, largada", relata. Segundo Dalva, a organização das mulheres incomodava seus companheiros, que nem sempre apoiavam a participação delas em lutas políticas.

Começou a dar briga dentro de casa. Os maridos começaram a ficar bravos, essas mulheres começaram a sair de dentro de casa e seguir o padre. Teve muito conflito

Ela relata que, a partir das reuniões nas igrejas, as mulheres tiveram formações e se engajaram na militância nos movimentos populares. "A gente começa a reivindicar as coisas pro bairro, mas também abre a cabeça. Tinham vários cursos. Vinha gente de outro lugares dar curso de política pra gente. E aí o grupo começou a crescer nesse sentido."
Em relação ao movimento de saúde, Dalva conta que a mobilização aconteceu para a construção de postos de saúde nos bairros. "Só tinha posto na Penha. Na época não tinha o SUS, só o INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), e só tinha direito quem era registrado em uma empresa. Por isso, entrou o SUS, que era um atendimento universal.

Isso veio depois, com a batalha dos movimentos de saúde para o atendimento ser universalizado", explica.

A partir da organização nas comunidades eclesiais de base, por meio do apoio de Dom Angélico, bispo da diocese de São Miguel Paulista, que teve forte influência no período, muitos moradores da zona leste se engajaram mais na militância política e partidária, dentre eles, Dalva.

"Nossa organização veio com a necessidade do posto de saúde. Mas a gente precisava se organizar para outras coisas também. Não tinha ônibus, merenda de qualidade nas escolas. Por isso, tivemos uma organização muito grande no Partido dos Trabalhadores, mas tudo cresceu dentro da igreja, do movimento popular."

Ela relata que, quando o partido nasceu, foram as primeiras filiadas. "Começamos em um movimento pequenino e acordamos para outras questões. O partido mudou muito, e a gente fica meio saudoso porque a época da nossa militância era muito boa", conta.

Dalva acredita que, mais que atuação política, as mulheres se libertaram. "Na verdade, acho que o grande saldo de tudo isso é que todas aquelas donas de casa, que lavavam, que passavam, mudaram. Mudaram conceitos, formas de vida. Umas se separaram, outras casaram, mas a gente adquiriu outra visão de mundo. Porque, além dessas lutas, dos movimentos, a gente cresceu também, começou a entender que existe dois mundos: o mundo de ricos e o de pobres."

"Foi um movimento de mulheres"

A terceira mulher dessa história, que construiu sua história na luta pela saúde e ajudou a construir o próprio bairro foi Teresa Mariano. Ela é moradora da Vila Industrial desde os 11 anos, quando seus pais saíram do interior do Paraná em busca de oportunidades de trabalho em São Paulo na década de 50.

Foi lá onde se casou, trabalhou, criou seus oito filhos, e hoje, aos 71, ajuda na criação dos 18 netos. Na época em que chegou, a região era praticamente rural. "A área tinha pouquíssimas casas, depois foi crescendo. Não tinha asfalto, luz, a água era de poço." Hoje aposentada, Teresa não era especialista em saúde. Antes de se engajar no movimento, trabalhava como costureira.

Segundo a moradora, desde o início, foi por meio da mobilização da comunidade que a população começou a ter acesso aos seus direitos básicos. "Teve o movimento pelo transporte, que gerou a primeira linha de ônibus para o Parque Dom Pedro. Teve movimento para luz, para escola. Mais a maior luta foi a da saúde", afirma.

"Em 1973 já tinha posto de puericultura, davam vacina e leite para as crianças desnutridas. Aí passou um tempo e fecharam. Ficamos sem nada. Um dia falaram: 'o pessoal tá montando uma comissão para ir ao Palácio do Governo pedir um posto de saúde. Aí eu fui, com a Sociedade Amigos da Vila industrial, reivindicar a abertura do posto. Eles abriram um posto completo, com médico, enfermeira, pediatra. E a gente foi aprendendo como fazer a luta."

A partir das relações entre movimentos de diferentes regiões, Teresa recebeu o convite para participar de um curso e se especializar na área da saúde.

"O curso era do Movimento da Zona Leste. Na época, eu estava em uma situação meio difícil. Fazia pouco tempo que meu marido tinha morrido e eu precisava trabalhar. O curso tinha um salário mínimo para ajudar nos custos para condução e alimentação, aí minha filha, eu me entreguei de corpo e alma para o movimento."

Além da formação dos conselhos de saúde, o movimento iniciou mobilização para a criação de postos de saúde em todas as regiões de São Paulo. "Conseguimos a construção dos postos de saúde e sete bairros."

Depois da inauguração, os participantes do movimento continuaram participando ativamente dos conselhos. "Ter posto é uma coisa, ter qualidade é outra. A gente fazia reunião dentro do posto. Diziam que a gente era espião. A gente fiscalizava o atendimento. A gente prezou pela qualidade do serviço", lembra Teresa.

O movimento se expandia e realizava diversas ações. Passaram a articular os movimentos também na região sudeste, tiveram forte incidência da cidade de São Paulo como um todo.

Teresa lamenta que atualmente o movimento não seja tão intenso. Vítima de uma artrose nas pernas, a aposentada já não consegue sair muito de casa e não participa das reuniões nas UBS.

Hoje, infelizmente, a população não se reúne mais. Temos que nos apropriar, ver como uma conquista. Aquilo ali [os postos] não foi dado, é uma luta bem árdua. O que nós conseguimos foi com organização

Teresa explica que a organização dos movimentos por direitos nos bairros das periferias, era, sobretudo, liderada por mulheres. "Sempre foram mais mulheres. As mulheres têm menos tempo que os homens, mas mais disponibilidade. As mulheres se colocam mais a trabalhar pelo bem geral das coisas. A mulher tem uma compreensão maior das necessidades", afirma.

*O texto do coletivo Nós, mulheres da periferia foi produzido em parceria com o Fundo Brasil de Direitos Humanos

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, o movimento pela saúde se expandiu para o Sudeste da capital, e Teresa se aposentou como agente de apoio da prefeitura.

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