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Em grupo de risco, avós do YouTube criticam governo e se reúnem pelo Zoom

Sônia (no alto), Gilda e Helena: as "Avós da Razão" - Reprodução
Sônia (no alto), Gilda e Helena: as "Avós da Razão" Imagem: Reprodução

Marcos Candido

De Universa

02/05/2020 04h04

"Para mim está tranquilo, estou até fazendo umas economias. A gente não tem gastado muito em boteco", explica Helena Wiechmann, 91, sobre o período em quarentena. Do outro lado da videoconferência estão Sonia Bonetti, 82, e Gilda Bandeira de Mello, 78, respondendo a como driblar a ansiedade causada pela crise do novo coronavírus.

É assim há cerca de dois anos, quando o trio tornou-se estrela do "Avós da Razão".

O trocadilho tem motivo: no Instagram, YouTube e Facebook, elas respondem a perguntas e dão dicas que vão de sexo à política.

O Facebook escolheu o grupo das avós na rede social para ser veiculado em um comercial de abrangência nacional. Na rede, o grupo tem mais de 6.000 membros. A página, 45 mil seguidores. No YouTube, são mais de 30 mil inscritos. No Instagram, 52 mil seguidores.

Os vídeos que lhes deram sucesso eram gravados presencialmente, como um chá da tarde servido à mesa com biscoitos ou um copo de whisky. Com o isolamento para evitar o novo coronavírus, elas aderiram ao Zoom.

"Tem muito velho saracoteando por aí, mas eles estão fazendo mal para si próprios e para os outros", explica Sônia (2 filhos e 7 netos). A mais nova cita escritores para resumir o que pensa. Trabalhou com "muitas coisas", diz. Foi modelo e, por último, dona de um pequeno comércio no mercado de Pinheiros, em São Paulo.

"Para quê eu vou passar por isso se estou confortavelmente bem aqui em casa?", pontua Gilda (2 filhos e 3 netos). A "do meio" tem um rrrrr paulista estralado, sinal da ascendência italiana. Foi figurinista em televisão por mais de 20 anos. Na casa que tanto gosta, tem passado o tempo no ateliê, costurando máscaras de proteção contra o vírus.

Sem medo de polêmicas

As três concordam e discordam sobre inúmeros temas, mas entendem que a culpa não é só do idoso que sai às ruas. O governo não tem ajudado.

"O Mandetta saiu e entrou esse Reicht, Faiche, Teiche, parece alemão. Antes aquele com o nome italiano do que com o nome alemão. É um banana. Até agora o homem não fez nada, falou nada", argumenta Helena, a mais velha das três. (2 filhos e 2 netos).

As amigas dizem a ela que é preconceito julgar o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, pelo sobrenome supostamente alemão, mas Helena não se acanha. "Até meu marido alemão não gostava de alemão", rebate.

O primeiro marido de Helena, a mais velha, era um alemão recrutado para a cavalaria durante a Segunda Guerra Mundial. Foi a contragosto. O país investiu em maquinaria pesada e os cavalos em que montava já não eram tão necessários.

O arquiteto foi atacado por tropas inimigas na região da Hungria e teve a perna amputada. Tinha 19 anos e foi mandado embora para casa. Os pesadelos com o front, porém, lhe perseguiram por toda a vida. Acordava rolando na cama ao lado de Helena e não conseguia assistir a uma reportagem sobre nazismo na televisão sem ter uma crise de ansiedade.

Antes de conhecê-lo, Helena saiu do interior para São Paulo na década de 50 para fugir da rigidez da mãe. Deslumbrou-se pela arquitetura da Estação da Luz. Como falava inglês, tornou-se tradutora de livros e teve acesso a obras literárias. Também produzia entrevistas para uma revista e aproximou-se da classe artística na cidade.

"Fui entrevistar o Lasar Segall. Imagina, eu, uma magricela de óculos. Quando conversou comigo, me disse: menina, não tenho tempo! Vá embora! E me botou para fora. E eu fui", recorda-se. Na mesma época, um amigo cineasta soprou sobre uma vaga nos estúdios de cinema da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Lá, Helena trabalhou como publicitária.

O primeiro marido de Helena foi um artista plástico. O segundo, o arquiteto alemão, morreu dormindo após um jantar. "Só tive homens com sensibilidade, com gosto estético. Quando pequena, minha mãe me chamava de feia. Mas casei com dois maridos que eram estetas. Então eu devo ser bonitinha, não sou?"

A amizade do trio é daquelas que a gente não se lembra exatamente quando começou, mas que se torce para não ter fim. Lembram-se somente de que foram apresentadas por amigos em comum, que os maridos também eram amigos entre si e foram sócios em algum momento em uma fábrica. A relação de camaradagem deles estendeu-se às esposas. Assim ficou.

A ideia de uni-las no vídeo foi da ex-nora Cássia Camargo, que dirige e produz vídeos. A internet veio para dar a liga. E elas não estão sós: de acordo com o IBGE, a terceira idade é a faixa etária que mais cresce no consumo de internet no país. O número de idosos no Brasil, também. Em 2060, a previsão é a de que 32% dos brasileiros tenha mais de 60, conta 13% em 2018.

As gravações feitas por Cássia foram adiadas devido ao novo coronavírus, mas há material gravado das conversas para serem publicados até o final de março. O vídeo mais assistido do canal fala sobre sexo após os 60 anos. Mas há também, entre os mais vistos, vídeos sobre vibradores, consumo de ayahuasca, homossexualidade e ditadura militar.

Nos anos 70, Gilda, a mais nova, era casada com um advogado que defendia presos políticos. Por mais de uma vez, foi levado para ser interrogado. Havia um medo permanente e, lembra-se ela, maior do que o causado hoje pelo coronavírus. A casa onde viviam, na zona sul de São Paulo, era movimentada: faziam questão de garantir o máximo de pessoas circulando para evitar ou coibir uma invasão policial.

Os dois se divorciaram na década de 80 e Gilda conta que viu os amigos se afastarem porque ela havia se tornado uma mulher desquitada. Helena, mesmo com as décadas de conversa, continua a descobrir a amiga. "Poxa, eu nunca soube disso", diz.

Por terem vivido vários enredos na vida, elas têm cautela sobre a nova crise que acontece lá fora, mas não morrem de medo nem desta, nem da próxima. Muitas das personagens de suas histórias, como seus maridos, já morreram.

As três se orgulham, então, do tempo que tiveram para embarcar na nova aventura virtual. "Gosto da citação do escritor Mia Couto. Às vezes, penso na morte, mas logo esqueço", cita Sônia.

"Vamos ficar, né, caramba. É uma experiência nova, inusitada. Vamos ver no que vai dar", diz Gilda. "Com a peste negra caiu o feudalismo. A gripe espanhola abreviou o fim da Primeira Guerra Mundial. E o agora, com o coronavírus. O que vai acontecer?", reflete Helena.

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