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30 anos com HIV: "Ousamos continuar exercendo nossa sexualidade"

Vanessa Campos: 30 anos de HIV - arquivo pessoal
Vanessa Campos: 30 anos de HIV Imagem: arquivo pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para Universa

16/01/2020 04h00

"Foi um raio improvável que caiu na cabeça de uma menina de 17 anos no início dos anos 1990", diz a amazonense Vanessa Campos, 47, sobre a infecção pelo vírus HIV. Era o início da epidemia no Brasil. Pouco se sabia sobre a doença e as formas de prevenção ainda estavam pouco difundidas. Em pleno início da vida sexual com o primeiro namorado, a garota se contaminou.

Desde então, já se passaram três décadas. Durante esse tempo, Vanessa enfrentou discriminação, desconhecimento e batalhou para garantir seus direitos de mulher e soropositiva. Chegou a mudar de cidade para recomeçar uma nova vida (foi de Manaus, onde nasceu, para o Rio de Janeiro) e teve de esconder a doença até de parentes.

Mas também casou duas vezes, teve três filhos (duas garotas de 18 e 20 anos e um rapaz de 26 anos) e hoje é representante da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+BRASIL) e é membro do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas.

Há pouco mais de um ano, cansada de medir as palavras e os modos para falar sobre sua condição e decidida a ajudar outras mulheres, Vanessa foi para a internet. Criou uma página no Facebook, a Soroposidhiva, e, ali, passou a publicar depoimentos de sua experiência e outras informações sobre HIV/Aids.

O perfil, que hoje tem mais de 4 mil seguidores, se tornou uma espécie de canal de informações para outras mulheres que, como ela, convivem com o HIV. Uma das postagens mais recentes, de 5 de janeiro, ganhou grande repercussão. Foram mais de 14 mil curtidas e 2,7 mil compartilhamentos até o fechamento desta reportagem.

No texto, Vanessa fez um breve resumo dos últimos 30 anos vivendo com o vírus, seguido de um desabafo: passado tanto tempo, o estigma continua. Escreveu:

"O democrático vírus da AIDS não impediu que a sociedade escolhesse inicialmente os 5H [hemofílicos, homossexuais, haitianos, heroinômanos (pessoas dependentes de heroína) e hookers (profissionais do sexo, em inglês] como bodes expiatórios da epidemia. Multiplicou-se estigma, preconceito e discriminação que se sobrepõem até hoje ao amor e solidariedade.

Nossos corpos continuam sendo "vigiados" e taxados de impróprios para amor e sexo, trabalho e lazer, e condenados ao inferno porque ousamos continuar exercendo nossa sexualidade a despeito da hipocrisia do fundamentalismo religioso."

30 anos de histórias

Os primeiros sinais da infecção por HIV apareceram em janeiro de 1990, apenas dois meses depois que a garota tivera sua primeira relação sexual com o então namorado. Na ocasião, Vanessa teve febre intensa, dores no corpo, cansaço extremo e algumas manchas vermelhas na pele. O quadro, no entanto, não foi imediatamente associado ao vírus.

"Naquela época, até para os médicos a doença era coisa de gay, puta e drogado. Eu não me encaixava em nenhum destes perfis. Os sintomas passaram e continuei me relacionando com meu namorado", lembra. O episódio recebeu o diagnóstico de virose comum.

Só quase dois anos depois ela descobriu o que realmente estava acontecendo com seu corpo. E isso depois de uma tragédia. Vanessa e o primeiro namorado tinham terminado o relacionamento há pouco tempo quando o rapaz sofreu um acidente de trânsito e fraturou o fêmur. Foi hospitalizado e, durante a internação, acabou contraindo meningite criptocócica e morreu.

Médico, o pai do garoto estranhou o fato de o filho ter aquela doença, comum em pessoas com sistema imunológico muito deficiente, durante um tratamento tão simples como o dele. Assim, decidiu enviar amostras de sangue para um laboratório em São Paulo investigar o que poderia ter acontecido. Na época, não era possível realizar o exame em Manaus. Quase dois meses depois, ele recebeu o resultado: o filho era HIV positivo.

Vanessa foi então avisada e colheu amostras de sangue que também tiveram de viajar para serem testadas. O período de espera foi de muita apreensão. As notícias sobre Aids eram frequentes e dramáticas. O número de mortos era alto. E as mortes de pessoas famosas, como Cazuza, que faleceu em 1990, e Freddie Mercury, no ano seguinte, ainda estavam frescas na memória.

"O teste positivo era uma sentença de morte. O que eu sabia do vírus naquela época? Sabia que as pessoas morriam rápido e muito debilitadas. Eu lia muito porque meu pai comprava muitas revistas e conheci a história do Cazuza, por exemplo. Acabei me preparando para o pior resultado", recorda.

Nova vida, novo endereço

Com o resultado em mãos, Vanessa adotou a postura de cuidar ao máximo da saúde, como já costumava fazer. Continuou praticando atividade física, se alimentando de forma saudável e se mantendo distante do álcool, do cigarro e de outras drogas. "Eu achava que morreria muito rápido. Naquela época, a gente tinha um prazo de validade muito curto. Mas resolvi que continuaria cuidando de mim", diz.

Uma coisa, porém, teve de mudar: o endereço. "Eu e meu ex-namorado éramos de classe média alta, estudamos em escola particular e, naquele pequeno círculo de amizades, a fofoca sobre a causa da morte dele se espalhou. As pessoas apontavam para mim por onde eu andasse porque eu era a ex-namorada do cara que morreu de Aids. Isso me fazia muito mal".

Vanessa, então, decidiu se mudar para o Rio de Janeiro, onde começou uma nova vida. Foi na nova cidade que ela conheceu o primeiro marido. O rapaz se relacionou com ela com a condição de que os pais dele não soubessem de nada. Em 1993, o casal engravidou sem querer do primeiro filho, que nasceu saudável.

Três anos depois, ela se divorciou e voltou à cidade Natal, onde casou novamente, em 1997. Com ele, ela teve as duas meninas. O segundo marido mostrou a mesma postura do primeiro: encarou a mulher com HIV, mas não quis que a família soubesse de nada.

Anonimato nunca mais

Graças ao tratamento seguido com rigor, a carga viral de Vanessa está indetectável há 15 anos. Isso significa que ela não corre o risco de transmitir HIV para ninguém, inclusive para parceiros sexuais. A boa saúde não é suficiente, porém, para livrá-la do preconceito.

É comum que as condições impostas pelos seus ex-maridos, de não contar para a família sobre o vírus, se repitam em novos possíveis relacionamento. "Isso acabou sendo uma constante, mas eu não me sujeito mais a essas coisas", diz ela que não admite mais ser simplesmente "aceita". Ela quer ser amada e respeitada. "A única aceitação necessária vem de mim mesmo".

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