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Vítimas de estupro contam como falar sobre abuso ajudou a superar o trauma

Falar sobre a violência que sofreu pode, inclusive, proteger a vítima de um novo abuso - Getty Images/iStockphoto
Falar sobre a violência que sofreu pode, inclusive, proteger a vítima de um novo abuso Imagem: Getty Images/iStockphoto

Camila Brandalise

De Universa

12/12/2019 04h00

Luciana*, 39, foi estuprada pelo marido durante 14 anos de casamento. "Foram muitas vezes, mas a primeira em que me dei conta de que era estupro foi quando acordei com a mão dele dentro de mim, em 2011. Insisti para que parasse e vesti uma calça jeans para continuar dormindo." Vítima de abusos físicos e psicológicos, além dos sexuais, a bancária de Brasília denunciou o então companheiro por violência doméstica. Mas só conseguiu contar para a família que havia sido estuprada dois anos depois, e quando já estava no processo de separação — o divórcio saiu em 2014.

Ela diz que decidiu dividir seu sofrimento quando denunciou o ex-marido à polícia pela terceira vez. "Descobri, vendo meu pai chorar por causa da minha dor, que eu não estava sozinha. Que poderia ter contado antes e sofrido menos. Isso me deu força para contar para mais pessoas", diz. "Quem me escuta fica indignado, então sei que não estou errada, que não foi ou é minha culpa. E o mais importante: que homens não são assim e que o meu então marido não deveria ter agido daquela maneira comigo", diz.

Psiquiatra do Ambulatório de Sexualidade Humana do Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto, Thiago Dornela Apolinário explica que a dificuldade em falar é uma característica da vítima de violência sexual. "O trauma deixa a pessoa em uma condição de impotência e isolamento", afirma Apolinário, que atualmente conduz uma pesquisa sobre as sequelas que as vítimas de estupro carregam. E ressalta o benefício da fala para superar o sofrimento. "Quando ela compartilha, rompe com essa condição que a paralisa."

"Existe muito medo do julgamento, o que faz com que a mulher não consiga expor o que aconteceu. Ao contar para alguém e perceber que a pessoa valida o seu sofrimento, ela entende que foi, de fato, um trauma e que merece apoio e cuidado", diz o psiquiatra. Ele afirma, porém, que esse ato deve acontecer no tempo de cada mulher: "Se ela ainda não tem condições emocionais para compartilhar, isso tem que ser respeitado. Às vezes, o estupro é tão dolorido que as vítimas não conseguem verbalizar."

Primeira vítima a denunciar publicamente o médium João de Deus por estupro, a coreógrafa holandesa Zahira Lieneke Mous defende que mulheres compartilhem suas histórias para retomar o poder sobre suas vidas. "Fui estuprada aos 19 anos, disse 'não' repetidamente e não fui ouvida. Isso me fez sentir como se eu não importasse. Quando contei o que aconteceu para o Pedro [Bial, em programa exibido em dezembro de 2018], foi como se eu tivesse recuperado a voz. E, com isso, eu ganhei meus limites e minha vida de volta", diz.

"Meu conselho para as vítimas é encontrar pelo menos uma pessoa em quem confie e perguntar se ela tem espaço para você compartilhar sua história. É muito importante dividir para que você possa começar a liberar o estresse mantido dentro do seu corpo. Depois disso, há toda uma série de coisas que precisam ser feitas para curar completamente o trauma e o estresse pós-traumático. Mas falar sobre isso é um bom começo. Você merece recuperar seu poder."

"Eu fui vítima. Não sou mais"

Luciana passou a buscar nas redes sociais uma maneira de conversar com outras mulheres que tinham passado por situações parecidas com a dela. Encontrou um grupo no Facebook que reunia vítimas de violência e hoje participa das interações do mesmo grupo no Whatsapp.

"Era comum eu ficar triste pelo que tinha vivido, então procurei no Face algum lugar em que pudesse conversar com alguém que soubesse o que eu tinha passado, alguém que também tivesse vivido uma situação como aquela. Conheci outras histórias de superação, que me ajudaram muito", diz. "Eu não me intitulo vítima. Eu fui uma, já não sou mais."

Contar para alguém tem ainda o poder de ajudar a vítima a se livrar das agressões, segundo Apolinário. Primeiro, por se dar conta, ao falar e organizar os pensamentos, de que o que vive é uma violência e, a partir daí, procurar ajuda para sair da situação. Para Luciana, é também uma maneira de barrar as ações do agressor. "Quando a gente se cala, não denuncia e não compartilha com ninguém, o estuprador não é punido. E a vítima pode ser vítima novamente da mesma pessoa, como eu fui. Ou ele pode continuar com o ataque à próxima mulher."


"Entendi que não era minha culpa"

A dona de casa Gabriela Santos Santana, 20, foi estuprada quando tinha 15, em um primeiro encontro. Ela já havia sido abusada na infância dos 10 aos 13 por um tio e fazia terapia para tratar o trauma anterior. Mas a nova violência fez as sequelas do passado voltarem. Gabriela passou a se automutilar e consumir álcool excessivamente para tentar estancar a dor.

Em 2018, criou uma página no Instagram, Sou Vítima, em que reúne relatos de mulheres contando que foram estupradas. Depois de um tempo, postou o seu próprio depoimento e recebeu mensagens de apoio e compreensão. "Entendi que não era minha culpa."

"Consegui me libertar de quase todas as sequelas por meio da fala. Continuo sempre contando o que vivi. Todas as pessoas com quem convivo já conhecem a minha história. E, sempre que falo, é a mesma sensação: liberdade, alívio, paz. Não poderia ter tomado outra decisão. Na minha opinião, falar sempre foi e sempre será a melhor escolha."

"Sentia repulsa só de pensar em um cara me tocando"

A publicitária Carolina*, 29, foi vítima de uma tentativa de estupro em 2008, também durante um encontro. Os dois se encontraram em uma lanchonete e, no final da noite, o homem ofereceu uma carona. Ela aceitou. "De repente fui prensada contra o carro. Ele era bem maior que eu, conseguiu abrir minha calça. Quando vi, ele estava tentando abrir a própria calça. E eu resistindo. Numa brecha, consegui fugir."

O choque foi tão grande que ela só conseguiu falar pela primeira vez sobre o que tinha acontecido em 2017. "Me bloqueei automaticamente. Passei quase dez anos com um trauma que me impediu de ter relacionamentos. Sentia uma repulsa gigantesca só de pensar em um cara me tocando." Os primeiros a ouvirem a história foram seus pais. "Só contei por causa de uma briga de família, no auge de uma discussão. Meus pais queriam ir na tal lanchonete em que ocorreu a tentativa de estupro e eu não queria ir. Tive uma crise de choro e falei."

Carolina* diz ter tirado "um peso do tamanho do universo das costas". "Eles começaram a entender porque eu ficava irritada quando alguém falava de sexo perto de mim ou por que eu nunca namorava com ninguém", lembra. "Minha mãe me incentivou a buscar psicólogo e psiquiatra. Fiz isso e foi todo um processo específico que a terapeuta fez pra mim que me ajudou a evoluir até agora", diz a publicitária. "Não é que eu saio contando para todo mundo. É algo íntimo, conto para pessoas mais próximas."

"Quando você passa por um trauma sexual como eu passei, vê o sexo como algo asqueroso, nojento. Eu via aquela coisa de 'ter um relacionamento sexual' e tinha um medo gigante de que aquilo me machucaria demais. Foi com muita conversa que eu comecei a entender que o sexo em si não é errado e não machuca. Mas, sim, a agressão, aquela coisa do poder que um estuprador quer ter sobre a vitima. Para você ter uma ideia, só fui voltar a beijar alguém com 25 anos. Hoje, aos 29 anos, ainda sou virgem."

"Quero botar uma pedra nessa história"

O psiquiatra Thiago Apolinário diz que é comum as vítimas que procuram ajuda no sistema de saúde negarem auxílio psicológico. "Elas falam que querem 'botar uma pedra em cima disso'", conta. E, ainda que seja importante respeitar o tempo de cada uma para se abrir, o médico lembra que o silêncio pode trazer consequências a longo prazo, como o aparecimento de transtornos psiquiátricos. "Podem surgir depressão, disfunção sexual e dificuldades com relacionamentos", diz.

Para quem está em busca de ajuda, o especialista sugere procurar o Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) local, que conta com profissionais da área da psicologia. Outra opção é buscar grupos de apoio em redes sociais. "Nos fóruns, a mulher pode ter o anonimato preservado e vai entrando em contato com seu trauma gradualmente", diz. "Perceber que não está sozinha em sua dor, que outras mulheres passaram pelo mesmo, é parte do processo terapêutico."

*Nomes fictícios foram usados no lugar dos nomes reais a pedido das entrevistadas.

Violência contra a mulher