Topo

Livro "Leila"-uma baleia filhote-fala liricamente de abuso sexual infantil

"Leila" conta a história de uma baleia que é assediada por seu vizinho - Divulgação
'Leila' conta a história de uma baleia que é assediada por seu vizinho Imagem: Divulgação

Jacqueline Elise

Da Universa

19/07/2019 04h00

Uma baleia filhote chamada Leila decide, num belo dia, passear por lugares mais distantes do mar. No caminho, é abordada por seu vizinho, o polvo Barão, que a chama de "minha pequena". O que acontece a partir dali é um relato sutil, mas fidedigno à realidade de quem já sofreu algum tipo de abuso sexual: Leila tem seus cabelos cortados "porque fica melhor assim" para o polvo, ele puxa o laço de seu biquíni e beija seu rosto, e ela se senta "esquisita". Ele arremata: "esse vai ser o nosso segredo".

Esta é a trama do livro infantil "Leila", criado pelo escritor Tino Freitas e pela ilustradora Thais Beltrame. Apesar do tema forte, o livro se preocupa o tempo todo em passar a mensagem de maneira leve, por vezes deixando as ilustrações falarem mais do que o texto. Segundo os autores, a mensagem do livro é o abuso contra crianças e também a de que é possível para elas "encontrar a própria voz". E a inspiração de tudo isso veio de um episódio que Freitas testemunhou, em 2014.

"Eu fui a um evento a convite de uma escola em Porto Alegre. Lá, eles fizeram um concurso de desenho com base nas histórias dos meus livros, e o desenho vencedor seria estampado em uma camiseta que seria dada a mim", relata o autor. "Quem ganhou foi uma menina, que quando foi me dar a camiseta, viu que ela ficou apertada em mim e começamos a rir da situação. Estávamos nos divertindo, até que eu dei um abraço nela e fiz um comentário sobre seu sorriso, mas não lembro exatamente qual. Na hora, ela saiu do abraço, o sorriso se desmanchou e ela ficou muito assustada. Terminou correndo para se esconder com uma das professoras. Na minha cabeça, posso ter servido de gatilho para alguma coisa, porque ela estava radiante e depois, passou o evento todo abraçada com a professora e assustada. No final do dia, eu conversei com a professora sobre o que havia acontecido, mas não tive mais notícias da menina".

O acontecimento ficou na sua memória por dias, e apesar de não saber dizer se a aluna realmente tinha passado por algo, ele associou a reação aos diversos relatos de abuso sexual infantil e de posteriores mudanças de comportamento das vítimas. "Aquilo me deixou muito transtornado, e eu sabia que precisava escrever sobre isso".

Entendendo o abuso

Trecho do livro no qual o Barão puxa o biquíni de Leila - Divulgação
Trecho do livro no qual o Barão puxa o biquíni de Leila
Imagem: Divulgação

"Leila" começou a ser escrito em 2015, e passou por muitas mudanças no processo. "Era sobre a Léia e o Barão, uma brincadeira com baleia e tubarão. Mas na mesma hora eu me toquei de que, com o acordo ortográfico, Leia perdia o acento e não ficava tão legal a pronúncia. A solução que achei foi lembrar da Leila Diniz e tudo que ela representou na história das mulheres brasileiras. Aí cravei o nome 'Leila'", conta.

Ele também afirma que o livro é uma homenagem à nadadora Joanna Maranhão, que relatou ter sofrido violência sexual quando criança e que foi a inspiração para a lei nº 12.650, que determina que o prazo para prescrição dos crimes sexuais contra crianças e adolescentes só começa a contar quando elas completarem 18 anos. "Mas isso tudo são segredinhos do livro, não tem nada explícito na história", diz Freitas.

"O Tino me procurou dizendo que havia trabalhado por muitos anos no texto porque trata-se de um tema difícil. Ele queria ir além do didático; buscava um caminho mais emocional. E entrava nessa dificuldade o fato de a visão dele sobre o assunto ser a de um homem que nunca sofreu um abuso desse. Quando ele pensou o livro, queria que tivesse muita imagem; esse é um espaço muito difícil de trazer em palavras. Foi mais ou menos um ano de trabalho até chegar na fase final", conta Thaís.

Mas como falar de abuso sexual contra crianças quando você nunca passou por isso? Segundo eles, com muita pesquisa, troca de informações e conversas.

"Eu fui atrás de campanhas e hashtags que saíram ultimamente: #meuprimeiroassédio, #meuamigosecreto, #MeToo. Foi muito doloroso. E uma das pesquisas mais cruciais foi assistir à série "302", do canal Curta!, do fotógrafo Jorge Bispo (na série, mulheres são convidadas a contar uma passagem de suas vidas que estava guardada em segredo. Depois do depoimento, Bispo faz um ensaio nu delas). A maioria dos relatos era sobre abuso sexual. Uma coisa é você ler um relato, outra, é ver e ouvir uma pessoa contando", lembra Freitas.

"Eu posso transpor minha dor de violência para um assalto. Isso foi algo pelo qual eu passei e que eu posso guardar na memória. Mas, enquanto homem, eu não sofro alguns tipos de violência. Então eu precisava me 'banhar' nessa sensação do que é o abuso para que eu pudesse escrever sobre a experiência de uma menina -- não que o homem não seja abusado também, mas, nas estatísticas, elas são maioria".

E Thais interferiu na história para que ela ficasse o mais realista possível, ainda que não tivesse imagens tão explícitas ou chocantes de abuso. "O personagem do Barão era um tubarão antes. Eu achei isso problemático porque o tubarão já tem essa imagem de predador, de 'monstro'. E eu quis trazer para a história que, em geral, não é isso que acontece na prática: o abusador é, na maioria das vezes, um conhecido, alguém que a pessoa confia, que parece incapaz de fazer uma maldade dessas. Foi aí que eu sugeri que o Barão se tornasse um polvo que, ainda por cima, é menor que a baleia, para parecer mais inofensivo à primeira vista".

A delicadeza foi uma constante para que Thais pudesse ilustrar a obra. "O Tino já tinha na cabeça que a Leila iria para o fundo do mar depois do abuso para depois voltar à superfície. A gente estabeleceu que o fundo não é necessariamente um vazio, então procuramos símbolos que pudessem mostrar angústia, como o navio encalhado no fundo do mar, o lixo nas profundezas. Tem horas que não há palavras pra explicar o sentimento. Essa é a importância de deixar a imagem falar, porque é um sentimento que muitos não conseguem nem nomear", diz a ilustradora.

Podemos falar de abuso com crianças?

"Tem horas que não há palavras pra explicar o sentimento de ser abusado", afirma a ilustradora Thais Beltrame - Divulgação
"Tem horas que não há palavras pra explicar o sentimento de ser abusado", afirma a ilustradora Thais Beltrame
Imagem: Divulgação

Uma preocupação que passou pela mente dos autores foi se o livro enfrentaria represálias: a finalização foi feita em 2018, no auge da polarização política durante o período eleitoral e com discussões a rodo sobre se crianças devem aprender educação sexual nas escolas.

"Nossa preocupação maior era que nossa editora barrasse o livro nessa época. Porque a coragem maior é dela, de publicar o 'Leila' nesse cenário político. Mas ela entendeu que era necessário, mesmo que ele não fosse tratado em escolas. E o livro é importante para meninas e para meninos também, não porque eles vão obrigatoriamente passar por isso, mas para que eles não sejam abusivos no futuro, que entendam que isso é errado", pensa Freitas.

"As pessoas têm achado que não se pode falar desses temas com crianças. Mas essa é uma lógica absurda. Se você tem um livro que pode ser um suporte para abordar o assunto em casa ou na escola com o professor, ela vai ter um lugar seguro para falar sobre, para que ela não sofra com isso fora de ambientes seguros para ela".

E mesmo que "Leila" tenha sido lançado somente há dois meses, o autor e a ilustradora observam que a história pode ter várias leituras. "Alguns adultos até disseram que acharam o livro forte, mas que tem uma sutileza que talvez consiga conquistar as pessoas. Ele foi concebido com a ideia de falar sobre abuso, mas transcende isso. Por exemplo, meu sobrinho associou o tema ao bullying, que estava sendo discutido na escola. Então dá para pegar várias vertentes", conta Thais.

"O livro não é só para quem sofreu um abuso, mas principalmente para entender a importância de escutar as pessoas. Eu li muitas revistas, matérias de internet e pesquisas falando sobre a mudança de comportamento das vítimas de abuso sexual e faz diferença prestar atenção nisso. Vamos escutar mais as pessoas, especialmente as crianças. 'Leila' é sobre a importância da voz", afirma Freitas.

"Leila" (2019)
Autores: Tino Freitas e Thais Beltrame
52 páginas
Editora Abacatte

Violência contra a mulher